segunda-feira, 31 de julho de 2017

O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas


Não convivo em sociedade tanto quanto vocês, mas o pouco de convivência que experimento serve para colocar minhas antenas de fora e captar tudo o que passa com as pessoas, essas figuras interessantíssimas e gravemente defeituosas. Se nem sempre posso fruir a vida em sociedade – porque há um limite para a dissimulação defensiva –, posso ao menos aprender alguma coisa com ela, usá-la para elaborar meus textos mentais (o blog dentro da minha cabeça tem dezenas de vezes mais conteúdo que este, que frequentemente abandono às moscas) e, quando possível, tomá-la como base para criar personagens. Um dos aprendizados que tomei ao realizar tantas observações foi o de entender que todos, mesmo os mais improváveis, têm fórmulas para gerir a vida. E essas fórmulas podem ser boas, mas geralmente são equivocadas e nocivas. Quem pode ser refém delas? Qualquer um que conviva com um “formulador” contumaz. 

Sempre tive receio dos formuladores quando eles tinham algum poder sobre mim: um chefe, um professor, um atendente para serviços que necessito com urgência, um médico. O formulador, quando está muito certo da teoria fajuta que ele acredita ser aplicável de maneira radical, pode destruir minha vida ou, como dizem os coitadistas cheios de não-me-toques, “minha saúde mental”. Experimente “ter o signo errado” quando seu contratador for um aficionado por astrologia que pensa que, de acordo com a data em que nasceu, você só pode ser um problema. Experimente não gostar de crianças ou de cachorros quando tiver uma chefe – e eu ouvi isso de uma superiora – que diz a sério que “nunca é possível confiar em alguém que não goste de crianças ou cachorros”. Francisco Daudt da Veiga, psicanalista que aceitou fazer participações crônicas no modorrento programa da Fátima Bernardes, foi convidado a se retirar após o ápice de suas opiniões polêmicas: disse que não gostava de cachorros. Isso foi demais para os telespectadores, que pediram a cabeça de Daudt porque ele correspondia à fórmula do “somente uma pessoa horrível pode não gostar de cachorros”. Fórmulas como essas podem ser bem danosas, principalmente nas mãos de quem tem autoridade sobre os outros, mas o saco é muito mais fundo. Por isso apresento-lhes O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas. Os nomes próprios são somente para exemplificar, portanto são fictícios. 

“Não tenho nada contra a Wanda, ela nunca fez nada de mal para mim.” [Sobre Wanda, que todos sabem ser uma pessoa sem caráter.]

Que planeta ególatra é esse que habitamos onde uma pessoa só pode receber uma avaliação negativa minha se tiver feito algo de forma específica contra mim? Existem alguns modos de eleger alguém como ruim: a) nunca vi fazendo mal a ninguém, mas tem uma personalidade horrenda, b) fez mal considerável ou reiterado a mim, sem motivo razoável, ou c) fez mal considerável ou reiterado a alguém, pelo motivo errado e/ou sem ser uma reação a um mal feito anteriormente. Isso tudo me parece muito justo. Há, no entanto, uma parcela de indivíduos considerados íntegros, pacíficos, de boa índole, incapazes de falar mal dos outros, que se saem com essa quando se fala sobre um notório ímpio: “não tenho nada contra ele, pois nunca me fez nada”. Muito bem, vamos ao drama: Hitler nunca me fez nada. Devo deixar de ter algo contra ele por isso? E Jesus: acham ajuizado que alguém devesse ter tomado as rédeas desse homem que resolveu se opor a tanta gente que não tinha feito nada contra ele? “Jesus, por que o senhor está destruindo o comércio do povo que se instalou no templo? O que ele lhe fez de mal?” No pior dos casos, Victor Hugo entra em cena com seu “quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas”. Ao não agirmos contra uma pessoa ruim somente porque “ela não nos fez mal particularmente”, podemos colocar em risco pessoas boas que são atingidas por ela. 

“Rogéria é uma boa pessoa, pois nunca fala mal de ninguém.”

Nem sempre “quem não fala mal de ninguém” o faz porque é budista em grau máximo; ou seja, não falar mal de ninguém pode não ser boa coisa. Há pessoas que não falam mal de outras porque têm medo de ser confrontadas – assim como há quem não furte somente porque tem medo de ser pego, e não porque aderiu ao princípio de “não tomar o que não é seu” –, porque querem ser gostadas por todos ou porque, simplesmente, são bundonas. O bundão vê alguém ameaçando um pequeno funcionário dentro de uma empresa e não denuncia “porque não quer se envolver”. O bundão vê um colega de trabalho na escola desrespeitando uma criança e fecha os olhos “porque não quer se meter em problemas”. Um mundo cheio desses bundões que não falam mal de ninguém que mereça é um mundo repleto de injustiça. Não é uma virtude você saber que uma pessoa bate o ponto e vai para casa no horário de trabalho e guardar isso consigo. Não é uma virtude você ver que um amigo está enganando outro suposto amigo apenas por interesse (dinheiro, poder, status) e deixar que o enganado pereça sem saber quem causou sua tragédia. Calar sobre uma informação que se tem pode ser um erro grave em vez de uma qualidade. 

“Cláudio era uma pessoa muito bondosa, amiga, genuína.” [Sobre Cláudio, que acabou de morrer.] 

No excelente livro Fim, da Fernanda Torres, um personagem perde o pai. Esse pai era um canalha e foi um péssimo pai. O personagem hesita um pouco, mas prossegue: convida todo mundo para participar do sepultamento do canalha que foi seu pai. Sem floreios, sem mentiras. Quando Ayrton Senna morreu, Nelson Piquet não foi ao seu enterro, para o espanto de muita gente. Espantoso seria, na verdade, se tivesse ido ao enterro de uma pessoa que detestava em vida, e se começasse a fazer um panegírico. Nós, como foi bem dito pelo Contardo Calligaris em entrevista no Roda Viva, temos essa mania estranha de elogiar os mortos, mesmo que não mereçam. (Nós não, porque eu não faço isso.) Tem meu respeito quem sabe avaliar um morto como a pessoa que foi, e não como a pessoa que fica bem que tivesse sido. Vi poucas pessoas morrerem. Todas permanecem na minha avaliação iguaizinhas ao que eram em vida. 

“Paulo dirigia embriagado na rodovia e desmaiou ao volante. Seu carro foi parar na outra pista e todos os caminhões que vinham conseguiram desviar. Não era a vez de Paulo. Se não morreu, é porque não era para ter sido.”

Esse tipo de sentença já mexe comigo porque subentende a presença de Deus, e é um Deus com um modo de operar estranho. A maioria das pessoas que acredita em Deus parece achar que o Criador é trouxa ou astigmático: Ele protegerá quem colocou o adesivo “fé” no próprio carro, Ele dará o céu a quem crê Nele mesmo que essa pessoa não faça o bem, Ele permitirá o paraíso a quem acumula posses mesmo tendo deixado claro que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus”, Ele só observa atos e não pensamentos, etc. Mas deixemos Deus um pouco para lá, nas nuvens que se confundem com sua barba. A questão é: se temos hora para morrer, por que seguir normas de segurança? Se eu já tenho um momento “que é para ser”, por que atravessarei na faixa e somente após o semáforo de pedestres ficar verde para mim? Por que evitar comer açúcar? Se nossa hora está destinada, não há o que fazer para alterá-la. Piquemos essa abobrinha e façamos um refogado com ela. 

“Foi Deus que me salvou.” [Dito por Alice, em entrevista a um repórter do jornal local, após ser a única sobrevivente num acidente de ônibus que matou 38 pessoas.] 

Falta amor, altruísmo, compaixão, bom senso nessa fala. Imaginem que sou a mãe de um rapaz que morreu no acidente. Vejo a entrevista com a única moça sobrevivente e ela diz que Deus a escolheu para permanecer viva. Não é preciso estudo de nenhum tratado de lógica da Grécia Antiga para entender que meu filho, segundo essa moça, foi morto por causa de Deus, porque Deus quis. Mesmo que seja verdade – por que essa moça está se gabando disso num momento que é tão triste para mim e mais 37 famílias? Estou passando por algo tão deprimente e ainda tenho que ouvir isso? 

“Estou gorda como um barril, preciso emagrecer.” [Dito por alguém ao lado de uma pessoa gorda que não começou o assunto.] 

Digamos que somente metade de quem usa essa fala nessa circunstância – estar ao lado de outra pessoa de fato gorda que não começou o assunto – seja por provocação (e há quem diga que não coloco um pouco de otimismo nas ações humanas, que só uso meu parco conhecimento psicanalítico para compreender o mal). Se você for a pessoa atingida pela provocação, tenha pena, franca pena de quem faz isso. É complexo de inferioridade tentando se mascarar com arrogância. Alguém que precise disso para se sentir bem é digno de dó e deve levar uma vidinha interna muito triste. Se você é a pessoa que faz a provocação, bem, já explanei como é a sua vida. Falemos da outra metade, dos que dizem isso sem ser uma provocação ou indireta a quem esteja em volta. Há coisas, principalmente aquelas que concernem à imagem, que não devem ser ditas em qualquer momento ou devem ser ditas de maneira educada. Ninguém é obrigado a querer estar gordo – ou com outras características que se considerem socialmente desvantajosas –, mas é uma absurda falta de educação chegar ao lado de alguém de um jeito xis e dizer, com a boca cheia, que odeia estar com características daquele jeito xis. Uma vez uma mulher de cabelo cacheado disse horrores sobre o próprio cabelo, e disse que ia morrer se não conseguisse alisá-lo “para ficar decente para sair na rua”, ao lado de um homem negro com o cabelo pixaim. Isso não é “estar só falando sobre si” ou “estar apenas expondo as próprias preocupações”, isso é falta de respeito. É como dizer: “meu cabelo é uma droga, imagine o que eu penso do seu”. Não. Se você não diz ao lado de alguém sem pernas “ah, como é bom ter pernas!”, não sugira ao lado de uma pessoa gorda – ou orelhuda, nariguda, alta demais, baixa demais, magra demais, com olheiras, com manchas no rosto, dentes feios, corcunda, idosa, voz nasalada, língua presa – que você considera horrível estar parecido com ela. E lembre-se: reclamar com visível aborrecimento “ai, como estou velho!” ao lado de alguém mais velho que você também é falta de educação, principalmente se você for jovem. Friso isso porque ocorre com uma frequência assustadora. 

“Aquilo que odiamos nos outros é aquilo que odiamos em nós mesmos.”

Qual é o cabimento dessa autoajuda de quem se formou pelo correio? Tudo bem, eu de certa forma me formei pelo correio, mas gosto de ter pensado que criei essa expressão. Primeiro, gostaria de declarar que acho bom que se ataque o ódio, em especial quando ele é contínuo. Não gostar das pessoas é uma coisa – meu livro com os nomes está no terceiro volume e segue –, odiá-las já tem a ver com um tipo de paixão cega e arrebatadora. Quem odeia vai lembrar do objeto de ódio quando acorda, quando lê um livro, quando ouve uma música que o odiado estima, chega a casa à noite e passa tempo demais reclamando para o companheiro sobre o odiado (“porque fez isso, porque é assim, porque planejou assado”), enfim: tem fixação e gasta tempo. O odiado, enquanto isso, está lá sendo feliz ou outra coisa e nem imaginando que ocupa tanto a existência de alguém que só atingirá o clímax quando vê-lo queimando no meio da praça. Discordo da fórmula “o ódio só faz mal a quem o cultiva” porque já vi muitos odiados sofrendo nas mãos daqueles que os odeiam, atuantes como se estivessem numa batalha, mas acho que o pior dano ainda fica na carga de quem sente o ódio. Assim, combater o sentimento de ódio contínuo – o abrupto nós sempre temos e pode até ser salutar para estimular a ação – é bom. Mas afirmar que aquilo que odiamos nos outros é algo que odiamos em nós… A frase não é apenas cafona. É mentirosa. Eu odeio nos outros a inação a respeito do sofrimento animal que todos conhecem (podem desconhecer a dimensão, mas sabem que o sofrimento existe). O que isso tem a ver comigo? Exatamente: nada. Não como animais, evito usar coisas que agridam animais – como se pode considerar que odeio algo em mim quando odeio a esquizofrenia moral nos outros? Odeio nos outros a incapacidade de pensar “e eu na situação dessa pessoa não faria o mesmo?” antes de começar a tecer críticas. Estou odiando algo em mim? Não, porque me pergunto se não faria o mesmo na situação da pessoa que intento criticar. Se eu faria o mesmo, paro. Se eu não faria, critico. Jesus, que está muito participante nesta página hoje, criticava características que ele “não gostava” nos outros. Estaria a atacar o que havia dentro dele? Peguem todos os grandes nomes de homens que revolucionaram o mundo de maneira virtuosa e percebam que eles “não gostavam” ou “odiavam” vários pontos naqueles que combatiam. Alguém ousará dizer que Martin Luther King criticava nos outros aquilo que ele precisava trabalhar nele mesmo? 

“Se o garoto não tivesse tentado furtar a bicicleta, não teriam tatuado uma sentença em sua testa. Se o Charlie Hebdo não tivesse provocado, os muçulmanos radicais não teriam exterminado os jornalistas.” 

Considero muito grave quando converso com alguém que demonstra não saber aplicar o princípio da proporcionalidade – que deveria reger não só o direito penal, mas nossos julgamentos – a casos que ocorrem por aí. Uma esquerda tonta e injusta disse que se justifica o atentado ao Charlie Hebdo porque “os chargistas provocaram os muçulmanos ao desenhar Maomé em posições humilhantes”. Uma direita tonta e injusta – que se aproxima daquela esquerda pela teoria da ferradura – disse que se justifica a tatuagem na testa do garoto ladrão “porque ele não deveria ter tentado furtar uma bicicleta”. Agora imaginem um mundo dominado por juízes doentes que consideram que fazer uma charge deve ter como vingança o assassinato de dez pessoas e tentar furtar uma bicicleta deve remeter ao castigo que Deus aplicou a Caim. Criticou-se tanto o olho por olho e agora temos uma versão para o século XXI que é o “olho por todos os olhos da vila onde mora o autor do primeiro delito”. O mundo não acabará cego, mas exterminado. Quem pensa “bem-feito” em ocasiões como essa nunca se coloca no lugar de quem sofre a retaliação desproporcional. Mas deveria. E se já vai se defendendo com um “eu jamais faria coisas como essas”, talvez deva abrir o leque e imaginar alguém que ame – um dos pais, um dos filhos, um amigo querido – fazendo algo errado e recebendo de “troco” uma consequência excessiva. 

“Eu apanhei na infância e estou aqui, vivo, firme e forte.” [Dito por alguém que apanhou na infância e quer justificar por que hoje acha correto que se possa “dar uns tapinhas de vez em quando” nos filhos.]

É de muito mau gosto – e uma amostra de ignorância – querer transformar casos isolados em teoria. Conheci uma mulher que não amamentou o próprio filho porque ela, quando bebê, não tinha sido amamentada e mesmo assim “tinha se desenvolvido muito bem” (na época vivia doente, não sei em que parte estava o “bom desenvolvimento”; talvez considere bom o fato de não ter ficado uma anã pela falta de aleitamento). Conheci outra mulher (para uma antissocial, conheci bastante gente, não acham?) que permanecia fumando porque sabia de senhoras na família que fumaram até a longa velhice e tinham ficado bem. Poderia elencar muitas outras histórias de conhecidos, mas acredito que já foi possível entender o ponto: sua ilha não é parâmetro para explicar os continentes. E não faz sentido que você queira que os continentes se adaptem à realidade da sua ilha. Sou contrária à palmada e otras cositas aplicadas contra crianças porque o nome claro disso é violência. Se o esposo não pode bater na esposa, que direito ele tem de bater em quem é menos capaz que a esposa – as crianças? Além disso, a palmada é uma demonstração da falta de controle. Você não consegue se impor como autoridade perante tocos de gente e recorre à agressão. O fracasso é seu. Eu por muitos dias precisei ter domínio de quinze crianças, sozinha. Na maior parte do tempo, estava acompanhada por uma colega, mas ainda assim eram seis, sete, oito crianças para cada uma. E tínhamos domínio sem poder recorrer a qualquer palmada que fosse. A situação é idêntica em milhares de outras creches espalhadas pelo país. Hoje os pais têm um ou dois filhos, perdem o controle e já querem recorrer à violência para consertar sua incompetência. De que serve a pedagogia enquanto ainda estiver valendo a surra? O mais importante aqui é que a sua história de vida, ou a história de um bocadinho de fulanos que você conheceu, não serve para explicar o globo. 

“É fácil que ativistas favoráveis ao aborto falem sobre isso quando puderam nascer. Elas não estariam aqui se a mãe delas tivesse abortado.”

Essa fala dá continuidade à anterior. Minha história pessoal não deve ser parâmetro para a história de outras pessoas. É verdade, nasci porque minha mãe não abortou. Mas se eu tiver que ser contra o aborto por ter nascido porque minha mãe não abortou, pessoas que nasceram de mulheres estupradas devem ser favoráveis à continuidade da gestação de outras mulheres que foram estupradas? Se não fosse o estupro que a mãe delas sofreu, elas não estariam aqui hoje para opinar. É a história de cada um que deve basear o ativismo por uma lei? Já dei esse exemplo anteriormente, mas repito: por parte de mãe tenho antepassados escravos, ou seja, pessoas que foram arrancadas da África para trabalhar no Brasil. É fato que minha mãe só pôde conhecer meu pai nos anos 80 porque no passado seus trisavós foram escravizados. Devo, por isso, ser a favor da escravidão vivida no Brasil porque foi por meio dela que meus pais puderam se encontrar e me dar a vida? Como é fácil para tanta gente transformar questões valiosas e grandes em discussões mesquinhas. 

Obviamente não estou imune a criar fórmulas problemáticas e proferir abobrinhas. Mas eu gosto tanto da minha companhia que todos os dias converso comigo mesma sobre diversas coisas, e esses meus erros de percurso estão entre elas. Vocês deveriam conversar consigo mesmos também. Às vezes poderão se assombrar ao ver que estão conhecendo alguém a quem nunca foram apresentados.

***

NOTAS

1. Dissimulação defensiva é aquilo que você precisa fingir ser para viver em sociedade sem ficar muito prejudicado. Ela é aceitável porque parte do pressuposto de que você não é obrigado a morrer por uma causa. É preciso observar o limite, todavia, porque em poucos passos podemos adentrar o perfil da dissimulação pura, que é nojenta, rançosa e vergonhosa. Dissimulados puros dão por aí como chuchu e muito gente não vê – ou não quer ver.

2. Coitadistas cheios de não-me-toques são os mesmos que apoiam ideias como o leitor sensível, cargo criado por algumas editoras para que personagens polêmicos sejam censurados ao ofender os valores e as frescuras de alguém prepotente que esteja do lado de cá do livro. Há um esquerdismo que ousa falar de Orwell e citar 1984 sem perceber que ele próprio, esse esquerdismo ruinoso, quer com todas as forças criar uma situação semelhante ao Grande Irmão.

3. É possível que alguém não goste de animais e seja vegano, assim como é possível que alguém não goste de crianças e mesmo assim seja a favor dos direitos da criança (ou vocês acham que os autoproclamados “não gostadores de crianças” são capazes de ver um miúdo sendo decepado e depois ir ao cinema apreciar um filme de comédia?). Apesar de ser vegana, em nada me agradam as fórmulas sobre “pessoas ruins não gostam de cachorros” ou “gente que não presta não gosta de gatos”. Pessoas ruins e que não prestam maltratam cães e gatos ou permitem que maltratem esses animais. Gostar deles é uma opção, tratá-los bem é uma obrigação. Muitos de vocês, dog lovers, permitem e pagam para que atrocidades sejam feitas com outros animais – inclusive animais mais inteligentes que os cachorros, como os porcos – e vêm posar de bonitos só porque gostam de ver um animal abanando o rabo para vocês? Patéticos.

4. Desconfiei dos elogios que o livro Fim, da Fernanda Torres, estava recebendo, e por isso fiz o download do livro digital. Li na minha primeira semana de férias, em Lisboa, quando descansava no quarto da pensão e minhas roupas secavam no varal, na janela. (Algumas cidades na Itália e em Portugal podem proporcionar essa experiência tão popular). E o livro é ótimo. Estupendo. Dá vontade de reler logo que acaba. Livros bons merecem ser comprados. Comprei o livro.

4.1. Não é que eu não acreditasse no talento da Fernanda Torres. Como atriz, é ótima. Como colunista da Folha, é impressionante. Mas ler que ela tinha escrito “sobre velhos que vivem situações tristes e cômicas no Rio de Janeiro” e ver que o livro tinha na capa uma praia cheia de guarda-sóis… Venho da literatura em que a praia serve como pano de fundo – um pano de fundo vazio – para matar um árabe, não para ambientar a vida de idosos cariocas. Li resumos e pensei “deve ser um livro que ela está escrevendo para a mãe dela”. Pensei que os tais velhos iam aparecer como caducos, jogadores de dominó e falantes compulsivos – características que muitos velhos têm em contos, crônicas e prosas brasileiras. Preconceito meu. Recomendo a leitura com louvor. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Listas extraordinárias, de Shaun Usher


Não me lembro quando foi que comecei a fazer listas porque tenho a impressão de fazer listas desde sempre. Se já possuísse o conhecimento necessário e o cérebro preparado, provavelmente, recém-nascida, já teria elencado os pontos positivos e negativos da vida de bebê. O que sei é que desde a infância tenho feito listas, escritas ou mentais, sobre as coisas, muito disso influenciada pelas delícias que eu lia em livros e revistas quando alguém expressava seus gostos pessoais (ficções prediletas, nomes bonitos, medidas a tomar numa ilha). Eu pensava: “encantador isso, o sujeito ficar namorando a si mesmo criando suas listas”, porque quase todo tipo de autoenamoramento que não desandasse para o narcisismo e o esnobismo calculado me fascinava. Mas não ocorria só com listas personalíssimas. Gosto de listas estatísticas e de “procedimentos para caso este avião caia”. No meio dessa existência que é uma torrente de tópicos meus e dos outros, encontrar o livro Listas extraordinárias foi uma graça para uma madrugada divertida no sofá. 

O livro reúne listas diversas de pessoas que não se conectam sobre assuntos díspares. Há desde O dicionário do beberrão, de Benjamin Franklin, em que são listadas dezenas de expressões que servem para descrever um bêbado – “tomou o grande elixir de Hipócrates”, “arruinou a própria pança” e “está de pilequinho” são algumas delas –, até Motivos para internação no Hospital para insanos da Virgínia Ocidental, no período entre 1864 a 1869 – dentre os motivos, “induzido a entrar para o exército”, “leitura de romance” e “masturbação suprimida”. Li somente as listas que me interessavam porque o livro não é do tipo “para conhecer do cabo ao rabo”, mas do tipo “consulta”. Talvez seja uma boa ideia colocá-lo numa mesa de centro para instigar assuntos com as visitas. Melhor do que livros de arte decorativos sobre os quais ninguém sabe falar com profundidade. 

Selecionei algumas listas boas para exemplificar o tipo de lazer que o livro proporciona. No final da postagem, coloquei também algumas listas minhas. Nunca pude me denominar organizada porque a virtude da organização é vinculada somente a objetos, mas minhas listas são a prova de que sou organizada em conhecimento, pensamentos e fórmulas de conduta – um tipo de ordem que é mais importante do que ter uma mesa clean. Eu poderia determinar que da próxima vez que me perguntarem se sou organizada direi que “sim, organizada em pensamentos”, mas não o farei porque isso seria esperar intensidade de interlocutores possivelmente rasos que gargalham à toa e não compreendem sutilezas. Vida longa às listas, e mais desse tipo de cuidado privado a quem se desencantou de si mesmo numa época em que listas e diários só servem se forem jogados ao público que aplaude. 

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Na apresentação do Listas extraordinárias, Usher faz uma lista sobre por que é bom fazermos listas. Destaco dois pontos: 

4. Todos nós somos críticos. Classificar as coisas – da melhor à pior, da maior à menor, da mais rápida à mais lenta – pode ser viciante, sem dúvida porque faz com que nos sintamos muito inteligentes.
5. O tempo é precioso. Confiando um monte de informações monótonas a listas facilmente digeríveis, temos mais tempo para nos divertir e fazer listas.

*

Num dos diários de Susan Sontag, editados postumamente por seu único filho David, havia essa lista de Regras para criar um filho. Bonito e útil, seu conjunto de regras só é estranho pelo item 10: 

1. Ser coerente.
2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.)
3. Não elogiá-lo por alguma coisa que eu nem consideraria boa.
4. Não repreendê-lo com aspereza por algo que ele foi autorizado a fazer.
5. Rotina diária: comer, lição de casa, banho, dentes, quarto, história, cama.
6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.
7. Sempre falar bem do pai dele. (Nada de caretas, suspiros, impaciência, etc.)
8. Não desencorajar as fantasias infantis.
9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.
10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.

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Os pecados de Newton. Lista que Isaac Newton escreveu aos 19 anos. Era dirigida a Deus e confessava seus pecados. Dentre eles, “gulodice”, “desejar a morte e esperar que ela venha para algumas pessoas” e “fazer tortas no domingo à noite”. Impossível não se identificar. 

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A lista Como a minha vida mudou, de Hilary North, que não morreu no atentado de 11 de setembro porque se atrasou para chegar ao trabalho. Ela lembra de cada colega seu que foi vitimado na tragédia e escreve coisas como:

Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony. 
Não posso mais fazer confidências para a Lisa.
Não posso mais reclamar do Gary. 

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Os onze mandamentos de Henry Miller. Escritos enquanto escrevia seu primeiro romance publicado, Trópico de câncer:

1. Trabalhe numa coisa de cada vez até concluí-la.
2. Não comece a escrever outros livros, não acrescente mais nada a Primavera negra.
3. Não fique nervoso. Trabalhe com calma, com alegria, com despreocupação no que quer que seja.
4. Trabalhe de acordo com a programação e não de acordo com o humor. Pare na hora estabelecida!
5. Quando não conseguir criar, você pode trabalhar.
6. Consolide um pouco todo dia, em vez de pôr novos fertilizantes.
7. Seja humano! Procure as pessoas, frequente os lugares, beba, se tiver vontade.
8. Não seja um burro de carga! Trabalhe só com prazer.
9. Abandone a programação, quando quiser – mas retome-a no dia seguinte. Concentre. Restrinja. Exclua.
10. Esqueça os livros que você quer escrever. Pense só no livro que você está escrevendo.
11. Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

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Jack Kerouac, com sua lista Crença e técnica para a prosa moderna, parece ter sido lido por muitos escritores dos nossos tempos:

28. Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor.
29. Você é um gênio o tempo todo.

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Estranhas ideias de Lovecraft. 222 ideias que H. P. Lovecraft compilou para uso posterior em histórias de ficção. Coisas como:

73. Ratos se multiplicam e exterminam primeiro uma cidade e depois a humanidade inteira. Aumentados em tamanho e inteligência.
97. Medo cego de uma floresta onde cursos d'água serpenteiam entre raízes tortas e onde ocorreram sacrifícios terríveis num altar enterrado – Fosforescência de árvores mortas. Chão borbulha.

*

Um decálogo liberal, por Bertrand Russell: 

Talvez se possa resumir a essência da posição liberal num novo decálogo, que não pretende substituir o velho, mas apenas suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de divulgar, poderiam ser redigidos nos seguintes termos: 

1. Não tenha certeza absoluta de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder provas, pois elas certamente virão à luz.
3. Nunca tente desencorajar um pensamento, pois você com certeza vai conseguir.
4. Quando encontrar oposição, ainda que seja de seu cônjuge ou de seus filhos, esforce-se para vencê-la com argumentos, e não com autoridade, pois a vitória que depende de autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeite a autoridade dos outros, pois sempre vai encontrar autoridades contrárias.
6. Não use o poder para calar opiniões que considera perniciosas, pois, se fizer isso, as opiniões vão calar você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em suas opiniões, pois toda opinião que hoje é aceita já foi excêntrica no passado.
8. Tenha mais prazer com uma dissidência inteligente do que com uma concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deve, a primeira implica uma concordância mais profunda que a segunda.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, ainda que a verdade seja inconveniente, pois ela é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não tenha inveja da felicidade de quem vive num paraíso dos tolos, pois só um tolo achará que isso é felicidade.

*

Sugestões para tomar ônibus integrados. Essa lista, que não transcreverei por completo, me fez entender por que a ala delirante do movimento negro não costuma citar Martin Luther King em seus textos raivosos: porque ele não era um ativista movido pelo ódio. Luther King é um dos poucos cristãos que fazem jus ao título. Dentre seus preceitos está o de não revidar atos violentos. Negros que comemoram quando brancos são fuzilados por radicais islâmicos na França ou ficam do lado de criminosos como o Champinha (vale recordar aquele texto abominável da Marilene Felinto na Caros Amigos, em 2004) realmente não têm como idolatrar uma liderança que recomendava: “Se o xingarem, não responda. Se o empurrarem, não empurre. Se lhe derem um safanão, não revide, mas sempre demonstre amor e boa vontade.”. Claro está que mesmo com toda essa bondade Martin Luther King não perdeu dinamismo. Sua atuação pacífica não era sinônimo de inércia. Foi essa lista que me levou a um interesse maior por ele e me fez comprar sua autobiografia, publicada pela Zahar, que lerei quando voltar de férias, em junho. Segue a explicação de seu contexto e parte da lista: 

O curso da história mudou em 1º de dezembro de 1955, quando Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco e foi presa por isso. No ano seguinte, até os tribunais federais considerarem inconstitucional a segregação racial, ocorreu um boicote ao transporte público, liderado por Martin Luther King. Em 19 de dezembro de 1956, às vésperas de uma vitória histórica para os opositores da segregação, King elaborou uma lista de normas para aqueles que logo voltariam a tomar ônibus. 

1. Nem todos os brancos se opõem aos ônibus integrados. Aceite a boa vontade da parte de muitos.
2. Agora todos podem usar o ônibus inteiro. Sente-se no lugar vago.
3. Quando entrar no ônibus, peça ajuda ao céu e honre seu compromisso com a não violência absoluta em palavras e atos.
4. Demonstre em seus atos a calma dignidade de nossa gente em Montgomery.
5. Observe, em todos os aspectos, as regras usuais de cortesia e bom comportamento.
6. Lembre-se de que essa é uma vitória não só para os negros, mas para Montgomery e o Sul. Não se gabe! Não se vanglorie!
7. Fique quieto, porém amistoso; orgulhoso, mas não arrogante; contente, mas não ruidoso.
8. Tenha amor suficiente para absorver o mal e discernimento bastante para transformar um inimigo num amigo.

***

Agora, poucas das minhas inúmeras listas. A primeira poderia se chamar Melhores citações que estão em minha agenda 2017. São citações que fazem muito sentido para mim e tento sempre me lembrar delas para operar* coisas boas no meu cotidiano: 
[*operar é uma palavra de que gosto muito; seu problema é que foi sequestrada para uso abusivo por evangélicos e agora toda vez que a uso lembro de algum pastor] 

Pois cada qual considera claras ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas. 
Proust

Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
André Gide

Cuidado com a bondade dos maus. 
Esopo

O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos. 
Esopo

Quanto mais se estende o nosso conhecimento dos bons livros, mais se reduz o círculo dos homens cuja companhia nos é agradável. 
Feuerbach

Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade. 
Isócrates

Comunismo é uma religião igualzinha às outras. Pra quem acredita, não precisa explicação. Pra quem não acredita, não adianta explicação. 
Millôr Fernandes

A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz. 
Do Talmude

Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa. Devemos ir à casa delas para ver como são. 
Goethe

Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro como pródigos dos seus conselhos. 
Marquês de Maricá

Quem vive contente com nada possui todas as coisas. 
Boileau

Os covardes duram mais, mas vivem menos. 
Sofocleto

Quando um chato diz “eu vou embora”, que presença de espírito!
Millôr Fernandes

*

Lista Aos meus amigos, com amor. Coisas que eu gostaria que meus amigos soubessem e entendessem: 

1. Sou contra qualquer tipo de corporativismo, seja entre profissionais ou entre amigos. Se você errou, não defenderei seu erro. Se você me conta uma história do seu ponto de vista, eu vou perguntar se não podemos olhar do ponto de vista da outra pessoa. Não espere concordância.
2. Não sei consolar ninguém. Se me trouxer um problema, direi militarmente “erga-se, ande e vamos pensando em alguma coisa para resolver isso logo”. Não vou ficar às voltas com você e seu problema. Sou sargenta com os meus problemas, serei com os seus.
3. Está triste ou depressivo? A menos que seja porque perdeu uma perna, uma pessoa querida ou está sofrendo perseguição de agiotas, não sou boa companhia. Peça-me dinheiro, mas não me peça para ouvir lamúrias.
4. Sou sua amiga. Sua. Não tenho obrigação de gostar de quem está com você de forma acessória. Não me tornei amiga da sua esposa ou do seu marido, não me tornei amiga dos seus filhos ou dos seus outros amigos. Se sou sua amiga, é porque me interessei por você. Não me obrigue a gostar de outras pessoas ligadas a você. Vou respeitá-las, é claro. Mas não tenho que gostar delas. Tanto não sou amiga dessas pessoas que, se você morrer, eu não terei mais contato com elas.
5. Só porque às vezes eu sumo não quer dizer que não pense em você. Eu penso. Muito.
6. Se você se tornar uma pessoa idiota, nós romperemos nosso relacionamento como os casais rompem o deles.
7. Você não precisa ser debochado só porque eu sou debochada. Cada um tem uma personalidade e quem foge da sua sem ser para o lado da virtude geralmente não fica bem. Se se ofender com algum deboche meu, fale. Fale, não fique mudo, nem beiçudo, nem me dando indiretas. 

*

Modismos de escrita que mancham quem escreve

1. Abuso de palavras do momento. Ex: empoderamento, resiliência.
2. Recursos especiais pedantes. Ex: usar parênteses para fazer uma palavra se transformar em duas, como em “partidarismo: uma opção (i)moral?” ou “o misógino e seus (des)afetos”. Muito comum em trabalhos acadêmicos, o que explica por que a universidade está ao lado da autoajuda barata ao derrubar árvores para transformá-las em lixo paginado. 
3. Eufemismos fajutos. Ex: desconstrução.
4. Encheção de linguiça. Não ser objetivo para parecer erudito. Subjetividade não é nem de longe sinônimo de inteligência, pensamento galante ou coisa que o valha. Uma pessoa ignorante subjetiva é algumas vezes pior que uma ignorante prática no palavreado.
5. Recorrência periódica a comparações esdrúxulas desproporcionais. Ex: “Bolsonaro é Hitler”, “Cunha é Hitler”, “Alexandre de Moraes é Hitler”, “o golpe [sic] lembra a Alemanha nazista”, enfim, “todo mundo que eu não gosto é Hitler ou se assemelha ao nazismo”.

*

Quando tinha dúvidas se pedia a mão de sua prima Emma, Darwin escreveu uma lista com prós e contras sobre o casamento (essa lista está no livro de Usher). Eu, que estou chegando naquela fase, inclusive biológica, em que se deve decidir se filhos são bons ou não, também fiz minhas listas de prós e contras. Os contras vencem de maneira evidente, mas não vou fingir que não existam prós. 

Motivos para ter filhos

1. Porque sou uma pessoa com clara cartilha educacional. Se infelizmente casais sem planos educacionais têm filhos, por que eu que tenho um método e princípios não deveria tê-los?
2. Porque sou intransigente em relação ao respeito, coisa que os pais não exigem mais: uma criança deve cumprimentar os outros, uma criança não deve interromper adultos falando, uma criança não deve ser o centro das atenções, uma criança deve ter rotina e saber que na maior parte do tempo seus progenitores não estarão abertos a suas negociações. E em público uma criança deve entender o que seus pais querem somente pelo olhar. 
3. Porque crianças são divertidas. E crianças educadas são muito bonitinhas. 
4. Porque é maravilhoso ter uma autoridade saudável sobre alguém que você ama.
5. Porque é maravilhoso brincar com crianças de igual para igual, e eu sei fazer isso sem parecer uma adulta constrangida porque está tentando fazer uma girafinha falar com voz fanha. Aliás, brincar pra valer não me causa nenhum constrangimento.
6. Porque famílias bonitas me encantam. Famílias em que os membros são amigos, comem juntos, cozinham juntos, dão suporte uns aos outros, dividem as tarefas domésticas, celebram. Não estou falando de “o grupo da família” no Whatsapp. Estou falando de comunhão presencial.
7. Porque terei quem me acompanhe ao médico quando eu usar bengala. 

Motivos para não ter filhos

1. Porque gosto muito de mim mesma para ter que dividir minha atenção com outras pessoas.
2. Porque se me meto a fazer, quero fazer bem feito. Isso significa que eu não aceitaria ser uma mãe mais ou menos. Isso significa que a maternidade tomaria muito do meu tempo e da minha energia.
3. Porque eu gosto de silêncio. Gosto de tomar café (descafeinado) na janela e esperar aviões passarem, e eu sempre apreciei poder ouvir um avião passando ao longe e perceber que tudo o mais silencia. Gosto tanto do silêncio que gosto de estar em casa e ficar calada por horas: gosto de não ouvir nada, nem ninguém, inclusive minha própria voz.
4. Porque eu gosto de ir dormir muito tarde e acordar muito tarde. Porque gosto do ar das duas horas da madrugada. Ao mesmo tempo, sempre fiz questão de, por saúde e conforto, dormir minhas 8h diárias.
5. Porque não posso devolver meus filhos caso a experiência seja mais penosa do que gratificante.
6. Porque gosto de ficar por três horas, sem interrupção, lendo um livro.
7. Porque gosto muito de ler. Porque não quero ser uma pessoa do “não tenho tempo para”. 
8. Porque eu evito trazer quaisquer pessoas novas para meu ambiente familiar e também evito entrar em novos ambientes. Porque não preciso e não me farão bem novos relacionamentos íntimos forçados. Porque não quero ter que me envolver com os pais dos colegas dos meus filhos só porque nossos filhos são amigos. Porque me corroem obrigações sociais. 
9. Porque sou ansiosa, e mesmo com as coisas mais banais. Consegui trabalhar minha ansiedade e hoje estou calma. Mas para ela voltar basta um estalo, e um filho é muito mais que um estalo, é quase uma promessa de bomba.
10. Porque com meu senso de “a família é muito importante”, a possibilidade de que meus filhos não se tornassem amigos perenes seria muito ruim para meu coração (é por esse motivo que se eu tivesse filhos minha primeira opção seria dois meninos, a segunda opção seria duas meninas e só por último viriam um menino e uma menina: amizade perene entre irmãos de sexos diferentes são muito raras, tragicamente). 
11. Porque gosto de ser livre.

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Lista de nomes bonitos. Se existisse uma profissão chamada "aconselhadora de nomes", eu gostaria de fazer bicos nela. Acho uma dádiva meus pais terem me dado um nome bonito, pois deve ser horrível não gostar do próprio nome. Só penso que não precisavam ter me dado um nome do meio, já que meu primeiro nome é forte o suficiente e meu sobrenome é incomum. Gosto do meu nome do meio, Raquel, mas o considero desnecessário. Minha lista pessoal de nomes bonitos é formada desde a minha infância (cogitei, em certa época pueril, que um filho meu poderia se chamar Barbaro): 

Barbara, Úrsula, Rosa, Suzana, Ângela, Ângelo, Walter, Wagner, Fausto, Frederico, Francis, Bóris, Glauco, Rubens.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mente vazia, oficina do diabo; ou Por que o tédio cria pautas delirantes


Se tivesse que descrever este século em uma palavra, ela seria: delírio. Foquemos no Ocidente: é no Ocidente que eu vivo, é do Ocidente que eu sei e são os problemas ocidentais que costumam me preocupar mais amiúde. Não vou me manter o ano inteiro calada sobre a África para somente falar dela e das questões tenebrosas que muitos de seus países vivem – problemas que a Acadêmicos do Tatuapé e o movimento de mentalidade coletiva “África Linda” parecem desconhecer – quando algum colega manifestar seu horror por atentados que afetam “gente branca do Ocidente”. Estou explicando tudo isso para que não se levantem para expressar que “isso que você está falando não se aplica ao Oriente Médio”, como se meus pontos tivessem que ser como o imperativo categórico e ter abrangência universal. Defini, mal e humanamente, um determinado espaço sobre o qual expressar uma opinião. Já espanto por um momentinho quem merecia ter osso na língua. 

Machismo existe. Mas o Ocidente nunca foi tão pouco machista quanto hoje. Os esforços feministas não se voltam somente ao que resta de machismo, mas a uma fantasia de mentes desocupadas que passam à doença da paranoia: tudo é machismo. Se tudo é machismo, nada é machismo, e a existência deveria seguir como se navegássemos numa fluida maionese relativista – isso aí que aconteceu com você pode ser machismo, pode não ser, siga. Não é a experiência que vivemos, todavia. Impedida de seguir porque cada microagressão merece celeuma, a feminista padrão fará, diariamente, inúmeras paradas em sua jornada para apontar vestígios de violência masculina. É caso clínico: o paranoico não consegue ser feliz. Livre como é e filha da geração menos machista que já existiu, a feminista da terceira onda, que criou um efeito – sua fúria – e agora precisa encontrar as causas para seu novo entretenimento “político”, manterá uma cartilha. A cartilha da mulher revoltada entediada do século XXI: 

1. Nada melhor para afastar o tédio do que uma adversidade, que pode ser um câncer ou uma revolta. Na falta de um câncer por enquanto, revolte-se. O primeiro passo para um bom processo de revolta é buscar um inimigo específico. O problema é ele. Seu problema é ele. Se as coisas dão errado, é por causa dele. Esse inimigo é o homem. Aprenda com as grandes figuras que arrastaram multidões: muitas delas tinham um inimigo específico a combater. O povo quer objetividade, quer o nome dos bois, sejam os bois os judeus, os burgueses, os kulaks, os brancos, os negros, os norte-americanos ou os homens. A partir disso, você arranjou uma ocupação. Sua vida vai passar a fazer mais sentido com esse engajamento. Isso sem esquecer de mencionar que é sempre reconfortante para a carência participar de um grupinho. 

2. Se o inimigo fizer contra você ou contra outra mulher qualquer coisa desagradável, exponha-o em sua condição de inimigo. Não proceda ao pensamento lógico do “e alguém do meu lado poderia fazer o mesmo?” ou do “isso é mesmo machista ou apenas humano?” quando o inimigo te interrompe numa reunião, diz que você fica melhor de cabelo comprido ou pede seu telefone e não liga. Empatia é poupar a mulher e massacrar o inimigo quando eles procedem da mesmíssima forma. Um movimento não é nada sem corporativismo. 

3. Mulheres que falham ao expor condutas típicas do inimigo devem ser vítimas de pena, não de ódio, porque não é culpa delas que suas ações tenham sido moldadas por uma sociedade patriarcal. Se uma mulher errar, a culpa é do inimigo também, porque a mulher que erra teve seu arbítrio sequestrado pelo espírito social machista. 

4. Não junte energia para destruir somente o monstro real, como a violência doméstica e o clitóris mutilado. Afinal, você não apanha do seu namorado e seus pais nunca cogitaram arrancar seu clitóris. Se você se ativer somente a esses tópicos, a pauta do movimento ficará enxuta, sem graça e não haverá motivação. Veja, as pessoas gostam de lutar por causas que as atinjam diretamente. Que interesse a universitária classe média terá no feminismo se ele só disser respeito a coisas que não a atingem? Crie demônios. Fale para essa universitária que aquele rapaz que a seduziu numa festa e diante de uma negativa provocou com “então vou ali no banheiro bater uma pensando em você” é machista e precisa ser contestado. Forje estatísticas, como aquela que assegura que mulheres ganham 30% menos que homens, e extrapole pesquisas, colocando “agressão verbal” no grande balaio da “agressão” e insinuando que esse é um problema feminista em vez de ser um problema comportamental sobre agressores verbais de modo geral. 

5. Critique a sexualização exagerada da mulher. Critique a exposição de nudez sedutora na Playboy. Critique as posições que heroínas padronizadas fazem em quadrinhos e filmes, numa clara analogia sexual e vontade de ser desejada. Depois disso, publique suas próprias fotos seminua, com bumbum empinado, seios à mostra abaixo de um batom vermelhíssimo borrado. Se alguém perguntar se isso que você faz também não é um tipo de esperança de aprovação sexual, diga que está “empoderando sexualmente belezas diferentes”. Não tenha medo da contradição. Não tenha medo de parecer que você só criticava a exposição de outras mulheres porque esse doutrinamento sexual impedia que você fosse o tipo de mulher desejada. Não tenha medo de parecer invejosa. 

6. Muitas de nós, feministas da terceira onda, entramos para o movimento após problemas pequenos com homens: eles não compareciam, não se interessavam por nós, deixaram-nos por outra, faziam-nos de trouxa. O feminismo foi nosso divã terapêutico, foi a almofada que amorteceu nossa queda. Aproveite para aliciar outras mulheres com esse perfil.

7. Por outro lado, não podemos montar um movimento que seja conhecido como clube das fracassadas ou das feias. Por isso, atente: a bonita, a padrão, a que está feliz no casamento precisam descobrir que vivem num mundo muito machista. O inimigo vai ficar louco quando souber que as belas que ele explorava até pouco tempo agora estão politizadas e indisponíveis. Toda mulher precisa de feminismo porque toda mulher é vítima de machismo. 

8. Você tem a liberdade de continuar se torturando para ficar bonita. Caso questionem seu ritual e seu salto altíssimo, responda: “eu me produzo para mim mesma”. Se o engraçadinho retrucar com um “então você deve ficar assim dentro de casa também”, aponte o machismo da fala e diga “eu é que não vou bater palma para homem dançar”.

9. Não há espaço para a desocupação quando você adentra esse movimento, porque na falta de buracos para tapar nós mesmas cavamos a terra e depois repomos o que for necessário. Os publicitários não falam tanto sobre “criar a demanda por um produto”? Nós criamos demandas por problemas. É por isso que em países tidos como “os mais igualitários do mundo”, como a Noruega e a Suécia, há feminismo combatendo o patriarcado local todos os dias. Um problema conhecido que o feminismo de lá criou para combater? Homens que urinam em pé. Ora, se mulheres não podem urinar em pé, por que homens fazem isso? É um tipo de humilhação. Outro: homens sem camisa. Enquanto mulheres não puderem andar sem camisa, #freethenipple, homens não devem poder. Se alguém disser que “mulheres de busto pelado não são a mesma coisa que homens de busto pelado assim como tocar no busto de um homem não gera nada mas tocar no busto de uma mulher é assédio”, aponte o machismo da fala. Não somos obrigadas a ter respostas coerentes para tudo. Se não souber desclassificar o argumento do adversário, desclassifique o adversário. A menos que seja uma mulher. Só desclassifique uma mulher se você for negra e ela for branca.

10. É uma pena que nem metade das mulheres é engajada. Como falar e lutar por elas se somos poucas no movimento? Fazendo muito barulho, um barulho tão grande que faça meia dúzia parecer oitenta. Obrigando, pelo aviltamento, colunistas, jornalistas e artistas a pedirem perdão quando disserem coisas que não se aplicam a nossa visão de mundo. Vamos gritar, vamos nos reunir para depreciar uma figura pública ou página por micromotivos. Há machismo em tudo. Quem não vê precisa de uma troca de lentes.

11. E lembre-se: quem não dramatiza não coopta. É preciso fazer com que as mulheres se sintam numa Idade Média no que diz respeito a direitos. 

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Nunca consegui respeitar os entediados. Considero o tédio uma forma de desrespeito com a vida. Se eu pudesse, compraria o tempo das pessoas – há tantos entediados acumuladores de dinheiro sob o colchão que o preço por hora seria, suspeito, barato – porque não há vida que chegue para que eu possa conhecer tudo o que me excita. Acho que é pelo mesmo motivo que nunca tive paciência para depressivos, já que em muitos casos a depressão é apenas uma extensão ou fase avançada do tédio, um “aprimoramento” de quem não conseguiu se interessar por muitos assuntos num universo com milhões de possibilidades. Mas fico em dúvida se desprezo mais os entediados perenes ou os entediados que criaram sarna para se coçar visando à fuga de uma vida vazia. Esse é o caso do movimento feminista moderno. Parte da gritaria começou nos EUA. Mesmo os autoproclamados maiores esquerdistas acabam, sem perceber, importando pautas americanas a cada temporada. O feminismo ocidental deixou de ser sobre direitos reprodutivos, violência doméstica e imposição comportamental de gênero para passar a versar sobre o euzinho de cada mulher que gostaria de mais visibilidade. Práticas que podiam ser erradas no âmbito comum – você de qualquer sexo impedir seu interlocutor de terminar uma sentença porque acha que o que tem para falar é melhor e mais importante – se tornaram erradas na guerra contra o machismo. O que era problema de todos se tornou um problema feminista, piorado e amesquinhado. No clube onde meninos não entram, as reuniões são sobre detalhes, minúcias, tons de fala e interpretação de entrelinhas. Poderia ser o clube do bordado psicanalítico, mas não é assim gracioso porque gera mal-estar e ódio despropositado. Na geração mais calma que o lado de cá deste planeta já viu, pautas revoltosas apareceram para espantar o tédio de não se ter mais que fugir de predadores, escapar de assassinos, procurar o que comer e remoer guerras entre nações. Nunca as mulheres tiveram tanta liberdade e nunca as mulheres reivindicaram tanta liberdade e denunciaram tanta opressão sobre si. O feminismo não é sobre mulheres sofredoras, mas sobre todas as mulheres, mesmo as mais privilegiadas, que se consideram vítimas de machismo. A importância da causa se dilui quando ela deixa de ser sobre quem necessita para atender a todas, já que todas se pensam necessitadas. O entediado é desrespeitoso com a vida. O entediado que procura sarna para se coçar é desrespeitoso com quem de fato sofre de sarna. 

*

Mas os movimentos delirantes brotados do tédio não se encerram no feminismo. Quem acompanha as barbaridades que o movimento negro anda dizendo e defendendo sabe quão longe pode ir a vontade de arranjar um bode expiatório para encher de culpa e combater. 

Racismo existe. E é claro que não aparece só pela autodeclaração “sou racista”. Há, inclusive, o racismo bem-intencionado, que na minha opinião não deixa de ser racismo só porque está no inconsciente, mas não merece linchamento como a Ku Klux Klan, pois tudo na vida precisa de avaliação graduada. Gisele Bündchen publicou uma foto meditativa com a cabeça encostada na cabeça de uma modelo negra (desconheço o nome). A legenda: “é hora de acabar com todas as formas de discriminação”. Nessa hora me lembrei de uma cena excelente do filme Jackie Brown (1997), do Tarantino, em que Ordell (Samuel L. Jackson), negro, vai ao escritório de Max (Robert Forster), branco, vê uma foto na parede em que Max está abraçado simpaticamente a um negão e pergunta, sardonicamente: “aposto que foi você que sugeriu que tirassem essa foto, huh?”. Porque é lindo mostrar que não se é racista, é lindo o fetiche de aparecer numa foto abraçado a um negro. Negro é o novo Mickey: todo mundo quer abraçar e tirar foto com ele para mostrar aos outros. Estamos no meio de uma campanha abolicionista para Gisele fazer uma foto com uma legenda dessas? Não estamos. Então a legenda é patética e é o que qualquer negro pode chamar de “branquice”. Não sei muito bem, ao mesmo tempo, qual é a nobreza real de você pedir para tirar uma foto com uma pessoa de que goste e na legenda ressaltar a vulnerabilidade dela diante da sociedade. Você chamaria para uma foto seu colega de trabalho que usa cadeira de rodas por causa de uma deficiência nas pernas e depois colocaria na legenda “vamos respeitar pessoas com deficiência”? Que situação tola para você e que situação vexatória para seu colega. Se peço para minha mãe, negra, uma foto dessas e depois escrevo na legenda o mesmo que Gisele, só vejo dois cenários de reação: bronca ou desapontamento. Não porque minha mãe seja uma ativista (nunca participou de movimento nenhum, aliás), mas porque ela entende como soa uma frase afetada dessas. Soa como “eu sendo bacana com esse coitado aqui, ó”, soa como propaganda política. Nossa relação é natural; passei a infância vendo minha mãe defender a expressão “preta”, comprar bonecas pretas para mim e corrigir qualquer um que chamasse um preto de “moreno”. Não tenho que usá-la para posar de defensora dos negros ou plural à United Colors of Benetton. 

Existe racismo quando negros são pagos para fazer papéis costumeiramente atribuídos a negros. É fácil um negro ser chamado para fazer papel de escravo num dos inúmeros filmes sobre escravidão feitos nos EUA ou ser escalado para uma película sobre pobreza. Novidade seria um negro no papel principal de um filme do Nolan, do Scorsese ou interpretando um herói – um personagem que não esteja obrigatoriamente vinculado à cor de sua pele. Novidade foi quando Will Smith começou a protagonizar filmes em que sua cor, naturalizada, não foi mencionada na trama. Com isso não estou defendendo o apelo “Oscar's so white”, que gerou dúvida sobre os premiados deste ano: foram premiados porque os avaliadores consideraram que mereceram de fato a estatueta ou porque tiveram medo de uma nova onda de boicote ao Oscar depois da reivindicação do ano anterior? Não é uma baita coincidência que no ano seguinte ao apelo metade dos atores vencedores fossem negros e que o filme premiado seja uma história cheia de personagens negros? É o tipo de pulga que ficará atrás da orelha de quem solicitou cotas em premiações cinematográficas. 

Também é prova de racismo, mesmo que inconsciente, quando alguém que dirige uma publicidade com pessoas pede para que arranjem um negro em nome da pluralidade da propaganda. Se a negritude estivesse naturalizada, você poderia encontrar comerciais com cinco pessoas brancas escolhidas aleatoriamente e outro comercial somente com pessoas negras, ou com três pessoas negras e duas brancas. Não, o padrão dos comerciais é: muita gente branca, algum negro, se der algum oriental. Ou família negra, como é comum em comerciais vinculados ao governo, empresas públicas, etc. Em suma: enquanto você tiver que se esforçar para colocar um negro na sua produção, enquanto você tiver que teorizar a frase “precisamos de negros aqui para pluralizar”, estamos diante de um sintoma de uma sociedade racista que ainda não naturalizou essa cor de pele. 

Naturalizemos, eu digo. A voz delirante do movimento negro diz “segreguemos”. Anos de miscigenação nas principais regiões do país, anos de ouvido de penico nas regiões afastadas com imigração branca preconceituosa e agora o movimento negro quer ser como esses colonos: “segreguem, criemos nossa cultura particular bem delimitada, separemo-nos dos brancos, miscigenação uma ova”. Não basta que esses teóricos do absurdo, que devem execrar Mandela e o demasiadamente bonzinho Martin Luther King Jr., queiram determinar com quem negros devem casar, o que devem comer, livros de quem devem ler, que tipo de tratamento reservar a um branco: agora é necessário criar uma cultura negra arrogante que decide quem entra e quem não entra no círculo dos ornamentos. O caso “turbante na cabeça de uma branca com câncer” foi o ápice da presunção. As culturas são intercambiáveis desde sempre – religiões se copiam, alimentos daqui permutam com os de lá, indumentárias evoluem baseadas no que se viu nas vestes do vizinho, idiomas se cruzam, pessoas de diferentes culturas se cruzam –, mas o movimento negro decidiu que o turbante é dos negros. Há povos negros na África que não usam turbante: se sua ascendência for desse povo e você usar turbante, está praticando apropriação cultural? Há povos não-negros que usam turbante. O turbante é adereço de inúmeras culturas não-negras há séculos. Que birra é essa que faz com que negros no Brasil pensem que têm o direito de apontar alguém na rua e dizer que essa pessoa não pode usar um pano na cabeça por causa da cor de pele dela? Esse revanchismo que imita estratégias passadas de brancos que discriminavam negros – apropriação de uma cultura discriminatória? – só pode ser chamado de retrocesso. “Mas teve o texto da Eliane Brum...” Sim, um texto que não apela à lógica, mas ao sentimentalismo, com ar de professora querida que explica à criança raivosa por que ela está errada e precisa se acalmar e entender que os negros foram explorados e agora têm adereços que representam sua identidade. Um texto de quem se sente culpada por ser branca e admite que tudo que pode fazer para se redimir pelos crimes que não cometeu – pior do que negros culparem brancos de hoje pela escravidão é brancos de hoje se sentirem responsáveis pela escravidão – é “ouvir o que as negras têm a dizer”. Estamos ouvindo. Temos que acatar? Por que eu deveria tratar esse item em particular como sagrado enquanto quase todos os outros adereços das outras culturas permanecem intercambiáveis? Atitudes comigo-ninguém-pode não são razoáveis. Apelo ao sentimento puro e simples não é razoável. Machado de Assis escreveu: “lágrimas não são argumentos”. 

Enquanto isso, no mundo onde “às minorias tudo é permitido e elas criam as regras”, quando negros se “apropriam” de elementos culturais e até biológicos da “cultura branca” há passe livre. Se uma mulher negra alisa e pinta de loiro o próprio cabelo, isso é o quê? Por que a regra de não intercambiar com outros clubinhos não se aplica aqui? “O que é nosso é nosso, mas o que é de vocês também é nosso”? Sejam pelo menos coerentes; ou vocês protegem essa pretensa cultura pura negra de qualquer mácula de opressores ou entram no jogo com todo mundo, sem usar a conversa sobre escravidão como moeda de troca para tudo, como um persistente trauma, como uma insistente apelação. Nem que me esforçasse num banana exercício de alteridade eu conseguiria me emocionar com o texto da Eliane Brum, justamente porque sei que quem teve a audácia de abordar a moça branca de turbante não fez isso por “amor à África”, mas por arrogância, mesquinhez e vaidade. É claro que no mundo dos ornamentos há disputas e risadinhas pelas costas de quem está usando um item “do jeito errado” ou “sem poder”, mas essa postura se restringia à fútil esfera dos cochichos e das lamentáveis rodas de mulher. Agora a coisa é institucionalizada, vira artigo de jornal em defesa e logo vai ser tema de doutorado em uma das dezenas de especializações sobre minorias disponíveis em universidades públicas. Na era do tédio, qualquer firula vira caso. E delírios paranoides de movimentos desenvolvidos para espantar o marasmo são vistos como “convicção de ideias sobre microassuntos”. 

*


Eu me pergunto: se vivêssemos numa época com mais o que fazer, utilizaríamos nosso pouco tempo somente para o essencial? Nessa hipótese, talvez o feminismo se ocupasse em resgatar mulheres que sofrem em vez de almofadar a sala de terapia para mimadas egocêntricas, e talvez o movimento negro tentasse enriquecer seus irmãos na periferia em vez de se preocupar em problematizar o pedaço de pano que Simone de Beauvoir usava em sua cabeça branca. Há sutilezas no mundo, e há disfunções sutis, mas essa sociedade não está sabendo diferenciar sutileza de delírio, problema real de paranoia. Como será viver sob a constante pressão imaginária de um entorno opressor? Como será se sentir num completo desânimo em meio a facilidades e ansiar criar uma realidade paralela onde há centenas de questões que me atingem e precisam ser resolvidas? Rosa Luxemburgo dizia que quem não se mexe não percebe os grilhões que o prendem, mas há pessoas que caminham maratonas para tentar provar que em algum momento seus pés ficarão presos pelos grilhões que acreditam possuir. Perde-se tempo e vigor com questões abstratas sobre si enquanto questões reais sobre os outros oprimem e matam. Culpa de três dos quatro pecados principais deste século: tédio, carência e vaidade (o quarto é a inveja). Pecados que, não é megalomania dizer, explicam quase tudo. É uma pena. Tínhamos tudo para dar certo, mas parece que a tranquilidade enjoa. O diabo faz a festa. 

domingo, 5 de março de 2017

Separar a arte do artista


A notícia do momento é que uma carta assinada por 400 intelectuais pede que Lula considere, “desde já”, a possibilidade de se candidatar à Presidência da República para 2018. Tássia Camargo é uma das que assinam o documento. Não sabia da produção intelectual da atriz, assim como desconheço a imensa maioria dos nomes da intelligentsia brasileira que ratificam o conteúdo da carta. Pode ser apenas muita ignorância minha, já que ignoro tantas coisas. Se nunca ouvi falar dos intelectuais “Flávia Moura Caldas, comerciária”, “Deolinda de Almeida Pantoja, dona de casa” ou “Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor evangélico” deve ser porque ando lendo os livros e jornais errados. Pago a assinatura da Folha de S. Paulo para estar bem informada e passo esse vexame ao me deparar com uma lista de nomes alienígenas. Talvez devesse ler o Brasil 247, que tem Renan Calheiros como colunista. 

Dentre os assinantes óbvios está Chico Buarque, que enxerga o mundo com os óculos de um taxista: dicotômico, eterno bandidos versus moços. Diante disso, pergunto-me: 

1. De que serve o conhecimento se ele não puder alterar nossa leitura das coisas? Chico não é nenhum iletrado, mas age como um ao querer salvar Lula de “perseguição política” em nome do combate a figuras da suposta direita brasileira. Seguindo o mesmo jeito de operar estão os que alegam defender entusiastas de torturadores a fim de formar uma forte oposição ao PT. Resumo: existem apenas dois lados, e ou você está aqui, ou está ali, não existe acolá ou outro lugar. O que é, convenhamos, o retrato certo de boa parte dos taxistas. Quando trabalhei com educação infantil, alarmei-me ao ver que muitas pedagogas, formadas pedagogas e pagas com salário de pedagogas, queriam apenas “cuidar” de crianças, levando-as para brincar livremente no parque, deixando que desenhassem o que bem entendessem e interagissem à vontade “desde que não se machucassem”. Para que servia a formação delas se o trabalho que realizavam podia ser feito por uma costureira analfabeta? Deixar crianças passando horas em frente à TV ou correndo pelo parque não exige nenhum conhecimento de Freinet ou Vygotsky: qualquer adulto sem cursos consegue tomar essa responsabilidade e ainda ser menos oneroso à instituição que o emprega. Se o conhecimento não for usado, repito, para que serve? Chico Buarque viveu em lar cheio de livros, com pai erudito, entorno intelectual, escreveu canções primorosas e a lista continua. Isso, infelizmente, não o ensinou nada sobre ponderação política. Suas opiniões nesse campo são primárias, e o bordão “é claro que o PT errou em algumas coisas” – presente na fala de muitos contemporizadores – só serve para que não passe uma imagem de cego completo tomando chuva ao som de Like a fool, do Robin Gibb. Depois do bordão vem um esperado “mas”, e depois da justificativa fajuta vem um “não troco o certo pelo duvidoso, quero Lula de novo”. No fim, o sujeito que quis parecer um analítico minucioso pesando valores na balança estava desde o começo convicto e cimentado em que lado apoiar.

2. A questão principal deste texto: O artista como pessoa deve se confundir com a sua obra? Não sei responder. Certa vez Rodrigo Constantino, perdido em assuntos que não dizem respeito à área econômica, bradou contra a obra de célebres como Chico Buarque por causa de suas opiniões políticas. Disse aos seus leitores que artistas ligados ao PT deveriam ser boicotados. Discordo, mas com ressalvas. Discordo porque apesar de achar aberrante que, em plena era da informação, alguém defenda um claro demagogo como Lula, ignorância e canalhice, não sendo crimes, acabam não sendo tão graves para o boicote de um artista de qualidade. Não me parece justo com o meu coração ter que deixar de ouvir Você vai me seguir porque seu compositor é lulista, e nesse momento separo o Chico opinador do Chico compositor. A ressalva quanto à minha discordância à ideia de Constantino: qual é o limite da separação entre o artista e sua obra? Devo tolerar a obra de um assassino por motivo fútil porque é muito refinada? Devo poder colocar uma das pinturas de Hitler na parede da minha sala porque uma coisa é o homem e outra coisa é a obra? Até agora dei exemplos dos extremos de aceitação “muito fácil” e “muito difícil” – Chico e Hitler –, mas vamos ao meio-termo que gerará alguns “não sei” e “aí você me pegou”: como proceder diante da obra de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma adolescente nos anos 70? Eu não lembro de não ter gostado de nenhum filme dirigido por ele. Gostaria que pudesse fazer mais trabalhos como Deus da carnificina (Carnage, 2011), cheio de diálogos, tensão e toques de humor, e O inquilino (Le locataire, 1976), hipnotizante, sombrio e que se assemelha, agradável e estranhamente, a uma experiência literária (que ocorre quando você está vendo um filme e parece estar lendo um livro; o contrário também é possível). Devo negar essas boas obras porque foram pensadas por um estuprador? Outra pergunta pertinente seria: devo julgar uma pessoa inteira por causa de um fato isolado? Também não tenho resposta, porque dependendo do caso a ideia é descabida ou justa. Talvez Polanski não mereça ser condenado a vida inteira por causa de um estupro ocorrido há décadas – talvez deva. E merecerá condenação um autor como Gabriel García Márquez, que foi amigo próximo de Fidel Castro? É possível que alguém advogue em seu benefício dizendo que “não são de nossa carga os crimes que nossos amigos cometem” ou, os mais delirantes, que “mas Fidel só fuzilava para salvar a revolução”. Só que Márquez não apertava mãos e dava tapinhas nas costas no escuro. Enquanto a população vivia somente com o básico racionado, Márquez, na qualidade de amicíssimo, frequentava os paraísos escondidos de Fidel. Márquez via que Fidel nadava em fartura e futilidade enquanto o povo cubano pensava que o comandante só possuía uma casinha simples onde fazia refeições frugais. Perdoamos o escritor colombiano por aceitar tamanha conduta imoral de seu amigo – e por aceitar receber benefícios como uma bela casa em Cuba – ou paramos de ler sua obra para honrar nossos princípios? Eu nem tenho muito o que pensar de Gabo, já que só li um livrinho dele (e não gostei), mas sei que muitas pessoas o veneram pelo que fez em Cem anos de solidão. Se algum leitor brasileiro se espantar com o fato de ele ser íntimo de um ditador e resolver parar de ler e propagar suas obras, isso seria inusitado – atitude que não espero tão incomum para alguém que tivesse fugido de Cuba para os EUA e execrasse o regime socialista no qual vivera até então.

John Lennon batia em sua primeira esposa. James Brown batia em suas esposas. Edmund O. Wilson batia em Mary McCarthy. O que fazemos com suas obras? Se estou num baile de super flashback e depois de Good times, do Chic, tocarem Papa's got a brand new bag, devo me retirar da pista balançando a cabeça e doutrinando “a música desse agressor eu não danço”? Seria fácil fazer isso e ser acompanhada se o agressor tivesse acabado de ser televisionado ou se seu caso estivesse marcado na memória coletiva, mas parar de dançar a música de um homem violento que teve seu auge há muitos anos, está morto e ninguém se lembra que causava problemas domésticos pode ser visto como o ato de “alguém que não está pronta para separar homem e obra”. Nós desculpamos uns, nós punimos em definitivo outros. Que régua mede quem merece estar separado da carreira e quem merece ser arrastado para a vala com ela? Na dúvida, admito, acabo separando o artista da obra. E tento defender minha escolha me convencendo de que não possuo nenhuma garantia de que outros ilustres sentimentais ou renomados literatos não tiveram, na vida privada e secreta, condutas altamente condenáveis. O poeta é um fingidor, e encarando uma magnífica poesia dá-se um jeito de livrar a pele de seu farsante para poder continuar a fruir sua farsa. Também tento me defender dizendo que as pessoas são mais complexas do que suas imperfeições pontuais, mas essa é uma opinião bem flexível e oportunista, pois eu jamais teria em minha cabeceira a grande obra de alguém que tivesse feito mal a um membro da minha família, e eu sei que algum bocado do meu desgosto pelo legado de Hemingway se deve ao fato de ele ser tão devoto do sofrimento animal, seja por meio de touradas ou caçadas por diversão. Já de Almodóvar não consigo não gostar e digo que é ótimo apesar das touradas. Fale com ela (Hable com ella, 2002) só não é um filme perfeito porque o sofrimento do touro e o louvor à cultura da tourada são reais. É fácil dispensar a obra de um imoral que não nos cativa tanto. Quem nos cativa nos tem não obstante muitas coisas, inclusive crimes. 

Admirarei qualquer nobre espírito que, sem querer holofotes e elogios, educadamente saia da pista quando tocarem James Brown. Já alguém parar de sambar porque começou uma música do petista Chico Buarque seria radicalismo. Se um compositor for boicotado por causa de uma opinião partidária infeliz, que meia dúzia de artistas restarão para condizer com nossas expectativas de forma plena? Não separar os homens de suas obras por motivos contornáveis e recusá-los inteiramente por isso só faria aumentar o comércio de arte feita por freiras. Boicotes artísticos inconscientes e rigorosos só servem bem na cabeça de autoritários que se pensam deus. Eu prefiro arte feita por seres humanos que falham.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O pecado mais cruel e nada divertido - "Inveja", de Joseph Epstein

Costuma-se dizer que o único pecado que ninguém confessa é a inveja. Muita gente nega sentir, o que é mentira. Muita gente finge não estar sentindo, o que talvez seja pior do que entregar a fraqueza de forma franca. E eu não me lembro de ter conhecido qualquer pessoa que admitisse sentir inveja do próximo. Inveja dos ricos e famosos, inveja da blogueira que brinca de Amélie Poulain morando na Bélgica, inveja do estranho que acabou de ganhar na loteria, inveja da modelo holandesa que faz ensaios na Harper's – isso é fácil aceitar, trabalhar e até externar. Mas a inveja daquela pessoa que está logo ali e parece se amar mais do que eu me amo, que parece ter um casamento melhor que o meu, filhos mais educados, vida sexual ativa, que recebeu uma promoção, que recebe o dobro do meu salário, que é mais bonita do que eu, que faz coisas que eu nunca consegui fazer por medo, que tem uma personalidade incrível, que é segura de si e não me dá muita importância – essa inveja ninguém admite. E precisaríamos admitir? Não, porque não existe nenhuma norma social que determine que devamos ser livros escancarados. Já negar a inveja em vez de consertá-la na medida do possível – sendo um tanto biológica e com sentido evolucionário, torna-se mais dificultoso extirpá-la de vez – parece coisa de quem erra duas vezes: erra ao sentir inveja por expor o próprio fracasso para si mesmo e erra ao teatralizar sentimentos. A falsidade é bela e necessária no palco. Na vida cotidiana costuma trazer um tipo de ranço que se denuncia em gargalhadas forçadas, olhares furtivos, falas cheias de meandros competitivos, ironia fora de hora e gestos feios. O invejoso é rico em atos falhos facilmente reconhecíveis por qualquer um que tenha aplicado a psicanálise ao exame dos outros. Que propósito existe nesse tipo de conduta analítica dos subtextos e dos símbolos que nossos pares deitam sobre nós sem perceber? Poupamos tempo, energia e impedimos intimidade com quem não agrega nada. Os únicos que reconhecem invejosos e gostam de tê-los sob louvor são os que vivem à procura de causar inveja. Os dois sujeitos tristes se merecem e dependem um do outro para esse projeto de vida vazia. 

A Oxford University Press estava para lançar uma coleção sobre os sete pecados capitais, sendo cada pecado abordado por um autor diferente. Ao escritor Joseph Epstein restaram ira, preguiça, luxúria e inveja para escolher. Ele escolheu a inveja, que é um dos pecados mais delicados, e, segundo ele, o único que não tem lado engraçado. Descobri esse livrinho por meio de uma coluna do João Pereira Coutinho na Folha – se suas opiniões fossem tão sérias quanto suas recomendações de leitura, seria um colunista perfeito; a coluna de 14/02, por exemplo, me parece apenas mais uma de suas vontades de barbarizar – e logo o comprei. Encanta-me entender todos os pecados e a inveja é, como é para todo mundo, o pecado que mais me causa mal-estar. Obviamente não gosto de sentir inveja. Ao mesmo tempo, não sinto inveja pelos objetos tradicionalmente fonte de inveja para outras pessoas. Mas nos campos em que sinto, sinto. E de fato não há nada de divertido nisso.

Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.

“Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'”

Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.

Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.

A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:

“E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.”

No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:

“Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.”

Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.

Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.

No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):

“Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.”

Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.

Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:

“Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.”
 
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Inveja (Coleção sete pecados capitais) – Joseph Epstein, Editora ARX. A coleção está disponível na loja virtual da Saraiva, exceto o exemplar dedicado à preguiça, que só pode ser encontrado na Estante Virtual.