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sábado, 17 de outubro de 2020

Liberais empolgados com a aprovação de Bolsonaro pelo povo; e anúncio da série “Radical do movimento negro”


Escrito ao som de Visonia, "Beyond the clouds", e outras coisas

Na parte III do Compilado de parasitologia humana antecipei o assunto dos radicais do movimento negro, mas tratei principalmente dos tipos bolsonaristas: os fiéis, os que fazem acrobacias para defender seu voto numa aberração, os contemporizadores. Dentre os contemporizadores estão sujeitos falastrões sobre qualquer assunto tornado tendência nos jornais e nas redes sociais, mas que estranhamente não falam nada ou quase nada contra Bolsonaro. Quando cobrados, eles se abrigam sob o telhado do cinismo: “falo sobre o que eu quero, não tenho que falar sobre isso”. Não tem, realmente. Mas faz sentido perguntarmos por que o papagaio opinante se omite sobre questão que afeta todo o redor da sua gaiola. Por que está calado se diante de temas bem menores não fecha o bico? Bolsonaro é grosseiro, despreparado, ignorante, preguiçoso, inapto, autoritário, defensor da tortura, defensor da execução, corrupto, megalomaníaco, apaixonado pela destruição (de pessoas, instituições, valores, florestas e projetos) – e só não deu um autogolpe porque não conseguiu o apoio de que precisava para a empreitada. Bolsonaro rebaixa o parâmetro de qualidade da presidência: quase qualquer coisa que entrar depois dele será melhor que ele, e isso é má notícia. Bolsonaro mentiu a maior parte do seu programa de campanha e quem acreditou que ele melhoraria o país estava sofrendo de um apagão no raciocínio ou aceitava apoiar um fascista. Mas os contemporizadores fingem que ele não existe, que não é um problema tão grave, que é melhor do que qualquer esquerdista no poder. 

Em 14 de agosto o Datafolha publicou uma pesquisa a dizer que “aprovação de Bolsonaro cresce e é a mais alta desde início do mandato”. Havia meses as notícias sobre política na Folha de S.Paulo não recebiam comentários das hordas de bolsonaristas – os professores da rede pública com assinatura gratuita puderam se destacar defendendo esquerdices –, mas a pesquisa do Datafolha conseguiu reanimá-los nos esgotos e agora eles estão de volta apoiando barbaridades, violência e até corrupção (Lula não pode ter sítio mal explicado, mas membros da família Bolsonaro podem ter imóveis comprados com dinheiro vivo). 

A novidade é que além desses broncos a pesquisa do Datafolha animou muitos “liberais”. Vi no mínimo três deles escrevendo textões e tweets com centenas de curtidas sobre a humilhação que o resultado oferecia à esquerda. “É, esquerda, parece que o povo não quer suas ideias”, disseram. É má-fé, ignorância ou ingenuidade (irmã da ignorância)? De fato o povo não quer os principais projetos da esquerda, mas desde quando o povo quer os principais projetos dos liberais? E debaixo de que pedra vivem esses senhores para achar que a aprovação de Bolsonaro pelo povo se deve prioritariamente a uma rejeição aos projetos da esquerda? Que análise rasa foi realizada para estabelecer essa causalidade tão categórica “se o povo aprova Bolsonaro, só pode ser porque abomina a esquerda”? A pressa é inimiga da ponderação. As pesquisas saíram num dia e no mesmo dia alguns sabichões liberais já tinham explicações para os anseios do povo em manter Bolsonaro no poder: uma suposta “negação da esquerda”. 

O povo brasileiro era muito abençoado pela esquerda quando mantinha o PT no poder por 13 anos. Esse mesmo povo – mal-educado, inculto, motivado por modas, assistencialismo e culto à personalidade – de repente é querido por uma parte da direita liberal quando não apenas não vota num candidato de esquerda como apoia o incompetente Bolsonaro. O povo que num momento é “a voz de Deus” passa rapidamente para “a voz dos fascistas”, segundo esquerdistas, e “gente antenada que pensa de forma prática contra a esquerda”, segundo alguns liberais. Não conhecem o povo ou não sabem enxergar coisas que estão a um palmo do nariz, e aí é claro que terão que rebolar para dar explicações rápidas – e fáceis – toda vez que essa população não agir conforme seus desejos de causalidade simplória esperavam. Acham-se especialistas entendendo as moções do povo quando ele aprova um candidato “do seu lado”, mas ficam espantados com uma ignorância de séculos demonstrada ostensivamente quando as mesmas gentes votam com paixão em alguém “do outro lado”. 

Não romantizem a percepção ou a “sabedoria prática” do povo, pois ele não vota nesses termos. Esse povo que decide eleição enquanto intelectuais teorizam nas academias e polemistas ensimesmados desenrolam fios no Twitter: ele não vota em bons projetos fundamentados, não sabe a diferença entre esquerda e direita, acredita em correntes de Whatsapp, compartilha fake news descarada, deixa-se levar por campanhas que fazem produções cinematográficas para convencer o eleitor, simpatiza com figuras da política por motivos idiotas, segue ondas, vende o voto por aperto de mão e cesta básica, pensa que o auxílio emergencial de 600 reais garantido pelo Congresso foi dado pelo misericordioso Presidente, mantém notórios corruptos no poder por décadas. Achar que a aprovação de Bolsonaro pela massa votante se deve a uma reflexão contra os radicalismos do movimento negro, as feministas da quarta onda, o Estado inchado e “as ameaças do socialismo” – como se o povo soubesse o que é socialismo – é tolice e despreparo analítico. 

Liberais deveriam chorar no travesseiro ao ver que Bolsonaro é apoiado pelo povo. Um liberal que acha algo positivo o resultado dessa pesquisa do Datafolha precisa ver se sua posição política e econômica é de fato liberal ou se deve ser chamada de meramente antiesquerda. Se um liberal de calças curtas está aceitando qualquer coisa “antiesquerda” mesmo que essa coisa também seja muito anti-liberal – e mesmo que a ascensão dessa coisa signifique a impossibilidade de eleição do Amoêdo –, pode ser o momento de ele rever a autodenominação equivocada. Sua igreja é outra. Vá viver sua fé fanática com mais honestidade enquanto carrega o lema rasteiro “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. 

*

Andei escrevendo e escrevendo para uma tal parte IV do Compilado de parasitologia humana que seria sobre os radicais do movimento negro, mas o texto cresceu de tal forma por causa da inserção de subtítulos e historietas que esta semana ele estava alcançando 50 páginas – e crescendo. A pergunta é: quem lê texto de blog que equivale a 50 páginas? Desconheço. Fiz até um sumário com os subtítulos para os leitores que quisessem ler o texto todo (mas de forma picada) ou para aqueles que quisessem ler somente os assuntos que despertassem interesse pessoal. Mesmo assim, não achei uma boa estratégia: havia grande chance de alguém começar a ler, ficar cansado, pensar “volto depois para o restante” e esquecer. A expectativa de um textão na internet que parece a reprodução de um livro de bolso muitas vezes desanima a vontade de começar a encará-lo, e também pode gerar xingamentos gratuitos (vezeiros no mundo virtual, que é realíssimo) como “quem é você na fila do pão para achar que pode escrever coisas dessa envergadura e que as pessoas vão ler?”. 

Esses dias, lavando louça, veio à minha mente uma ideia melhor: fazer uma série apenas sobre os radicais do movimento negro. Deste modo publico vários textos com assuntos mais específicos e comprimento mais amigável para uma plateia talvez acostumada às leituras fragmentárias do Twitter ou à rapidez das reportagens/colunas dos jornais. Aquilo que na postagem original seriam subtítulos agora serão títulos de postagens completas. Dividir para conquistar. 

Publicarei cada parte da série aproximadamente uma vez por semana (começarei daqui a duas semanas) e criarei a tag “SÉRIE RADICAIS DO MOVIMENTO NEGRO” para ficar mais fácil acompanhar postagens perdidas. 

*

No canto direito da parte superior da página é possível cadastrar seu e-mail para subscrever este blog a fim de receber aviso sobre novas postagens, o que pode ser útil, já que não tenho uma regularidade para publicação. [Atualização: infelizmente esse recurso não está funcionando como o esperado. Às vezes o Feed envia e-mail avisando de novas postagens, às vezes não envia.] Mas tentarei ser disciplinada no caso da série sobre os radicais do movimento negro, e pretendo publicar um texto por semana – pois ao mesmo tempo em que anseio me enroscar nesse assunto e desdobrá-lo, quero também me livrar logo dele para escrever sobre amenidades. Tendo trabalhado neste blog só sobre a angústia, a forma que tenho encontrado de dar algum tom mais suave aos textos que venho escrevendo é inserindo uma gracinha, recomendando músicas, falando rapidamente sobre um desenho animado. Estou bem ciente de que o acachapante aqui, entretanto, é uma espécie de trevas à noite no subterrâneo que se alcança pelo ralo de uma fábrica de chucrute. Só que, ei, se você está lendo é porque você está querendo ler, ninguém está apontando uma arma para sua cabeça. (Está? Pisque duas vezes em caso positivo.) 

Então até logo. 

*** 

NOTAS (maiores que a postagem, realmente, e por que não?) 

1. Visonia é um projeto do chileno Nicolas Estany, que hoje mora em Varsóvia, na Polônia. Se não me engano, conheci por acaso dando chance a playlists de música eletrônica no Spotify. Essas playlists testadas no escuro já me deram o prazer de conhecer muitas coisas boas e de diversos gêneros. Como a Netflix, o Spotify peca por não ter uma grande seleção alternativa/underground, mas o custo-benefício de assinar ainda é excelente. 

2. Liberais dizem que socialistas/comunistas negam a natureza humana com suas teorias que parecem supor um homem virtuoso inventado. E esses liberais não fazem a mesma coisa? Parece-me também uma negação da natureza humana achar que uma civilização ótima, “a melhor de todas”, será erguida sobre regras mínimas e lemas fisiocratas. Muitas das conquistas que alcançamos enquanto sociedade evoluída se deveram a pessoas que decidiram meter o pé para frear a roda de tantas “liberdades econômicas”. 

2.1. Também há negação da natureza humana quando dizem que numa sociedade economicamente liberal “as pessoas vão se voluntariar para ajudar os necessitados, como hoje faz Bill Gates”. Evidências anedóticas de filantropia no mundo rico não são prova de que “a filantropia está dentro nós, basta que o Estado saia de cena para que ela aflore”. E como mostram alguns estudos, nosso impulso caritativo é falho e às vezes direcionado de modo pouco eficaz: pessoas que não dão 5 reais para ajudar uma comunidade de centenas que está passando fome são as mesmas que podem querer doar 50 se você pedir dinheiro para uma criança faminta específica apresentada na TV com nome, história e música emotiva de fundo. Ou seja, até para incentivar os outros à caridade você precisa ter conhecimentos apelativos da área da publicidade. É com esses irracionais que os necessitados terão de contar num mundo liberal? 

2.2. São engraçados alguns liberais. Gostam muito daquela citação de Adam Smith sobre o egoísmo salutar do padeiro, do cervejeiro e do açougueiro – que prestariam importantes serviços à sociedade motivados pelos próprios interesses –, e também se amarram no monólogo motivacional do personagem de Alec Baldwin (Blake) em O sucesso a qualquer preço (Glengarry Glen Ross, 1992), mas, por outro lado, creem que a bondade humana espontânea ajudará pessoas em situação de miséria num mundo liberal que não eliminou a pobreza. É com isso que contam quando tentam nos vender a ideia da utopia liberal como um paraíso. 

2.3. A esquerda, que não aceita ficar por baixo na patetice, leva a ferro e fogo as premissas dos filmes de Ken Loach e acredita que as pessoas pobres são todas coitadas massacradas pelos barões das grandes empresas. O pobre de Ken Loach é sempre um bom selvagem que é vítima do capitalismo selvagem. 

2.4. Geralmente sei separar arte de ativismo dramático. Gosto dos filmes do Ken Loach, apesar do que disse na nota anterior. 

2.5. Mas os liberais se erguem no ringue e dizem, sem corar, que se hoje Oprah Winfrey – mulher, negra, de origem pobre – é uma das mulheres mais ricas do mundo graças a seu esforço, qualquer mulher negra de origem pobre poderia fazer o mesmo. “Basta querer.” Vi um liberal inteligente e ponderado defendendo em longo texto que a superadora Oprah seria a prova do poder da força de vontade. Uma exceção. Todos estamos sujeitos a ter apagões no bom senso. Esse liberal, que faz muito mais bem do que mal às ideias que circulam na internet, não merece ser achincalhado por isso. 

3. Liberais e socialistas gostam de usar o povo brasileiro convenientemente, ignorando a extrema maleabilidade ilógica desse povo, mas não só. A Suécia também é usada dessa forma pelos dois lados. É um país rico, culto, bonito e feliz. Liberais atribuem o sucesso da Suécia a seu livre mercado, socialistas atribuem a seu forte Estado de bem-estar social. Quem está certo? Ao que parece, ambos os fanáticos mergulhados em suas utopias. A Suécia consegue dar certo com as duas coisas: facilidade para fazer negócios e proteção estatal dos desfavorecidos. 

Especulo que o segredo é cultural. Na cultura sueca, políticos são geralmente honestos e modestos, as pessoas confiam umas nas outras (porque sabem que podem confiar), são poucos os que usam malandragem para se beneficiar do Estado e dos seus pares. Um grande erro, que também já cometi, é olharmos para países de sucesso geral, escolhermos determinados pontos deles e acharmos que podemos colocar esses pontos dentro do nosso país – e que aqui eles dariam certo como lá. Isso é, na verdade, quase como pegar uma espécie animal que está muito bem-adaptada num local e levá-la sem ponderação para outro lugar: tende a não funcionar se outros fatores não forem considerados. O esquerdista que olha para a Suécia e pensa que devemos copiar seu Estado de bem-estar social esquece de observar como é a cultura (educação familiar, educação formal e caráter) do nosso povo. O liberal que olha para a Suécia e só vê livre mercado esquece de conversar com uma população que, em sua maioria, apoia o amparo estatal dos necessitados e sente orgulho de pagar os altos impostos que paga. 

Na Suécia os impostos que o povo paga são bem alocados em benefício de todos. Ou seja, parece que lá a cultura é propícia à arrecadação de impostos. Enquanto isso, no Brasil, não existe edição do programa Fantástico que não tenha no mínimo uma reportagem sobre corrupção, e o padrão é que os desvios sejam da ordem dos milhões de reais. Nossa cultura não é, no geral, adequada para que entreguemos dinheiro nas mãos de políticos e maus administradores. 

Para sair do fanatismo liberal e do fanatismo socialista que negam a natureza humana (no bem ou no mal) e exigem uma sociedade purista conforme suas teorias radicais, a melhor definição que encontrei veio do livro Economia: modo de usar – um guia básico dos principais conceitos econômicos, do economista coreano Ha-Joon Chang: 

“A história é útil para realçar os limites da teoria econômica. A vida é muitas vezes mais estranha que a ficção, e a história apresenta muitas experiências econômicas bem-sucedidas (em todos os níveis – países, empresas, indivíduos) que não podem ser perfeitamente explicadas por uma teoria econômica. Por exemplo, se você lê apenas publicações como The Economist ou The Wall Street Journal, só vai ouvir da política de comércio livre de Cingapura e de sua boa acolhida ao investimento estrangeiro. Isso pode fazê-lo concluir que o sucesso econômico de Cingapura prova que o livre-comércio e o livre mercado são os melhores sistemas para o desenvolvimento econômico – até que você fica sabendo que a quase totalidade das terras em Cingapura pertence ao governo, 85% da moradia é fornecida por uma agência governamental (o Conselho de Desenvolvimento Habitacional) e 22% da produção nacional vem de empresas estatais (a média internacional é cerca de 10%). Não há nenhuma teoria econômica – seja neoclássica, marxista, keynesiana, ou o que for – capaz de explicar o sucesso dessa combinação de livre mercado e socialismo. Exemplos como esse devem tornar o leitor mais cético sobre o poder das teorias econômicas e mais cauteloso em tirar conclusões de medidas práticas a partir delas.” (grifos meus) 

Discordo de alguns apontamentos opinativos que Ha-Joon Chang faz em seus livros, mas este trecho é perfeito e está no capítulo em que ele dá outros exemplos de países funcionais ou disfuncionais que desmistificam a pureza que liberais e socialistas demandam para as suas visões de mundo. Pretendo voltar ao autor quando tratar, num futuro distante, de utopias políticas e econômicas. 

4. A Suécia, com sua cultura de modéstia, honestidade, solicitude e lagom, parece muito mais adequada que o Brasil para o estabelecimento de um forte funcionalismo público. Aqui metade dos serviços públicos são mal prestados, uns trabalham muito para que outros façam o mínimo (e os que trabalham o mínimo tentam superestimar o próprio trabalhinho), aquele que depende desse serviço tem que contar com a sorte de ser atendido por alguém com boa vontade, crimes graves acontecem nas repartições e nenhuma penalidade é aplicada aos criminosos (no máximo são transferidos), a avaliação dos servidores não funciona e péssimos funcionários passam com tranquilidade no estágio probatório. A Suécia também é melhor que o Brasil na manutenção de políticos, como mostra o livro Um país sem excelências e mordomias, da jornalista Claudia Wallin. Lá os políticos utilizam transporte público, andam de bicicleta, têm o mesmo padrão de vida que a maioria da população. No Brasil desonesto, malandro, atrasado e preguiçoso, a política é carreira de negócios, nossos “representantes” passam anos sem aprovar nenhum projeto (alguns, quando aprovam, é aquilo: “criar o dia da onça-pintada”, “criar o dia do eletricista”), a roubalheira é a regra, não a exceção. Não sou favorável ao Estado mínimo, mas um país assim precisa, de fato, de menos Estado e de uma virada fiscalizatória no Estado. 

5. Como bem diz Ha-Joon Chang no livro 23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo, se liberais defenderem maior fluxo migratório entre países com a finalidade de proporcionar maior liberdade econômica, é possível que em muitos países ricos os trabalhadores percam seus postos de trabalho para imigrantes que trabalhariam por muito menos – e para entregar o mesmo serviço. Como o liberalismo pleno, que poderia corrigir alguma parte dessas disparidades, está muito distante – provavelmente nunca vai chegar –, ficamos nessa situação de que alguns empregos estão precarizados porque há quem aceite receber mixaria por eles. 

5.1. Mas antes que um esquerdista diga “ahá!”, pense no seguinte: certos empregos medianos, se melhorados em salário à força, simplesmente deixarão de existir. No Brasil qualquer um que ganha 3 mil reais por mês tem diarista. Na Suécia quase ninguém tem diarista, todo mundo faz o próprio serviço doméstico. Quando você fala para um sueco que no Brasil é comum que as pessoas tenham diaristas e empregados, ele fica surpreso, pois no país dele esse serviço é caro. Pergunto: se um grande grupo de diaristas brasileiras for à Suécia e cobrar 25% do que as poucas diaristas de lá cobram por esse serviço, será que os suecos começarão a utilizar mais esse tipo de serviço? Suecos têm a cultura do DIY (do it yourself), mas parte disso não se deveria ao fato de prestadores de serviços domésticos serem caros? 

5.2. Alguns esquerdistas têm demonizado a profissão de diarista/empregada doméstica no Brasil, alegando que ela é fruto de uma sociedade profundamente classista e racista. Também parecem manifestar algum desprezo pelas famílias que utilizam com frequência esse tipo de serviço. O que desejam? Acabar com essa profissão? Fazer com que a classe média despache suas diaristas e passe a limpar as próprias casas? Mas vocês já conversaram com as mulheres que dependem das colocações como diarista e empregada doméstica, hoje, para saber o que elas pensam do assunto, ou aqui esse tipo de “vivência” não conta? Certos liberais pensam que é melhor alguém ter o pior emprego possível a não ter emprego nenhum (e que não é papel de ninguém reivindicar melhoria de condições trabalhistas coletivas que tornem o legislado superior ao negociado), certos esquerdistas pensam que é melhor alguém não ter emprego nenhum a ter um emprego mais ou menos – mas depois vão cobrar “do sistema” a falta de emprego para as pessoas pobres. 

5.3. Esquerdistas que são contra Uber e iFood porque os consideram danosos ao trabalhador, mas utilizam esses serviços: vocês podem aumentar as gorjetas que dão aos funcionários dessas plataformas que os atendem. Parece piada, mas é grande a quantidade de esquerdistas avarentos que não ajudam ninguém com dinheiro do próprio bolso e querem que o Estado resolva tudo. Há coisas para o Estado resolver, claro, mas contribua fazendo com que sua ação seja condizente com seu discurso. Vocês não são contrários à desigualdade? Compartilhem mais seus bens com quem está em situação pior que a de vocês. Abram mais essas mãos. 

6. O liberal que diz que “todo emprego precário é melhor que emprego nenhum” chegaria a um operário adolescente da época Revolução Industrial, que trabalhava até 16 horas por dia, para dizer “é melhor esse emprego do que nenhum emprego”? Existe limite para o “emprego ruim é melhor que estar sem emprego” ou há um momento em que mesmo os liberais dizem “espera um pouco, acho que aqui as coisas começam a se tornar exploratórias e injustamente desiguais”? 

7. Liberais dizem que “o salário-mínimo é ruim porque deixa as pessoas pobres sem emprego, já que o Estado não permite que empresas as contratem para receber menos que o mínimo”. São os mesmos que são favoráveis à abolição do SUS para dar lugar à escolha privada de médicos e planos de saúde? Mas se no mundo liberal algumas pessoas devem “ter o direito” de receber menos que o salário-mínimo, que plano privado de saúde essas pessoas poderão pagar ganhando mixaria? O que os liberais teriam a dizer para esses trabalhadores que ganhariam 300 reais por mês e, assim, não teriam nenhuma condição de pagar um médico particular ou um plano de saúde para uma consulta básica? “Eles que lutem”? Temos muito a aprender com os liberais, mas lendo seus adeptos fanáticos e puristas parece que estamos lendo defensores de um tipo de darwinismo econômico. Ou de fato defendem que parte da população não tenha acesso a cuidados de saúde (nesta sociedade sem SUS e com salários de poucas centenas de reais), ou vivem aquela utopia de que “tudo vai se ajeitar por si só”. Temos que diferenciar esses dois tipos de liberais. O primeiro é pérfido, o segundo é um sonhador. 

8. Liberais que dizem que a CLT é ruim dando como prova sua origem na Carta del Lavoro de Mussolini: não parecem esses identitários que querem abolir as palavras por causa de etimologias supostamente negativas que ninguém conhece? Quer desgostar da CLT do cabo ao rabo, desgoste, a ignorância é sua, mas evite essa falácia da “origem” quando o filho não tem nada a ver com os crimes do pai. 

9. Por que Mises faz mais sucesso que Milton Friedman no Brasil? Porque é menos razoável, mais rancoroso e “joga pra galera”. Seu livro A mentalidade anticapitalista parece escrito por um rebelde pedante de 15 anos que simplifica o que deveria ser tratado com mais elaboração e que insiste, do início ao fim, em pôr na conta da “inveja” e do “ressentimento” as reivindicações esquerdistas. Assim Mises fecha o tema, porque qualquer coisa que esquerdistas digam contra projetos liberais – e contra o capitalismo – será “por causa da inveja”. Não que esses sentimentos não estejam muito presentes nos discursos de certos esquerdistas, mas deveríamos esperar mais profundidade de um teórico que move nossos jovens. (Talvez os mova justamente por causa dessa fuleiragem.) Mises não apenas cita a inveja: ele tem obsessão nela como explicação para qualquer esquerdismo. A mentalidade anticapitalista, que é referência para muitos, é um panfleto ruim, mal escrito (além de mal revisado pela Vide Editorial) e moleque. Até Marx escreveu um panfleto melhor. 

10. E o pior de Milton Friedman? As explicações furadas sobre como seriam as proteções ambientais num modelo de sociedade liberal. 

11. “Arma na cabeça” é um jogo que faço com meu namorado e com colegas para colocar duas opções extremas diante deles e obrigá-los a escolher. É um joguinho bobo, mas revelador ao nos forçar a graduar os males de duas opções. “Tem uma arma na sua cabeça: Russomano ou Boulos para a prefeitura de São Paulo?” OK, Boulos. “Tem uma arma na sua cabeça: Bolsonaro ou Weintraub para Presidente?” Pode atirar. Mentira, quando meu namorado me desafiou nisso escolhi Weintraub porque pesei a seu favor o fato de não ter filhos na política e não ter tido longa carreira política. Não me julguem. A situação é extrema, o jogo obriga a escolher e pensem que se eu escolhesse Bolsonaro vocês também me julgariam. Aprendam a brincar e tenham bom senso. A graça do jogo é justamente ter que escolher entre duas coisas abomináveis (Bolsonaro e Weintraub, por exemplo). 

11.1. “Arma na cabeça” não dá certo com gente sem graça que não embarca em brincadeiras e vai falar “nenhum dos dois” para todos os desafios. Não consegue imaginar a pressão da arma na cabeça obrigando a escolher e lança um balde de água fria em quem quer animar a festinha com jogos polêmicos. Provavelmente é alguém que está bebendo Coca-Cola diet, gosta de conversar por horas sobre tesouro direto, vê jogo de futebol com a emoção de quem espera o ônibus enquanto assiste a um caramujo atravessando a rua e opina que Sambô “tem o seu valor”. 

11.2. Sambô é o grupo de farofeiros que transformou aquela música do U2 sobre o episódio do Domingo Sangrento na Irlanda do Norte num pagode cheio de alegria, sedução e aura “só no sapatinho”. Isso é de conhecimento generalizado. Mas recentemente descobri que eles também limparam seus intestinos em cima da música “Você abusou”, de Antônio Carlos e Jocáfi, conhecida na interpretação melancólica e dolorida de Maria Creuza. Agora toda vez que ouvimos essa linda música aqui em casa também lembramos do equívoco, da desgraça e da falta de vergonha na cara da versão do Sambô. 

12. Em 15 de outubro fez 80 anos que o filme O grande ditador (The great dictator, 1940), de Charlie Chaplin, estreou no cinema de Nova York. Esta reportagem da Deutsche Welle, na Folha, conta um pouco da produção do primeiro longa falado de Chaplin. Sempre tive dificuldade de eleger meus filmes favoritos, mas há um tempo venho trabalhando nisso e consegui chegar a algumas conclusões. E O grande ditador está entre meus filmes favoritos. 

13. A melhor seleção de filmes que conheço em plataforma de streaming é a do Telecine, que, aliás, tem um ótimo aplicativo para a TV. Há vários filmes de Ingmar Bergman, Hitchcock, Fellini, além de muitos filmes de cinema alternativo. Achei incrível a quantidade de filmes iranianos que estão disponíveis para ver imediatamente com imagem de qualidade e boas legendas. Recomendo. E O grande ditador também está lá.

domingo, 29 de abril de 2018

Lula, pai de aluguel de uma esquerda desesperada

Em 1989 eu teria votado em Lula. Quem viu os debates entre Collor e Lula no segundo turno (no primeiro turno, todas as revistas de humor bem registraram que Collor não comparecera aos debates) só podia votar em Collor se não simpatizasse pessoalmente com Lula – má ideia, para a vida séria, colocar questões pessoais na frente de questões coletivas – ou se estivesse encantado com a oratória vilã de Collor. Parece-me quase obrigatório que entre um e outro qualquer pessoa de caráter optasse por Lula, pelo menos por um motivo que é razoável na mão de quem não debanda para a anarquia do voto nulo: escolher o menos pior. Em 1989 Lula é que fazia sentido, gostasse Cláudia Raia ou não – já que votou em Collor. Na mesma época a atriz também se apaixonou por Alexandre Frota e defendeu em artigo à VEJA seu direito de fumar em paz (e de votar em Collor em paz), informação que ajuda a explicar uma má fase, pela qual todos passamos em alguns momentos – portanto, não julguemos. 

Após o Mensalão, do qual Lula saiu acobertado e impune, não havia mais como rasgar a garganta para cantar com emoção pelas ruas “brilha uma estrela!...”. Quem ficou com Lula não era capaz de autocrítica e usava a lógica do taxista: ou é isso ou é aquilo. Assim, entre adotar na prática um partido que diferia dos outros só em teoria ou buscar uma necessária reciclagem, figuras como Chico Buarque e Tássia Camargo preferiram manter o discurso e o apoio, para vergonha de qualquer cidadão um bocadinho justo. Diz-se, nas centrais reducionistas conspiratórias e delirantes da esquerda (é chato repetir isso toda vez, mas a direita também tem as suas), que quem abomina Lula nestes tempos “não gostou de ver o pobre andando de avião”, simplismo que sai das centrais e se espalha. Criam esse espantalho tosco e fingem que não sabem: muitos dos que hoje repudiam Lula são aqueles que votaram nele em todos os pleitos até 2002. Ora, se sentissem ojeriza pela ascensão dos pobres não teriam, em período tão considerável, votado justamente em quem tinha como bandeira principal a ascensão dos pobres. Não faz sentido, mas quem tem ideologia cega e partidarismo não precisa de sentido, apenas de fé. Política partidária, homeopatia e religião dependem de crença, não de fatos. 

Tirando guerras, terrorismo, violência e doenças, hoje há poucas coisas que são piores do que tentar conversar sobre política com um lulista. Talvez: 

a) Entrar numa loja na qual se pretende passar um tempo e perceber que tocam Coldplay (tanto faz se as deprê-semialegres ou as deprê-suicídio-no-rio-à-tardinha); 

b) Ler clichês em comentários de vídeos humorísticos no YouTube, como “puta crítica social” e “humor ácido”; 

c) Sentar num bar no qual se pretende beber por um tempo e perceber que começam a montar um sarau para daqui a pouco; 

d) Participar do espaço público com quem não compreende o espaço público: chupam os dentes, gritam palavrões, não usam fones, fedem sem uma boa explicação; 

e) Estar na fila do pão quando a feminista à sua frente começa a lecionar sobre patriarcado para a atendente, que é tão mais educada que só pensa (e não fala) “preciso trabalhar, querida”; 

f) Aguentar o monólogo daquele que nunca vai ao teatro, mas um dia foi e acha que já pode dizer “as pessoas não vão ao teatro nesse país”; 

g) Aguentar o monólogo daquele que nunca lê um livro, mas um dia leu e acha que já pode dizer “o problema do Brasil é que o povo não lê”; 

h) Aguentar o monólogo daquele que nunca ouve música clássica, mas um dia ouviu e acha que já pode dizer “meu favorito é Brahms” (apenas porque sabe que As quatro estações de Vivaldi é coisa de quem lê autoajuda, elege Monet como um dos maiores pintores e compra bolas decorativas da China na Camicado); 

i) Pessoas que compram o CD “Beatles para bebês”; 

j) Pessoas que aplaudem com força exibida um índio tocando flauta na rua; 

k) Pessoas que usam com regularidade os termos “vagabundo” e “vagabunda”; 

l) Pessoas. 

O lulista das classes média e alta, aliás, era para ser uma figura em extinção. Quase começava a ser antes de Lula ser investigado por utilizar a coisa pública para interesses privados, mas reapareceu como marca do desespero de uma esquerda que não tinha quem colocar no lugar para mover o voto das massas. 

Enquanto Chico Buarque e Tássia Camargo ficaram com Lula, muitos nomes migraram para partidos menores porque não queriam participar do programa prostituído do PT e sabiam que aquela corrupção toda (na qual, na época, acreditavam) poderia manchá-los por associação “diga-me em que partido andas e te direi quem és”. Lula fora um bom líder para trazer o Brasil à esquerda, mas precisava ser superado – migrar do PT para outros partidos era manifestar uma diferença. Sua premente condenação mudou essa forma de pensar (não vá longe: as linhas do tempo de Facebook, Twitter, etc. de seus colegas ditos à esquerda estão lá como uma praça de provas do discurso que se modela e degringola) não porque PSOL (declaro aqui que já votei no Plínio de Arruda Sampaio e não me arrependo, pois era o que havia) e outros partidinhos tenham, em seus corações, mudado de opinião sobre Lula, mas porque sem Lula a esquerda não tem candidato que receba mais do que sofridos 3% de intenções de voto. A esquerda que no passado recente saiu do entorno de Lula porque não queria se associar a quem sabia ter se corrompido (e se corrompido demais) voltou como o filho pródigo para receber o banquete do pai: viu que sem o pai não é grande coisa nos números. 

Isso explica por que Manuela d'Ávila e o piromaníaco Guilherme Boulos resolveram ser a sombra de Lula: aquele corpinho cansado é o parente prestes a falecer que tem uma herança a deixar – neste caso, votos. Associando-se ao Lula que ainda lidera pesquisas na quentura do populacho, Manuela e Boulos tentam uma transferência direta de eleitores. Para não destruir reputações que cresceram querendo se individualizar perante o PT, os dois aceitam criar um mito injustiçado. Não se pode apoiar Lula dizendo que ele é mesmo culpado e que já era hora de pagar por ao menos uma das suas “contravenções” no mundo político, portanto o certo é primeiro dizer que Lula é inocente (vítima das arbitrariedades de três instâncias, preso por suas ideias, o Mandela brasileiro, etc.) para depois apoiá-lo sem dever justificativas à ética. A esquerda é ruim com Lula, mas sem ele se vê pior. Seu desespero só deve gerar pena. 

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NOTAS 

1. Sempre que passo roupas em casa coloco vídeos compridos no YouTube para ver na TV, geralmente entrevistas no Roda Viva. E me encantei quando vi a primeira entrevista de Paulo Maluf, de 1995. Não só porque Maluf é uma das três pessoas do globo que ficam bem com gel no cabelo, mas porque aquele senhor, prefeito de São Paulo à época, defendia pautas inovadoras como proibição de fumo nos restaurantes (foi chamado de “radical” e sugerido como “ocupado com trivialidades” pelos jornalistas da bancada) – mesmo tendo em casa uma esposa-chaminé –, uso obrigatório do cinto de segurança (novamente criticado pelos jornalistas convidados por esse “exagero paternalista”) e política de controle de natalidade, que é uma das questões que considero mais urgentes para diminuir a pobreza. Pensei, entre a passada de uma manga de camisa e a borrifada cheirosa na perna de uma calça, “possivelmente eu teria votado nesse homem”. Política é isso: um momento. Assim como não havia opção sensata que não fosse Lula no segundo turno de 1989, não há opinião sensata que hoje defenda Lula. Ou Maluf. 

2. Houve um momento em que sair do PT era um quase dever de decência. Não foi nesse momento que Marta Suplicy saiu do PT. E, quando saiu, não foi com decência. 

3. Ausentei-me por longo tempo porque viajava nas férias. Já voltei. Um abraço aos que leem com boas intenções.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Teste: você tem princípios ou apenas partido? Versão para os autodenominados esquerdistas, simpatizantes e contemporizadores de modo geral


Esse é um teste simples que envolve questões complexas. Por isso não espero que quem tenha a bondade de respondê-lo – prioritariamente esquerdistas, simpatizantes e contemporizadores de modo geral, caso se dispam do arzinho petulante que fizeram só de ler o título desta postagem – consiga se identificar plenamente com alguma das alternativas. Mas se não for responder só porque a alternativa não atende plenamente sua opinião, onde estará a graça de fazer o teste? Portanto, assinale a alternativa que corresponde a pelo menos 80% do seu pensamento. Recomendo, por ética, que não se leia a questão seguinte antes de responder a atual. São 15 blocos, com 2 questões em cada bloco. No final, haverá uma explicação sobre a contagem dos pontos e os resultados. Escreva no papel os números de 1 a 15 e depois coloque as alternativas ao lado de cada número. Por exemplo: 1 – AB, 2 – AA, 3 – BB, 4 – BA, etc. 

Vamos começar? Avante, camaradas!



1. Em 2017, o presidente Michel Temer sancionou a reforma do ensino médio. Dentre as mudanças estava a redução do número de disciplinas e a adequação do currículo à realidade do mundo atual. Essa medida foi: 

a) Uma decisão dura, mas necessária para que a educação brasileira possa evoluir e tentar se aproximar do modelo educacional praticado em países desenvolvidos. 

b) Uma proposta fascista. Não houve diálogo severo com a população e é mais do que justo que estudantes decidam em assembleias o fechamento de escolas como forma de protesto. 

Em 2014, a então presidente Dilma Rousseff defendeu a urgência da reforma do ensino médio. Dentre as mudanças estava a redução do número de disciplinas e a adequação do currículo à realidade do mundo atual. Essa medida foi: 

a) Uma decisão dura, mas necessária para que a educação brasileira possa evoluir e tentar se aproximar do modelo educacional praticado em países desenvolvidos. 

b) Uma proposta fascista. Não houve diálogo severo com a população e seria mais do que justo se estudantes decidissem em assembleias o fechamento de escolas como forma de protesto. 

*

2. Quando a então presidente Dilma Rousseff apresentou, em 2015, que o país estava no vermelho e por isso seria necessário realizar um austero ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas, pensei: 

a) Essa pilantra quer aniquilar os trabalhadores, as mulheres, os negros, os pobres, o povo! Em campanha sequer se mencionava que o país estava no vermelho! Fora, Dilma! 

b) A presidente está se deixando levar pelos interesses do empresariado, representado pelo mal escolhido Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Fora, Levy e seu ajuste fiscal! 

Quando o presidente Michel Temer apresentou, em 2017, que o país estava no vermelho e por isso seria necessário realizar austero ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas, pensei: 

a) Esse pilantra quer aniquilar os trabalhadores, as mulheres, os negros, os pobres, o povo! Quando prestes a dar o golpe e precisava do apoio da população ele não falava sobre ajustes! Fora, Temer! 

b) O presidente está se deixando levar pelos interesses do empresariado, representado pelo mal escolhido Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Fora, Meirelles e seu ajuste fiscal! 

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3. Em 2017, uma das medidas que Temer queria fazer avançar era a reforma da Previdência. Ele destacou, dentre outras coisas, que se a reforma não for feita hoje, no futuro não será possível para o governo sustentar a inchada máquina da previdência, pois a desproporção entre aposentados e trabalhadores será alta. Sobre isso: 

a) É absurdo que um trabalhador não possa se aposentar aos 55 anos. Em vez de massacrar o povo com uma reforma injusta e fascista, por que esse Sr. Golpista não cobra mais tributos da elite? É preciso que rumemos para as ruas e protestemos com todas as nossas energias ante esse retrocesso. Intransigência com quem é intransigente! 

b) Vamos manifestar nossa insatisfação dialogando com lideranças e partidos. 

Em 2016, uma das medidas que Dilma queria fazer avançar era a reforma da Previdência. Ela destacou, dentre outras coisas, que precisamos estar sintonizados com outros países desenvolvidos que já são mais rígidos com a idade de corte para recebimento da aposentadoria e que não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja de 55 anos. Sobre isso: 

a) É absurdo que um trabalhador não possa se aposentar aos 55 anos. Em vez de massacrar o povo com uma reforma injusta e fascista, por que essa Sra. Não-faço-jus-aos-princípios-do-meu-partido não cobra mais tributos da elite? É preciso que rumemos para as ruas e protestemos com todas as nossas energias ante esse retrocesso. Intransigência com quem é intransigente! 

b) Vamos manifestar nossa insatisfação dialogando com lideranças e partidos. 

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4. Alguns dos empregados que atendiam a então presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto e em eventos eram negros, como o garçom José da Silva Catalão (depois despedido por Temer). Isso prova: 

a) Uma marca gritante sobre como a sociedade vê os negros, sempre servindo. A foto de Dilma sendo atendida por José Catalão tem que virar meme sobre a hipocrisia da esquerda que mantém negros em cargos subalternos. 

b) Não prova muita coisa. José Catalão é pago para trabalhar, o governo paga para que trabalhe. Há uma troca de salário por serviços. Existe racismo no Brasil, mas tomar um fato isolado como esse e politizá-lo por conveniência seria má-fé e personalização errada de um problema social que não é culpa nem de Dilma, nem de José Catalão. 

Numa manifestação pelo pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, um casal branco foi visto vestido de verde-amarelo, em passeata, enquanto uma babá negra tomava conta de seus filhos. Isso prova: 

a) Uma marca gritante sobre como a sociedade vê os negros, sempre servindo. A foto desse casal branco sendo atendido pela babá negra mereceu virar meme sobre a hipocrisia dos manifestantes golpistas, que pedem um país mais justo mas mantêm negros em cargos subalternos. 

b) Não prova muita coisa. A babá é paga para trabalhar, o casal paga para que trabalhe. Há uma troca de salário por serviços. Existe racismo no Brasil, mas tomar um fato isolado como esse e politizá-lo por conveniência seria má-fé e personalização errada de um problema social que não é culpa nem do casal branco, nem da babá negra. 

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5. Aécio Neves festejou o carnaval num camarote VIP. Reajo: 

a) Playboy que cospe na cara do povo pobre com seu estilo de vida fino! 

b) Se ele tem dinheiro para pagar e o dinheiro não for de desvios públicos ou propina, o problema é dele. Ele não precisa se tornar um mendigo só porque diz se importar com os pobres. 

Marcelo Freixo festejou o carnaval num camarote VIP. Reajo: 

a) Playboy que cospe na cara do povo pobre com seu estilo de vida fino! 

b) Se ele tem dinheiro para pagar e o dinheiro não for de desvios públicos ou propina, o problema é dele. Ele não precisa se tornar um mendigo só porque diz se importar com os pobres. 

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6. Em 2012, o então senador Demóstenes Torres foi grampeado em conversas telefônicas com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, situação que lhe custou a cadeira no Senado. O STF considerou que as provas eram ilícitas e não poderiam ser utilizadas no processo contra o ex-senador, pois seu cargo no Senado lhe dava prerrogativa de foro: portanto, não cabia a um juiz de primeiro grau liberar intercepções telefônicas contra Demóstenes. Nesse caso: 

a) Vamos respeitar as leis. Prova ilícita não pode ser utilizada em processo. 

b) Tem caroço nesse angu. Desde quando o procedimento para feitura de uma coisa se torna mais importante que o conteúdo dessa coisa? Todas as provas importam quando estamos falando de um bandido político. 

Em 2016, o juiz de primeira instância Sérgio Moro divulgou grampos entre Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, grampos que poderiam incriminá-los sob a acusação de obstrução à justiça. Dilma, então presidente, tinha prerrogativa de foro e tudo que lhe dissesse respeito deveria ser encaminhado para o STF. Diante da situação, o STF declarou os grampos ilegais e afirmou que Moro violou a competência do Supremo para o ocorrido. Nesse caso: 

a) Vamos respeitar as leis. Prova ilícita não pode ser utilizada em processo. 

b) Tem caroço nesse angu. Desde quando o procedimento para feitura de uma coisa se torna mais importante que o conteúdo dessa coisa? Todas as provas importam quando estamos falando de um bandido político. 

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7. Uma prova obtida por meio ilícito demonstra que certo homem, Sr. X, era abusador de crianças. A prova não pôde ser utilizada processualmente, mas agora todos sabem que o Sr. X abusava de crianças. Penso que: 

a) Não há que se falar em qualquer tipo de condenação, pública ou jurídica. Quem somos nós para julgar alguém tomando como base uma prova ilícita? O foco aqui deve ser quem obteve essa prova de maneira ilegal. 

b) Mesmo que o Sr. X não seja condenado pela Justiça, é claro que todos nós temos o direito de rechaçá-lo, e seria mau caratismo esquecer o que ele fez só porque a prova é ilegal. Não vamos confundir moralidade com legalidade. 

Quiseram – juristas e parte da população – incriminar Lula e Dilma utilizando como base uma prova considerada ilícita. A ex-presidente nomearia, às pressas, Lula como Ministro da Casa Civil com vistas a fazer seu processo correr no STF, lerdo, e não na primeira instância, um tanto mais célere. Isso foi percebido num grampo ilegal. Penso que: 

a) Não há que se falar em qualquer tipo de condenação, pública ou jurídica. Quem somos nós para julgar alguém tomando como base uma prova ilícita? O foco aqui deve ser quem obteve essa prova de maneira ilegal. 

b) Mesmo que Dilma e Lula não sejam condenados pela Justiça, é claro que todos nós temos o direito de rechaçá-los, e seria mau caratismo esquecer o que pretendiam fazer só porque a prova é ilegal. Não vamos confundir moralidade com legalidade. 

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8. Alexandre de Moraes, doutrinador jurídico, foi nomeado por Temer para assumir o cargo vago de ministro do STF. Alexandre era muito próximo do círculo do PSDB e por isso sua indicação foi vista como um ato político-partidário. Sobre isso: 

a) A decisão foi tomada dentro da legalidade. Se há alguém para criticar aqui, não são Temer ou Alexandre de Moraes, mas o sistema que permite essa livre indicação dos ministros do STF por parte dos Presidentes da República. 

b) Que patuscada! É claro que foi indicado porque ficará com o rabo preso com Temer e as moscas que o circulam. 

Dias Toffoli, jurista, foi nomeado por Lula para assumir o cargo vago de ministro do STF. Toffoli foi consultor jurídico da CUT, assessor jurídico do PT na Câmara dos Deputados e advogado de três campanhas presidenciais de Lula. Prestou duas vezes concurso para juiz substituto – e foi reprovado. Por causa desse histórico, sua indicação para ministro do STF foi vista como um ato político-partidário. Sobre isso: 

a) A decisão foi tomada dentro da legalidade. Se há alguém para criticar aqui, não são Lula ou Dias Toffoli, mas o sistema que permite essa livre indicação dos ministros do STF por parte dos Presidentes da República. 

b) Que patuscada! É claro que foi indicado porque ficaria com o rabo preso com Lula e as moscas que o circulavam. 

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9. Temer tem amigos políticos, empresários, ministros. Todos esses amigos começam a cair por corrupção. Temer, impávido, não cai. O que pensar de Temer se não há provas cabais contra ele, nem processo contra ele tramitando? 

a) Seus amigos corruptos não querem dizer nada. Temer pode ser um pombo entre os gatos. 

b) É no mínimo estranho que alguém com um entorno tão podre possa ser como Jesus imaculado entre pecadores enlameados. Certamente Temer é corrupto também, só não foi possível provar isso ainda. 

Lula tem amigos políticos, empresários, ministros. Todos esses amigos começam a cair por corrupção. Lula, impávido, não cai. O que pensar de Lula se seu processo ainda não transitou em julgado? 

a) Seus amigos corruptos não querem dizer nada. Lula pode ser um pombo entre os gatos. 

b) É no mínimo estranho que alguém com um entorno tão podre possa ser como Jesus imaculado entre pecadores enlameados. Certamente Lula é corrupto também. 

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10. Se Rodrigo Maia resolver mandar fuzilar um traidor dentro do seu partido que está tentando tomar seu posto de liderança: 

a) Assassino! Autoritário! Cadeia é pouco! Qualquer defensor desse crápula é uma monstruosidade! Quem deu a ele o direito de matar alguém? 

b) Às vezes é preciso tomar medidas mais drásticas para atingir certos resultados políticos num país. Não concordo com o fuzilamento, mas entendo que há coisas piores no mundo com as quais ninguém se preocupa. Por que vamos nos preocupar com um fuzilado por motivo político quando na África, diariamente, centenas morrem de fome e doenças? 

Fidel Castro mandou fuzilar traidores políticos, “antirrevolucionários”. Sobre isso: 

a) Assassino! Autoritário! Cadeia é pouco! Qualquer defensor desse crápula é uma monstruosidade! Quem deu a ele o direito de matar alguém? 

b) Às vezes é preciso tomar medidas mais drásticas para atingir certos resultados políticos num país. Não concordo com o fuzilamento, mas entendo que há coisas piores no mundo com as quais ninguém se preocupa. Por que vamos nos preocupar com alguns fuzilados por motivo político quando na África, diariamente, centenas morrem de fome e doenças? Ademais, todas essas testemunhas que relatam esses fuzilamentos mesmo quando Cuba já estava tomada pelos revolucionários devem estar mentindo a serviço da mídia manipuladora e dos EUA a fim de demonizar Cuba, país lindo onde as pessoas não passam fome e têm uma educação exemplar. 

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11. Stálin foi responsável pela morte de milhões de soviéticos, tanto os fuzilados a seu mando quanto o povo que morreu de fome após implementação de políticas erradas. Sobre isso: 

a) É claro que não é certo matar pessoas, mas precisamos ver o lado bom do comunismo de Stálin. Inclusive Stálin tinha o apoio de parte da população. 

b) Precisamos rechaçar qualquer governo que seja responsável pelo assassinato de pessoas. Precisamos rechaçar qualquer governo que implemente políticas irresponsáveis que deixam o povo desamparado e morrendo de fome enquanto o governante e os seus vivem na mordomia. 

O período da ditadura militar brasileira, de 64 a 85, foi responsável pela morte e tortura de centenas de pessoas. Sobre isso: 

a) É claro que não é certo matar pessoas, mas precisamos ver o lado bom do período da ditadura militar. Inclusive os militares tinham o apoio de parte da população. 

b) Precisamos rechaçar qualquer governo que seja responsável pelo assassinato de pessoas. Precisamos rechaçar qualquer governo que implemente políticas irresponsáveis que deixam o povo desamparado enquanto o governante e os seus vivem na mordomia. 

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12. Inúmeros partidos pediram o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Isso foi: 

a) Pedido de impeachment, de fato, assegurado por nossas leis. 

b) Tentativa de golpe. O povo é soberano. 

O PT defendeu os pedidos de impeachment feitos a todos os presidentes que assumiram o posto após a redemocratização do país: Sarney, Collor, Itamar e FHC. Isso foi: 

a) Pedido de impeachment, de fato, assegurado por nossas leis. 

b) Tentativa de golpe. O povo é soberano. 

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13. Da primeira acusação à prisão preventiva determinada pelo juiz Sérgio Moro, Eduardo Cunha viu tudo passar num átimo. Estamos diante de um caso: 

a) Político. Todo mundo sabe que a justiça no Brasil é uma tartaruga. Algum interesse há para que Cunha tenha caído em desgraça tão rapidamente. 

b) Feliz exceção no histórico de lerdeza da justiça brasileira. 

Da primeira acusação formal à condenação em segunda instância, Lula viu tudo passar num átimo. Estamos diante de um caso: 

a) Político. Todo mundo sabe que a justiça no Brasil é uma tartaruga. Algum interesse há para que Lula tenha caído em desgraça tão rapidamente. 

b) Feliz exceção no histórico de lerdeza da justiça brasileira. 

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14. Ao tomar o posto presidencial, Temer declarou que formaria um governo “de notáveis”. Mas parte dos seus ministros são investigados na Lava-Jato e existe uma birra para que Cristiane Brasil – nada notável, sem experiência e com dois processos trabalhistas nas costas – possa assumir o Ministério do Trabalho. Refletimos: 

a) É claro que Temer não deve ser elogiado por suas escolhas, mas não existe outro jeito de fazer política no Brasil a não ser se aliar mesmo a figuras vergonhosas. O foco não deve ser ele, mas o sistema político. 

b) Governo incoerente, mentiroso e nojento. 

Dilma escolheu para chefiar ministérios de seu governo nomes como Eliseu Padilha, Moreira Franco, Marcelo Crivella, Gilberto Kassab – nomes que nada têm a ver com o projeto de governo oferecido pelo PT. Refletimos: 

a) É claro que Dilma não deve ser elogiada por suas escolhas, mas não existe outro jeito de fazer política no Brasil a não ser se aliar mesmo a figuras vergonhosas. O foco não deve ser ela, mas o sistema político. 

b) Governo incoerente, mentiroso e nojento. 

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15. Os protestos nas ruas em 2013 começaram com uma pauta contra o aumento da tarifa do transporte coletivo e se desenvolveram como crítica a gastos do governo e à corrupção. Você estava lá. Um amigo fez a seguinte acusação: “ao protestar num momento de governo de esquerda você se aproxima da direita!”. Você retruca: 

a) Não é porque eu abomino a direita que tenho que defender a esquerda de fachada que aí está. Repudiar medidas da Gestão Dilma não faz de mim uma pessoa que defende a direita. 

b) É verdade. Quem não está com a esquerda, está contra a esquerda. É preciso decidir quem defender. Ou se é coxinha, ou se é mortadela. 

Um amigo seu, que abomina posicionamentos partidários, comemora, entre tantas coisas, a queda de Dilma Rousseff e a condenação de Lula. Você pensa: 

a) O fato de ele abominar a esquerda e comemorar a queda de nomes grandes dentro dessa vertente não faz dele um defensor da direita. O mundo não é um maniqueísmo. 

b) Quem não está com Dilma e Lula serve aos interesses da direita e é, sim, coxinha. Não existe isso de “não vou entrar na polaridade”, é preciso escolher se se é coxinha ou mortadela. E está na cara que esse amigo escolheu ser coxinha. Só um coxinha não pensa que Lula está sendo injustiçado. 

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CONTANDO OS PONTOS 

As questões, como puderam ver, foram elaboradas aos pares. Então a contagem de pontos é a seguinte: 

Se na questão 1 você respondeu AA = 0 pontos. 
Se na questão 1 você respondeu AB = 1 ponto. 
Se na questão 1 você respondeu BA = 1 ponto. 
Se na questão 1 você respondeu BB = 0 pontos. 

Assim, cada bloco de questões que tiver a mesma alternativa como resposta não soma pontos. Respostas diferentes para questões do mesmo bloco somam um ponto. O número máximo de pontos que se pode atingir é 15. 

RESULTADOS 

0 pontos – Uma pessoa de princípios 
Se foi mesmo sincero, parece que você é uma pessoa que usa o mesmo peso e a mesma medida para tratar assuntos muito semelhantes, quando não iguais. Das duas, uma: ou você não é de esquerda, ou é de uma esquerda muito purista – e corre grande risco de ser linchado pela massa esquerdista que defende o pensamento homogêneo. 

1 a 5 pontos – Ainda uma pessoa de princípios, mas um ser humano sujeito a erros 
Não é fácil ser um bom julgador para todos os casos. O maior exemplo disso está nos juízes, que têm opiniões tão díspares entre si (apesar de a lei ser uma só) e algumas vezes mudam de opinião em pouco tempo mesmo quando tratam de casos semelhantes (ver Gilmar Mendes). Mas você ainda pode ser chamado de um sujeito de princípios, pois tenta ser justo na maioria dos casos que se apresentam para avaliação. 

6 a 10 pontos – A mente fechada para a qual não existem fatos, mas interpretações 
Se um dado fato não se dobra ao seu partido, não é seu partido que você acha que deve ser revisto, mas o fato. “Foi interpretado do jeito correto?”, você pergunta quando o dado fato não te favorece. Se alguém te apresenta uma situação crua, sem dar nome aos bois, você primeiro quer saber com quem aconteceu para depois avaliar. “Matou milhões”. “Ah, Hitler era mesmo um tirano absurdo, onde estava a humanidade naquela época que não colocou freios nesse desvairado?”. “Na verdade eu falava de Stálin”. “Ah, mas nessa conta de milhões também estão os mortos pelas guerras, e Stálin viveu em outra época, outra realidade; pode ter cometido erros, mas alguns erros foram imprescindíveis para manter em pé o que os bolcheviques conquistaram, nem tudo é preto no branco”. Com um pouco mais você será promovido a Doutor em Canalhice, mas por enquanto é só mestre. Cuidado. Ou, dependendo do seu ponto de vista, “parabéns, está quase chegando lá”. 

11 a 15 pontos – Doutor em Canalhice, com orgulho e um sorriso desafiador na cara 
Para chegar a essa pontuação, ou você mentiu só pelo desejo de bagunçar, ou é tão repugnante que deve até dar para perceber de muito longe que você vem chegando com toda a sua pedantice. Você é irracional, implicante e provavelmente quer ser a voz preponderante em discussões políticas. Informa-se pela internet, e só em páginas claramente enviesadas “bem selecionadas”. Se encontra sem querer algo que vá contra o que seu fanatismo apregoa, você lança uma teoria conspiratória, fala da tal “grande mídia manipuladora”, propõe a destruição das instituições. Autoritário e possivelmente com problemas sexuais, espera-se que nunca alcance nenhum grande posto político, pois fará tanto dano quanto Bolsonaro faria se estivesse no mesmo lugar.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A fogueira das vaidades da terceira onda feminista



Existe um teste que as feministas da terceira onda usam para tentar cooptar mais membros para o Clube das Mulheres Oprimidas, um espaço social onde a música ambiente é o falatório incessante, o traje a rigor é a irracionalidade (venha pelada, mas não venha sem o manto simbólico da falta de bom senso), o ponche de achismo é servido aos baldes e o cenário é algo que um antropólogo de Marte apontaria como “a vontade de rebanho da espécie humana manifestada da forma mais desesperada”. O teste é de apenas uma pergunta: “você é a favor da igualdade entre homens e mulheres?”. Se você responde que sim, dizem “está vendo?, você é feminista”. Claro. Só que ninguém faz a advertência para que tipo de feminismo as avaliadoras defendem. 

A terceira onda do feminismo é uma maré doentia, e os ingredientes da sopa primordial são carência, complexo de inferioridade e ignorância voluntária. O que se manifesta desse caldo é um desejo de aplauso (“lacração”, busca de apoio feminil, “deixa que eu desconstruo as coisas”), um narcisismo expressado aos berros de “Extra! Extra!” e uma repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto. 

Desejo de aplauso constante é carência: sem público, a feminista se deprime, e é na perseguição da aceitação que se adotam posições radicais, extremas, e a “problematização” do todo. A moderação dificilmente atrai seguidores, então é preciso inovar, e a glória de se sentir amada pelo coletivo virá quando uma bobagem for descamada como uma cebola e alguém, com fome de gurus e discursos, disser: “você sabe que eu nunca tinha visto isso dessa forma? Obrigada, deusa”. 

Narcisismo expressado aos berros é complexo de inferioridade. O genuíno narciso, raríssimo, se basta: ele sabe que é melhor, que é bonito, que impera, e não dá a mínima para a opinião alheia. Ele não diz aos ventos a cada instante “eu não dou a mínima para a opinião alheia”, entenda-se. Ele simplesmente não dá a mínima. Já o narciso fajuto precisa se vender justamente porque é muito inseguro, ele necessita que os outros o amem para que ele se ame. Seu encontro consigo mesmo não se dá na solidão da olhada no espelho ou no reflexo do rio, mas na fotografia viralizada dele se olhando no espelho ou no reflexo do rio: não é “eu me amo” seu lema, mas “vejam como eu me amo” – completamente diferente, pois depende de público. O narciso fajuto quer que os olhos dos outros sejam rios onde ele vai ler que é bonito, que tem valor. Este ano uma feminista negra, “filósofa”, disse pela centésima vez que era linda e sábia. Uma feminista morena, “socialista”, disse que a achava feia. A “filósofa” tentou se blindar do choque de o rio ter cuspido em sua cara aquilo que a perturba lá no fundinho, aquilo que a faz choramingar quando os espelhos nos olhos dos outros dormitam: usou ironia, convocou o bloco monolítico (veio trotando em sincronia), jogou a carta da angústia travestida de superioridade e afirmou, num surto de megalomania e despreparo com números, que 180 milhões de brasileiros a amam. Era de sentir pena tanta demonstração de desespero. Quando alguém faz dessas no pronto-socorro de um hospital, logo o enfermeiro aparece para acalmar o surtado e tirá-lo de cena colocando um casaquinho nos ombros dele. Numa reunião de família, vão enrolá-lo num cobertor e recomendar “venha, vamos dormir, já passou da hora de tomar seus remédios”. Na internet o surtado provoca uma epidemia em vez de a plateia entender que precisava de ajuda. A diferença entre o narciso real e o falseado é a diferença entre o tomate e o Nescau no supermercado: o tomate, boníssimo, está nu e despreocupado, porque não precisa se afirmar com nada, não precisa de um pacote de autoelogios; lá no outro corredor o Nescau, que é ruim, trabalha uma ilusão em seu exterior e sente a urgência de se atestar como vitaminado, gostoso, nutritivo, mágico. 

Repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto é ignorância voluntária: as professoras de feminismo “se doutoraram na vida” e não estão dispostas a aprender. Mas fingem absorção humilde quando ouvem alguém defender aquilo que elas já pensavam ou quando vão a oficinas como “Radicalize-se: (des)dobre o origami da opressão e descubra o cerne das relações de micropoder”. (Parênteses no meio das palavras costumam ser péssimo sinal; mas sinal dos tempos de fato será quando usarem colchetes e chaves.) Não são refutados argumentos, mas pessoas, e é em nome do ódio ao contraponto que se apela para a guerra das vaidades. A ciência é negada: bom mesmo é estatística feita com método errado – eu ia escrever “duvidoso”, mas não gosto de eufemismos –, astrologia (quando uma feminista é ateia e fã da determinação dos astros, já se sabe: não é ateia por motivo racional e científico, mas porque Deus e a religião representam poder, patriarcado, etc.) e “vivência”. Vivência: mas quem vive o mesmo e conclui o oposto só pode estar fazendo uma leitura errada de mundo. 

“O feminismo é importante para nós porque é necessário para mim” deveria ser a síntese do que esse movimento representa hoje. Não é prioritariamente sobre mulheres que sofrem, é sobre a vaidade das mulheres que alegam sofrer. E nisso se assemelha tanto a toda futilidade que diz combater nos homens. Padrão de beleza, por exemplo. Há feministas que “querem porque querem” ser consideradas bonitas em casca, mesmo que sejam desproporcionais, assimétricas e paquidérmicas. Pensam, com isso, que estão dando um banho de “desconstrução”, só que na verdade estão dançando a mesma música que os homens adoradores de padrões de beleza colocam para tocar. Por que em vez de “todas são bonitas” não se batalha pelo “beleza física nem sempre é importante”? Vaidade, simplesmente. Eu me nego a chamar de bonitas pessoas que considero feias de maneira acachapante. Nem por isso estou desmerecendo quem quer que seja, porque, na minha concepção, beleza não é fundamental – se pudesse escolher, teria ao meu redor gente inteligente, higiênica e aberta ao humor, não gente bonita que não sabe fazer nada. Agora vejamos sobre esse tema a alienação feminista em passos: 

1. O dito patriarcado determina que beleza é fundamental.

2. O feminismo da terceira onda compra essa ideia e corrobora: beleza é fundamental. (Não me lembro de as outras ondas terem reivindicado “somos todas lindas”; acho que aquelas ondas eram mais envolvidas com a questão política do que com a questão trivial e coitadinha da bruxa moderna que não aguenta ver o espelho dizendo que a Branca de Neve tem traços mais harmoniosos.)

3. Patriarcado e feminismo estabelecem uma parceria, um consenso: beleza é fundamental.

4. Se a beleza é fundamental e precisamos combater a sociedade de classes (porque a luta se manifesta mesmo no quesito estético, e a estética é parte do motor da história), nada mais justo do que estimular essa grande osmose que vai diluir as belezas, balanceá-las e permitir que todas as mulheres sejam bonitas.

5. Que conversa é essa de mérito? Não há mais bela e menos bela, todas as mulheres são belas.

É até contraditório que se busque tanto uma aprovação de beleza enquanto se condenam figuras de beleza. “Não chamo minha filha de princesa”, diz uma para logo depois declarar que o adjetivo “linda” é moeda corrente na educação da criança – como se isso fosse essencial, virtuoso. Não adianta berrar, não adianta tatuar, não adianta pregar para as convertidas que vocês são lindas se vocês não são. O esquerdismo tem dessas: não aguenta ver que alguém se destaca, é preciso mediocrizar, nivelar tudo. 

Uma cantora feia (de maneira indubitável) aparece. Canta bem. O “patriarcado” grita que ela é feia. O feminismo, que não quer fazer autocrítica estrutural e por isso permanece numa estúpida dicotomia com o propalado inimigo, diz que a cantora é bonita e que “precisamos falar sobre belezas diferentes”. O que deveria se retrucar é: por que uma mulher que vai cantar precisa ser bonita? Ela não deveria apenas saber cantar? Quando uma cantora precisa ser bonita? Exatamente, quando não sabe cantar. 

Existem pessoas sem dúvida feias, pessoas sem dúvida bonitas, e belezas relativas. Desde criança me incomodo com as perguntas sobre a beleza daqueles para os quais manifestamos interesse apaixonado ou amoroso. (Chamo isso de criança visionária, enquanto vocês todos sempre me chamaram de criança estranha, mas tudo bem se eu trouxe a luz elétrica para o vilarejo antes de vocês terem entendido a importância da vela.) O que faço com uma pessoa que é apenas bonita? E como eu conviveria com uma pessoa que só tinha isso como trunfo? Se meu objetivo é “a beleza plena acima de todas as coisas”, vou construir minha casa rústica no meio de um campo florido, e não querer conviver com quem apenas satisfaça a matemática da estética com um corpo lindo em cada quadrante. O feminismo deveria ser sobre “a beleza não é o mais importante” (dizer que não é nada importante é mentira) e não sobre o autoritarismo de querer forçar todo mundo a achar que Claudia Schiffer e Jocelyn Wildenstein são igualmente belas. 

Empoderamento é uma forma mentirosa de vaidade autossuficiente. “Eu me visto para mim”, “uso salto para mim” e “uso maquiagem para mim” são coisas que na imensa maioria dos casos não procedem. Quase nunca saio sem pelo menos um pouco de maquiagem. E essa maquiagem é para vocês. A prova disso é que não tenho o hábito de usar maquiagem em casa: em casa, apenas passo sombra nas partes ralas das minhas sobrancelhas e um pouco de blush se estiver pálida. Para mim, de verdade, portanto, importa não ter sobrancelha rala nem rosto pálido – batom e pó compacto eu passo para os outros. “Salto para mim mesma” só faria sentido se a dona dessa sentença usasse salto ao estar sozinha em casa: acorda no domingo, coloca salto e vai lavar a louça, ver TV, ler um livro. Isso é “salto para mim mesma”. Se você só usa fora de casa, seu salto é para os outros, não minta que se adora tanto assim, não forje narcisismo. Poucas mulheres fariam questão de se depilar se fossem viver uma temporada numa ilha deserta – mas adorariam ter uma lâmina de depilação se soubessem estar próximas do resgate. Como é confortável a franqueza e como é nojenta a encenação desmedida. 

A terceira onda quer abortar quando bem entender “porque o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser” (segundo mês, sétimo mês – não importa, porque ciência do desenvolvimento fetal não importa, o que importa é a empoderada mimada). A terceira onda quer que mulheres não sejam interrompidas por homens – problema de gênero, segundo elas, mesmo que eu consiga reunir 200h de vídeos em que fui interrompida por outra mulher no que certamente era apenas uma fabulosa sessão de sororidade que não percebi. Problema humano de modo geral e de falta de educação agora é “problema de gênero”. A terceira onda quer mais investimentos em universidades para “pesquisas” sobre gênero nas especializações sobre gênero que publicam inúmeras revistas sobre gênero que nem as próprias “profissionais do gênero” leem – isso é mais importante do que atividades de laboratório. A terceira onda se arroga o direito de falar em nome de todas as mulheres quando decreta que “nenhuma mulher gosta de assovios e gritos de 'gostosa' na rua”, quando, bem, a realidade não se adapta a esses dados inventados. A não ser, claro, que as fofinhas feministas burguesas não gostem da estima exteriorizada desses trabalhadores – em locais pobres, certos tipos de pedreiros distribuem felicidade com seus panegíricos. A terceira onda mente que “nunca é a roupa que faz uma mulher ganhar um assovio ou ser assediada”. Pergunto: quando uma moça bonita muito coberta e uma não tão bonita de trajes mínimos passam por uma construção, quem tem maior chance de receber os “elogios” dos pedreiros? (Não estou falando de certo e errado, estou falando do que acontece.) A terceira onda, ao discutir entre si, é a baixeza daquele diálogo primário entre a “filósofa” e a “socialista” que citei acima: se uma critica a outra, a outra diz que é inveja da exposição, inveja porque escreveu livro, inveja porque é convidada a ir à Globo (a “filósofa”, aliás, sempre que contestada usa o coringa “inveja”). Não difere muito do teor de discussões de mulheres “barraqueiras” resolvendo suas picuinhas “na casa mais vigiada do Brasil”. A terceira onda mente que mulheres gostam ou podem gostar de sexo tanto quanto homens, ou mais. Excetuando o caso de viciadas em sexo – que é uma condição patológica, triste e tratável (lembre-se que viciados em sexo podem muitas vezes precisar se aliviar, na urgência, com mendigos) –, dizer que uma mulher gosta de sexo tanto quanto um homem é desconhecer a biologia, o papel dos hormônios e a cabeça de um homem. A finalidade de mentir sobre esse assunto é massagear a vaidade, para sentir a delícia de fazer com que os outros achem que se é muito sensual. Claro, queridas: vocês certamente correm com frequência para o banheiro quando estão com muito tesão e têm certeza que continuarão assim aos 60, vocês certamente se igualam à quantidade de masturbadas diárias de rapazes na puberdade – no mínimo três, no máximo a esfola –, são os parceiros de vocês que inventam que têm dor de cabeça ante insistências incômodas. Claro. Tudo muito verídico. Essas proclamadas famintas são os Cadernos Pagu recebendo um sopro da revista Nova. Há mulheres que lamentavelmente nunca gozaram na vida (não culpem somente os homens “que não souberam fazer”; foquem em ensiná-las a descobrirem seus corpos sem nojo), mas as “deusas da terceira onda” nunca podem ser saciadas porque estão eternamente ávidas. É uma competitividade mórbida: essa feminista não quer gostar de sexo de modo saudável de acordo com o que a natureza lhe dá – ela tem tanta obsessão por odiar homens que só se satisfaz quando fantasia que seria capaz, ela, de engravidar pelo menos 365 pessoas num ano. O sexo é uma dádiva da evolução: maravilhoso, natural e simples. Por que o feminismo quer transformá-lo em farsa, ganância, “luta”, concorrência, soberba?

Um “feminismo” que esperneia como uma criança no supermercado se jogando no chão quando quer alguma coisa desnecessária – que ele me ligue no dia seguinte como prometeu, que as pessoas me achem bonita, que me deixem falar meu monólogo até o final, que eu possa chamar de assédio se tiver vindo de um homem feio, que eu possa chamar de estupro se me arrepender depois, que eu não tenha que provar minhas acusações porque o que importa é a palavra da vítima, que eu possa me sobressair sobre estudados porque tenho vivência, que eu não precise assumir minha ignorância quando um homem quiser me ensinar o que não sei – não pode, não deve, ser levado a sério e nem atendido em suas exigências. Não se renda às exigências triviais feitas aos gritos: da próxima vez não deixe essa mimada ir junto ao supermercado. 

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NOTAS

1. Em terreno polarizado, é preciso explicar o básico para não entrar na roda: há muitas pautas feministas importantes (aborto até o terceiro mês, masturbação feminina, desvencilhamento do pacote casamento + filhos, divisão de tarefas, educação infantil livre de imposições limitadoras, combate à violência doméstica). Meu asco é sobre a terceira onda, que não é um movimento político, mas um movimento de estímulo das vaidades, de adoração a personagens pitocos transbordando prepotência e de resposta à vontade animalesca de agrupamento. Se você é “contra o feminismo”, saiba que não estamos no mesmo barco. 

2. É incrível como algumas pessoas são bonitas. Mas e depois? Ou: mas e o que mais? A mera beleza basta a mulheres fúteis e homens babões, mas, francamente, o que faço numa mesa de bar sentada com Marina Ruy Barbosa e Zara Larsson? A companhia de Willem Dafoe e Steve Buscemi – que não considero feios, mas que estão muito longe do “padrão” (e que por isso são tidos como feios por muita gente) – traria melhor proveito, sem dúvida. 

3. É multifatorial o problema das mulheres que não gozam (muitas até pensam que talvez gozem). Uma cultura do pudor, do nojo que a mulher deve sentir pelo próprio corpo, a dificuldade de alcançar o que se deve (enquanto no homem a natureza trouxe tudo muito escancarado, como uma ferramenta que o colega dele pede na oficina mecânica e “tá na mão”), intromissão religiosa quando Jesus nunca deu um pio sobre o assunto. E é um problema que não deve ser menosprezado, pois traz infelicidade tanto para ela quanto para ele quanto para elas (num casal lésbico). Achei perfeita a comparação que um dia fizeram com um espirro: não apenas porque se manifeste como um “atchim” a caminho, mas porque ninguém tem dúvidas se espirrou ou não. Ninguém diz “olha, eu acho que espirrei” ou “tenho a impressão de que espirro junto com meu marido todas as noites”. 

4. Mulher que diz gozar exatamente ao mesmo tempo que o parceiro: uma iludida ou, essa sim, uma deusa em sintonia perfeita com um deus. Vocês na neve, vem um vento gelado, as roupas não são suficientes: qual é a probabilidade de você e seu parceiro espirrarem juntos? Pois é. 

5. É possível se afastar, mas não adianta negar: nossa natureza influenciou o desenvolvimento da nossa cultura. Há motivo para homens gostarem de mulheres bonitas. Há motivo para mulheres gostarem de homens com dinheiro. “Isso é tudo cultural” – sim, mas como fruto da árvore da natureza. Mulheres lindas casadas com bilionários feios é algo comum, mas é raro que bilionárias feias consigam se casar com homens lindos. Revistas de homem nu não fizeram sucesso. Homens que ganham menos que suas parceiras são comumente tratados com leve desprezo por elas – e são fortes candidatos a serem traídos se além disso forem completos bananas. Homens não costumam gostar de mulher-macho, mulheres não costumam gostar de homens afeminados. Casais de mulheres têm uma fidelidade muito maior que casais de homens: até no mundo homossexual a vontade carnal do homem de “diversificar” se manifesta. Acho muitas dessas coisas ruins – mas é minha opinião sobre um dado. Negar a natureza não vai apagá-la. É melhor tentar trabalhar com ela.

domingo, 5 de março de 2017

Separar a arte do artista


A notícia do momento é que uma carta assinada por 400 intelectuais pede que Lula considere, “desde já”, a possibilidade de se candidatar à Presidência da República para 2018. Tássia Camargo é uma das que assinam o documento. Não sabia da produção intelectual da atriz, assim como desconheço a imensa maioria dos nomes da intelligentsia brasileira que ratificam o conteúdo da carta. Pode ser apenas muita ignorância minha, já que ignoro tantas coisas. Se nunca ouvi falar dos intelectuais “Flávia Moura Caldas, comerciária”, “Deolinda de Almeida Pantoja, dona de casa” ou “Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor evangélico” deve ser porque ando lendo os livros e jornais errados. Pago a assinatura da Folha de S. Paulo para estar bem informada e passo esse vexame ao me deparar com uma lista de nomes alienígenas. Talvez devesse ler o Brasil 247, que tem Renan Calheiros como colunista. 

Dentre os assinantes óbvios está Chico Buarque, que enxerga o mundo com os óculos de um taxista: dicotômico, eterno bandidos versus moços. Diante disso, pergunto-me: 

1. De que serve o conhecimento se ele não puder alterar nossa leitura das coisas? Chico não é nenhum iletrado, mas age como um ao querer salvar Lula de “perseguição política” em nome do combate a figuras da suposta direita brasileira. Seguindo o mesmo jeito de operar estão os que alegam defender entusiastas de torturadores a fim de formar uma forte oposição ao PT. Resumo: existem apenas dois lados, e ou você está aqui, ou está ali, não existe acolá ou outro lugar. O que é, convenhamos, o retrato certo de boa parte dos taxistas. Quando trabalhei com educação infantil, alarmei-me ao ver que muitas pedagogas, formadas pedagogas e pagas com salário de pedagogas, queriam apenas “cuidar” de crianças, levando-as para brincar livremente no parque, deixando que desenhassem o que bem entendessem e interagissem à vontade “desde que não se machucassem”. Para que servia a formação delas se o trabalho que realizavam podia ser feito por uma costureira analfabeta? Deixar crianças passando horas em frente à TV ou correndo pelo parque não exige nenhum conhecimento de Freinet ou Vygotsky: qualquer adulto sem cursos consegue tomar essa responsabilidade e ainda ser menos oneroso à instituição que o emprega. Se o conhecimento não for usado, repito, para que serve? Chico Buarque viveu em lar cheio de livros, com pai erudito, entorno intelectual, escreveu canções primorosas e a lista continua. Isso, infelizmente, não o ensinou nada sobre ponderação política. Suas opiniões nesse campo são primárias, e o bordão “é claro que o PT errou em algumas coisas” – presente na fala de muitos contemporizadores – só serve para que não passe uma imagem de cego completo tomando chuva ao som de Like a fool, do Robin Gibb. Depois do bordão vem um esperado “mas”, e depois da justificativa fajuta vem um “não troco o certo pelo duvidoso, quero Lula de novo”. No fim, o sujeito que quis parecer um analítico minucioso pesando valores na balança estava desde o começo convicto e cimentado em que lado apoiar.

2. A questão principal deste texto: O artista como pessoa deve se confundir com a sua obra? Não sei responder. Certa vez Rodrigo Constantino, perdido em assuntos que não dizem respeito à área econômica, bradou contra a obra de célebres como Chico Buarque por causa de suas opiniões políticas. Disse aos seus leitores que artistas ligados ao PT deveriam ser boicotados. Discordo, mas com ressalvas. Discordo porque apesar de achar aberrante que, em plena era da informação, alguém defenda um claro demagogo como Lula, ignorância e canalhice, não sendo crimes, acabam não sendo tão graves para o boicote de um artista de qualidade. Não me parece justo com o meu coração ter que deixar de ouvir Você vai me seguir porque seu compositor é lulista, e nesse momento separo o Chico opinador do Chico compositor. A ressalva quanto à minha discordância à ideia de Constantino: qual é o limite da separação entre o artista e sua obra? Devo tolerar a obra de um assassino por motivo fútil porque é muito refinada? Devo poder colocar uma das pinturas de Hitler na parede da minha sala porque uma coisa é o homem e outra coisa é a obra? Até agora dei exemplos dos extremos de aceitação “muito fácil” e “muito difícil” – Chico e Hitler –, mas vamos ao meio-termo que gerará alguns “não sei” e “aí você me pegou”: como proceder diante da obra de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma adolescente nos anos 70? Eu não lembro de não ter gostado de nenhum filme dirigido por ele. Gostaria que pudesse fazer mais trabalhos como Deus da carnificina (Carnage, 2011), cheio de diálogos, tensão e toques de humor, e O inquilino (Le locataire, 1976), hipnotizante, sombrio e que se assemelha, agradável e estranhamente, a uma experiência literária (que ocorre quando você está vendo um filme e parece estar lendo um livro; o contrário também é possível). Devo negar essas boas obras porque foram pensadas por um estuprador? Outra pergunta pertinente seria: devo julgar uma pessoa inteira por causa de um fato isolado? Também não tenho resposta, porque dependendo do caso a ideia é descabida ou justa. Talvez Polanski não mereça ser condenado a vida inteira por causa de um estupro ocorrido há décadas – talvez deva. E merecerá condenação um autor como Gabriel García Márquez, que foi amigo próximo de Fidel Castro? É possível que alguém advogue em seu benefício dizendo que “não são de nossa carga os crimes que nossos amigos cometem” ou, os mais delirantes, que “mas Fidel só fuzilava para salvar a revolução”. Só que Márquez não apertava mãos e dava tapinhas nas costas no escuro. Enquanto a população vivia somente com o básico racionado, Márquez, na qualidade de amicíssimo, frequentava os paraísos escondidos de Fidel. Márquez via que Fidel nadava em fartura e futilidade enquanto o povo cubano pensava que o comandante só possuía uma casinha simples onde fazia refeições frugais. Perdoamos o escritor colombiano por aceitar tamanha conduta imoral de seu amigo – e por aceitar receber benefícios como uma bela casa em Cuba – ou paramos de ler sua obra para honrar nossos princípios? Eu nem tenho muito o que pensar de Gabo, já que só li um livrinho dele (e não gostei), mas sei que muitas pessoas o veneram pelo que fez em Cem anos de solidão. Se algum leitor brasileiro se espantar com o fato de ele ser íntimo de um ditador e resolver parar de ler e propagar suas obras, isso seria inusitado – atitude que não espero tão incomum para alguém que tivesse fugido de Cuba para os EUA e execrasse o regime socialista no qual vivera até então.

John Lennon batia em sua primeira esposa. James Brown batia em suas esposas. Edmund O. Wilson batia em Mary McCarthy. O que fazemos com suas obras? Se estou num baile de super flashback e depois de Good times, do Chic, tocarem Papa's got a brand new bag, devo me retirar da pista balançando a cabeça e doutrinando “a música desse agressor eu não danço”? Seria fácil fazer isso e ser acompanhada se o agressor tivesse acabado de ser televisionado ou se seu caso estivesse marcado na memória coletiva, mas parar de dançar a música de um homem violento que teve seu auge há muitos anos, está morto e ninguém se lembra que causava problemas domésticos pode ser visto como o ato de “alguém que não está pronta para separar homem e obra”. Nós desculpamos uns, nós punimos em definitivo outros. Que régua mede quem merece estar separado da carreira e quem merece ser arrastado para a vala com ela? Na dúvida, admito, acabo separando o artista da obra. E tento defender minha escolha me convencendo de que não possuo nenhuma garantia de que outros ilustres sentimentais ou renomados literatos não tiveram, na vida privada e secreta, condutas altamente condenáveis. O poeta é um fingidor, e encarando uma magnífica poesia dá-se um jeito de livrar a pele de seu farsante para poder continuar a fruir sua farsa. Também tento me defender dizendo que as pessoas são mais complexas do que suas imperfeições pontuais, mas essa é uma opinião bem flexível e oportunista, pois eu jamais teria em minha cabeceira a grande obra de alguém que tivesse feito mal a um membro da minha família, e eu sei que algum bocado do meu desgosto pelo legado de Hemingway se deve ao fato de ele ser tão devoto do sofrimento animal, seja por meio de touradas ou caçadas por diversão. Já de Almodóvar não consigo não gostar e digo que é ótimo apesar das touradas. Fale com ela (Hable com ella, 2002) só não é um filme perfeito porque o sofrimento do touro e o louvor à cultura da tourada são reais. É fácil dispensar a obra de um imoral que não nos cativa tanto. Quem nos cativa nos tem não obstante muitas coisas, inclusive crimes. 

Admirarei qualquer nobre espírito que, sem querer holofotes e elogios, educadamente saia da pista quando tocarem James Brown. Já alguém parar de sambar porque começou uma música do petista Chico Buarque seria radicalismo. Se um compositor for boicotado por causa de uma opinião partidária infeliz, que meia dúzia de artistas restarão para condizer com nossas expectativas de forma plena? Não separar os homens de suas obras por motivos contornáveis e recusá-los inteiramente por isso só faria aumentar o comércio de arte feita por freiras. Boicotes artísticos inconscientes e rigorosos só servem bem na cabeça de autoritários que se pensam deus. Eu prefiro arte feita por seres humanos que falham.