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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
A "crise das livrarias"
Temos visto uma hecatombe no mundo livreiro que já apresentou muitos precedentes. Como eu não estava viva ou opinante nas épocas precedentes para me manifestar, só posso falar do que vejo agora, no meu momento.
Essa suposta crise do livro, por exemplo, que deseja persuadir as pessoas a reivindicar que o Estado crie uma lei para impedir descontos de mais de 10% do preço de capa no primeiro ano de lançamento dos livros, modelo “que funciona na França culta”. É uma ideia que favoreceria muitos livreiros, mas a motivação, em primeiro lugar, está errada: a queda das gigantes Saraiva e Cultura. Falo o que todo o mundo razoável e sem rabo preso está falando: no tempo em que cresciam, as duas empresas louvavam o capitalismo criativo destruidor – seleção natural dos melhores adaptados às novas circunstâncias ambientais – e foram responsáveis pela ruína de muitas pequenas livrarias; agora que se veem despencando com dívidas de centenas de milhões, recorrem à mão pesada do Estado com o discurso emotivo do “vamos deixar de frieza, a cultura não pode ficar sob os ventos do livre mercado”. De esquerdistas e liberais espero alguma coerência. Como nunca me entregam essa coisa trabalhosa, vivo a lhes descer o sarrafo. Não desejo Estado máximo ou mínimo; aspiro a um Estado moderado que tenha maturidade para interferir onde é preciso. Meter o bedelho no curso do mercado livreiro porque Saraiva e Cultura fizeram uma péssima gestão não é, não deveria ser, tarefa do Estado.
Em julho deste ano saiu na revista Época uma matéria interessante sobre a arquitetura das salas de concerto nos Estados Unidos. Salas enormes que viviam lotadas no passado viram a mudança do espírito coletivo levar embora parte do público, transformando locais bonitos em cenários deprimentes: tal como é deprimente estar em qualquer auditório de quinhentos assentos vendo somente cem deles ocupados. Se de certo modo isso pôde gerar um colóquio demorado sobre a crise dos espetáculos musicais clássicos, também foi preciso não forçar uma realidade inexistente ou se adoentar na nostalgia, ou seja, foi preciso buscar adaptar as salas. O novo conceito se moldou à modernidade sem, necessariamente, perder sua alma, e as salas começaram a ficar menores. Menores, puderam voltar a estar lotadas e fizeram do iminente fracasso um trunfo: as salas de concerto passaram a ser espaços “intimistas”. Não é uma lição que todos aprenderam, e compreendo a dor de ver que um negócio que funcionou às maravilhas de repente se torne datado, mas faria sentido que alguma lei fosse criada para salvar as enormes salas da roda dura do tempo? Acho que não, até que me convençam a mudar de ideia.
Digo que todos devemos nos adaptar ao ritmo da música cacofônica posta pela sociedade massacrante diluída? Não digo, porque depende do caso. Vejam, não é porque o Brasil é inculto – e que, aqui, mesmo aqueles que se consideram cultos raramente estejam lendo algo que preste, e que mesmo os mínimos que leem algo que preste não saibam bem o que fazer com o que leram – que o governo deve conjecturar “o povo está dado como está; se não quer ser instruído, quem somos nós, governantes metidos a paternalistas, para obrigar instrução?”. Há claro benefício coletivo e individual em fazer com que o povo se instrua, e um bom governo sabe como incentivar avanços educacionais. Não é oportunismo, corporativismo, benesse para os camaradas fazer com que o país melhore na educação. O mesmo não se diz de um pedido de medida provisória feito a Temer por duas empresas ávidas em barrar a figura que é o que elas, as duas empresas, queriam e tentaram ser: Amazon, o trator. (Há um rumor de que a Saraiva tentou prejudicar a entrada da Amazon no Brasil ameaçando represálias às editoras que fizessem contrato com o novo competidor.) Se antes apelavam ao capitalismo com soberba, na desgraça querem apelar à nossa sensibilidade. Escrevo também para dizer que não acredito justo que chamem de insensíveis os que não cedem a esse conveniente apelo.
Pois bem, enquanto muitas salas de concerto dos Estados Unidos tiveram que adequar suas arquiteturas estonteantes para um público mudado, e fizeram dessa renovação um encanto, Saraiva e Cultura no Brasil aproveitaram uma onda meio boa para fazer uma gestão aloprada, impensada (ou pensada do jeito errado) e megalomaníaca. Abriram lojas enormes em ruas caras de São Paulo (e em shoppings caros), lojas que várias vezes funcionam mais como passagem do que como escopo. Visitando essas monstruosidades de proporções absurdas, os erros estão claros em poucas observações. Primeiro, vitrine e estantes quase parecem o estoque. Há mais de trezentos exemplares de um mesmo título de vários lançamentos montando figuras geométricas quaisquer em pontos da loja. O consumidor é para ser pego pela estética atordoante das construções enormes, dos blocos de pilhas de livros que nos fazem sentir miúdos. Deve funcionar em um ou outro local estratégico da cidade, mas como reprodução em quase todas as lojas me faz parecer uma tentativa de União Soviética, que, era certo, cairia. Segundo, esse modelo de “gigante espaço de convivência” não estimula compras, mas passeio. Uma loja não sobrevive com a quantidade de passos dos visitantes ou com o número de acessos de wi-fi. Ela precisa vender. No modelo soviético da Cultura e da Saraiva, todavia, os potenciais consumidores vão mais para passear do que para adquirir livros. A família média – com aquela cara de que não sabe o que fazer consigo mesma em seu universo dominado pelo tédio – está no shopping almoçando e depois resolve dar mais uma volta com as crianças, e aí vai lá na Cultura e na Saraiva dar uma olhada, sentar, e até ver TV (!). Sai com as mãos vazias ou quase: “tá bom, Enzo Gabriel, vamos levar o livro dos carros”. Os clientes estão livres naquele baita chão, soltos e sem tirar quase nada do bolso. Se fizessem uma enquete na saída com a única pergunta “o que você veio fazer em nossa loja hoje?”, bastariam duas alternativas: a) Dar uma volta; b) Comprar um livro. Pelo pouco que vi e pelo muito que ouço falar, o público está mais interessado na opção “a”. O custo-benefício de manter essas lojas titânicas, em síntese, é baixo.
Não é só isso, claro. Além de as referidas empresas não terem se adaptado aos novos tempos no mundo físico, não se adaptaram no mundo virtual. Tanto o site da Cultura quanto o da Saraiva são tenebrosos. Esperem, estou sendo rude. O site da Cultura é muito ruim. O site da Saraiva é que é tenebroso. Houve uma época em que eu aproveitava muito as promoções de desconto progressivo no site da Saraiva – quase o único momento em que era vantajoso comprar livros lá, pois sem promoções os preços eram salgados –, até que fizeram uma modificação na página para torná-la mais palatável ao gosto de quem a visitava em dispositivos móveis. Ocorre que mesmo a versão para computadores, a “versão clássica”, ficou parecendo para dispositivos móveis, e não foi bom para senhoras atrasadas em tecnologia, como eu, que faziam o acesso em computadores. Há mais: o site se tornou lento, travava, e a seção “características” – que mostrava dimensões do livro, número de páginas, etc. – não funcionava. Não foi uma semana sem funcionar – desculpável –, foram meses e meses. Hoje fizeram essa seção voltar, mas alguns livros ainda estão sem o número de páginas. Há o peso do livro, mas não há o número de páginas. Quero conhecer quem são essas pessoas pitorescas, leitoras minuciosas, que não se importam com o número de páginas dos livros e em vez disso se interessam em saber se pesam 0.502Kg ou 0.537Kg. “Vale pagar R$58 por 0.321Kg?” Eu sempre me considerei de outro planeta, mas com estudos avançados sobre este para o qual migrei, a Terra, portanto penso dizer com alguma propriedade que o número de páginas é uma informação relevante enquanto o peso é relevante quase nada. “O que está lendo?” “Um livro de meio quilo.” Quem montava a tabela com informações específicas sobre um livro específico era uma pessoa que lia livros (fora os que foi obrigada na escola e na faculdade)? Tenho dúvidas.
Alguns estudos de usuários de bibliotecas concluíram que eles preferem uma excelente usabilidade a um incrível conteúdo. Trocando em algo mais ao alcance de todos – gosto de me fazer entender quando falo de variedades neste blog –, isso significa que não adianta uma biblioteca ter um acervo, físico ou digital, sensacional se o sistema for de difícil uso. Interesso-me por isso porque o estudo de usuários é das áreas mais cativantes da Biblioteconomia – “biblioterapia” é das áreas mais jecas, uma agonia, dá vontade de acordar só no final da disciplina para se jogar numa piscina (infantil, não sei nadar) comemorando abrindo champanhe –, e como usuária de bibliotecas desde que comecei a ler concordo gravemente com essa conclusão, que vale também para o velho sistema de fichas. Isso não deveria servir só para aprimoramento de bibliotecas, mas de livrarias, pois há alguma simetria aqui. Estou disposta a aprender a usar um sistema de busca, a encontrar sentido no modo como funciona o site de uma biblioteca ou livraria. Mas se para chegar aonde quero preciso atravessar um rio, pegar uma trilha, subir uma montanha, escalar rochas, passar para o outro lado me equilibrando numa corda (sóbria), voar de asa-delta (que funciona mal), lutar contra índios que nunca viram uma pessoa branca, fazer fogo com gravetos à espera de um helicóptero de resgate – uau, vou procurar outro site, ou, pior, desestimulada, acabarei acomodada e esquecida na minha ignorância sem o conhecimento que estava buscando. É a nova televisão que o idoso não consegue aprender a usar; então desiste, enfastiado, e prefere ficar vendo a televisão antiga. Com isso quero dizer que não deixei de fazer compras na Saraiva só porque a Amazon costuma ter preços melhores, mas porque seu site é inóspito, repulsivo àqueles que gostam de praticidade. Sua horrenda usabilidade afasta não só os que ficam conscientemente irritados apontando os erros com precisão (meu caso), mas também aqueles que inconscientemente percebem algo ruim que não conseguem explicar. “Por que nunca mais fez compras na página da Saraiva?” “É verdade, não fiz, nem sei o porquê.” Eu sei, seu inconsciente sabe: porque o site não é hospitaleiro.
*
Nunca tive uma livraria para chamar de minha, apenas sebos. (Acalmem-se as pessoas feias que leem este blog dando bufadas e revirando os olhinhos porque acham que me desprezam mas na verdade estão apaixonadas por mim: não iniciarei outra conversa sobre minha pretérita pobreza. Mas já fiquem com o aviso de que um dia haverá uma postagem só sobre ela, a pobreza, que me ensinou tanto e rendeu histórias.) Os clamores que as classes médias paulistana e carioca fazem a respeito da morte de renomadas pequenas livrarias não têm tanto apelo sentimental para mim, e quero até me desculpar por confessar uma certa ausência de empatia. A primeira livraria tradicional que vi morrer e teorizei a respeito foi a Livraria Alemã, de Blumenau, há aproximadamente dez anos, e também não me chateei tanto porque meu relacionamento com ela era baseado nas sentenças “só os ricos vão lá comprar livros, e ainda sentam para tomar cafezinho”, “quem não estiver bem-vestido não é bem tratado” e “meus pais foram uma vez comprar uma apostila para mim e nunca mais voltaram”. A livraria fez sentido enquanto era quase solitária em Blumenau, mas depois começaram a surgir outras, e o advento das compras pela internet ajudou a miná-la (suponho). Minha experiência com compra de livros foi de três fases: 1. Só sebos; 2. Livros de bolso na BluLivro; 3. Aquisição pela internet. Há gosto para tudo, esse clichê, e que bonito que existam pessoas cativadas por livrarias pequeninas que frequentam desde sempre, mas hoje quase só compro livros pela internet, e acho isso maravilhoso. Não gosto de arrogância desmedida e grosseira, mas também abomino fingir humildade, então lá vai: nas poucas vezes que entrei em livrarias, os vendedores não sabiam comentar coisas relevantes sobre os livros de que gosto. Nada de “vejo que você está com essa pérola, sabe a história por trás dela naquele ano de 1793, Inglaterra?” ou “esse clássico é imperdível, e lá pelas tantas o protagonista cita essa obra aqui, ó, que você pode querer levar quando terminar o livro”. São coisas que mais constato do que critico. Com o salário baixo de vendedor, as exaustivas 44h semanais de trabalho e o desapreço por livros no Brasil, eu seria uma aberração empolada se quisesse que eles tivessem formação literária. Ademais, se é para se especializarem em algo, especializam-se nos livros do instante, que é o que a maioria dos clientes procura nas lojas – são pragmáticos. Que estranho, então, eu me imaginar saindo de casa para visitar uma livraria com preços caros e vendedores que não têm “atendimento personalizado” a me oferecer. Prefiro fazer minhas compras neste simpático notebook que tantas necessidades supre.
Ainda assim – sem conseguir me colocar plenamente nos sapatos de quem chora a morte de algumas livrarias – acho triste que fechem. Na verdade acho triste ver fechar qualquer coisa que já foi feliz, animada, mesmo que eu não tenha vivido o auge do estabelecimento. Ginásios abandonados me deprimem um pouco, bem como restaurantes que representaram qualquer coisa que não apreciei, mas outros apreciaram em dada época. É uma bobagem, pensando bem; às vezes quem viveu não sente nostalgia alguma, e fico ali “puxa, é uma pena, faziam festas nesse salão”. Mas se muitas das coisas que amamos hoje como nossas desde sempre na verdade já foram “as novidades que tiraram o emprego de quem trabalhava com a versão anterior”, por que acharíamos que não apareceriam mais objetos, lugares, comportamentos novos que tomariam o lugar de algo que vivemos no modo “transição”? Fui resistente a trocar de celular, mas troquei, e preciso admitir que o novo tem funcionalidades condizentes com o tempo em que vivo, no qual pegar um Uber é mais confortável e vantajoso do que um táxi. Não entrei na alienação “celular sempre comigo, fazer refeições no celular, visitar amigos e ficar no celular” – danoso, danoso, danoso –, mas me adaptei e reconheço as vantagens. Algumas marcas de celulares antigos não se adaptaram para fazer smartphones, lamentável estagnação delas caso dependessem disso para ter uma boa vida, mas a evolução acontece queiramos ou não. Há situações e comportamentos que eu não queria que mudassem, mas que força tenho para impedir? No meu mundo ideal – inverno sem neve oito meses por ano, quatro meses para outono e primavera; veganismo; ateísmo; muitas árvores e flores pelas ruas; controle de natalidade severo; feministas sendo cegadas por aulas obrigatórias sobre ciência, etc. – haveria uma lei que impedisse pais bananas que não têm autoridade sobre seus filhos escandalosos/chatíssimos de ficar em locais públicos fechados, como aeroportos, aviões, consultórios médicos. Só posso sonhar. Não vou nem sugerir que legisladores debatam meu absurdo particular.
Apesar da crise das livrarias – que não é uma “crise do livro repentina”, como alguns tentaram fazer pegar, pois “crise do livro” o Brasil vive há tanto tempo que nem chamamos de crise porque é uma constante –, ainda há algumas que se mantêm graças a serviços personalizados (geralmente quando o dono é leitor e gosta de atender o público que vem à sua lojinha), promoções e adaptação. Ainda há livrarias abrindo e está crescendo o mercado das editoras alternativas e dos “clubes de livros”, modelo revivido que mostra que algumas coisas passam e anos depois voltam. Com alguma organização e conhecimento é possível não matar todo o mercado livreiro tradicional e fazer pequenas livrarias terem seu lugar mesmo numa seara que a Amazon tenta dominar. Feiras, parcerias e eventos em livrarias são propostas que convidam as pessoas a apreciar o espaço, que, espero, deverá ser como boa parte das salas de concerto de Nova York têm se tornado: intimistas, aconchegantes, para quem está ali não por passagem, mas com um objetivo certo. É o tipo de negócio que a Amazon não consegue entregar. É o tipo de negócio que a Cultura e a Saraiva entregavam pouco. Lugar para empreender bem há para muitos. Quem perde o posto porque não evoluiu ou não soube mais gerir as contas não deve ter o mimo de ganhar uma lei para lhe favorecer enquanto o consumidor paga a conta do seu atraso. Ao mercado o que é do mercado. Ao Estado o que é do Estado.
***
NOTAS
1. É verdade que a França é muito mais culta que o Brasil. Nem por isso é um país culto como um adjetivo completo que fala de uma quase unanimidade. Além de boa parte da população ser inculta (consideremos parar de avaliar um país inteiro por suas capitais), parte da parte que se considera culta atua para fazer com que livros sejam como bolsas Louis Vuitton: acessórios galantes que são adquiridos mais pelo esnobismo e pelo simbolismo fashion do que pelo fim estético/cultural encerrado neles mesmos. E não é demais dizer que há ainda uma certa outra parte da parte culta que faz palavrório charlatão – floreios, espirais, rococó estilístico – e transforma o incompreendido voluntário em algo para ser louvado como se fosse de um patamar dos deuses, de entendimento somente para reis. Geralmente – não escrevi “sempre” – é lixo. Às vezes dá para encontrar algo bom e reciclar, mas vale mesmo a pena revirar o lixo todo para achar um chaveiro minúsculo? Só se você tiver muito tempo disponível, como o amado Wall-E.
2. Recomendo músicas ótimas de gêneros variados nas postagens. Como conseguem se aguentar não tendo uma caixa de comentários para elogiar essas diversas músicas ótimas? Ficam angustiados? Nunca saberei.
3. Isabelle Antena é uma cantora francesa que se notabilizou por fazer bossa nova eletrônica, jazztrônica (nu jazz) e pop eletrônico. Além da música que encabeça esta postagem, recomendo sua versão meio sombria de “Garota de Ipanema”, “Boy from Ipanema”, com o grupo Antena, e a música “Be pop”.
4. Não tenho nenhum tipo de ódio à Saraiva ou à Cultura. São livrarias históricas e gostaria que se reinventassem (palavra desagradável, mas deixo-a aí desde que com este desdém). E que se saírem do buraco, aprendam a não deixar a dívida ficar em 200 milhões de reais para começar a se mexer.
5. Uma pesquisa de preços para os mesmíssimos produtos. Digamos que hoje, primeiro dia de 2019, eu queira comprar esses cinco livros: Dez de dezembro, George Saunders; Manual da faxineira, Lucia Berlin; Bússola, Mathias Enard; 99 filmes clássicos para apressadinhos, Henrik Lange; e Os manuscritos do mar Morto, Edmund Wilson. Escolhi ao acaso (aos meus poucos amigos que sempre me dão presentes errados ou repetidos, alerto que já tenho todos esses livros), pesquisei os preços das mesmas edições na Amazon e na Saraiva. Os preços encontrados seguem, respectivamente:
Amazon: 27,99 – 47,53 – 57,43 – 22,22 – 23,90
Saraiva: 49,90 – 67,90 – 79,90 – 42,90 – 32,90
A compra na Amazon sairia por R$179,07. A compra na Saraiva sairia por R$273,50. Quase cem reais a mais. Não é como comparar preço entre uma geleia industrializada e uma geleia artesanal feita pela vovó que colhe morangos silvestres num quintal afastado em Estocolmo. São os mesmos produtos comprados na mesma modalidade virtual. Quem está disposto a rasgar dinheiro desse jeito é porque está mal informado – e compra na caríssima Saraiva justamente por falta de informação – ou porque tem um comportamento altruísta nonsense que precisa ser investigado pelo Dr. House. De minha parte, acho absurdo rasgar dinheiro que provém da venda do meu tempo livre.
6. Nem tudo são flores na página virtual da Amazon. A interface para dispositivos móveis não mostra o número de páginas dos livros no formato capa comum (somente na versão para Kindle), o que faz valer todo meu protesto lá de cima sobre o mesmo problema em alguns títulos no site da Saraiva: quem é que faz uma tabela com informações sobre livros e acha irrelevante colocar o número de páginas, mas acha importante o peso? Já fiz uma reclamação, não sei quando será atendida. Às vezes boas reclamações demoram a chegar aos ouvidos de quem toma as decisões quando a empresa é muito numerosa de funcionários.
6. Nem tudo são flores na página virtual da Amazon. A interface para dispositivos móveis não mostra o número de páginas dos livros no formato capa comum (somente na versão para Kindle), o que faz valer todo meu protesto lá de cima sobre o mesmo problema em alguns títulos no site da Saraiva: quem é que faz uma tabela com informações sobre livros e acha irrelevante colocar o número de páginas, mas acha importante o peso? Já fiz uma reclamação, não sei quando será atendida. Às vezes boas reclamações demoram a chegar aos ouvidos de quem toma as decisões quando a empresa é muito numerosa de funcionários.
7. Li sobre protestos de trabalhadores da Amazon em alguns países europeus exigindo melhores condições de trabalho. Se as condições são de ruins a degradantes, estão certos em reivindicar por tratamento mais digno, e não vejo problema em um aumento proporcional no preço de todos os produtos para cobrir esses direitos (se é que é necessário aumentar o preço de todos os produtos para isso, já que Bezos é o homem mais rico do mundo). Enquanto Bolsonaro e seus serviçais “liberais” (tragam uma caminhonete de aspas, por favor) não mexerem na CLT, trabalhadores da Amazon daqui podem recorrer à justiça para reclamar direitos não conferidos, ou, não se tratando de ferimento à CLT, fazer protestos como os trabalhadores alemães e espanhóis. Mas se ainda assim quem lê é um autêntico esquerdista, ou rigoroso com a melhor condição possível para trabalhadores, que não gosta desse vaivém da gigante online, viva!, há inúmeras pequenas livrarias desejosas de tê-lo como cliente. Esquerdismo bonito é isso: não apenas papo furado para posar de orador galã vermelho, não apenas compartilhadas de indignações nas redes sociais, não apenas um patético e débil “Lula Livre” – é colocar a mão no bolso (ei, no próprio bolso!) para fazer jus a seus princípios.
terça-feira, 2 de maio de 2017
Listas extraordinárias, de Shaun Usher
Não me lembro quando foi que comecei a fazer listas porque tenho a impressão de fazer listas desde sempre. Se já possuísse o conhecimento necessário e o cérebro preparado, provavelmente, recém-nascida, já teria elencado os pontos positivos e negativos da vida de bebê. O que sei é que desde a infância tenho feito listas, escritas ou mentais, sobre as coisas, muito disso influenciada pelas delícias que eu lia em livros e revistas quando alguém expressava seus gostos pessoais (ficções prediletas, nomes bonitos, medidas a tomar numa ilha). Eu pensava: “encantador isso, o sujeito ficar namorando a si mesmo criando suas listas”, porque quase todo tipo de autoenamoramento que não desandasse para o narcisismo e o esnobismo calculado me fascinava. Mas não ocorria só com listas personalíssimas. Gosto de listas estatísticas e de “procedimentos para caso este avião caia”. No meio dessa existência que é uma torrente de tópicos meus e dos outros, encontrar o livro Listas extraordinárias foi uma graça para uma madrugada divertida no sofá.
O livro reúne listas diversas de pessoas que não se conectam sobre assuntos díspares. Há desde O dicionário do beberrão, de Benjamin Franklin, em que são listadas dezenas de expressões que servem para descrever um bêbado – “tomou o grande elixir de Hipócrates”, “arruinou a própria pança” e “está de pilequinho” são algumas delas –, até Motivos para internação no Hospital para insanos da Virgínia Ocidental, no período entre 1864 a 1869 – dentre os motivos, “induzido a entrar para o exército”, “leitura de romance” e “masturbação suprimida”. Li somente as listas que me interessavam porque o livro não é do tipo “para conhecer do cabo ao rabo”, mas do tipo “consulta”. Talvez seja uma boa ideia colocá-lo numa mesa de centro para instigar assuntos com as visitas. Melhor do que livros de arte decorativos sobre os quais ninguém sabe falar com profundidade.
Selecionei algumas listas boas para exemplificar o tipo de lazer que o livro proporciona. No final da postagem, coloquei também algumas listas minhas. Nunca pude me denominar organizada porque a virtude da organização é vinculada somente a objetos, mas minhas listas são a prova de que sou organizada em conhecimento, pensamentos e fórmulas de conduta – um tipo de ordem que é mais importante do que ter uma mesa clean. Eu poderia determinar que da próxima vez que me perguntarem se sou organizada direi que “sim, organizada em pensamentos”, mas não o farei porque isso seria esperar intensidade de interlocutores possivelmente rasos que gargalham à toa e não compreendem sutilezas. Vida longa às listas, e mais desse tipo de cuidado privado a quem se desencantou de si mesmo numa época em que listas e diários só servem se forem jogados ao público que aplaude.
***
Na apresentação do Listas extraordinárias, Usher faz uma lista sobre por que é bom fazermos listas. Destaco dois pontos:
4. Todos nós somos críticos. Classificar as coisas – da melhor à pior, da maior à menor, da mais rápida à mais lenta – pode ser viciante, sem dúvida porque faz com que nos sintamos muito inteligentes.
5. O tempo é precioso. Confiando um monte de informações monótonas a listas facilmente digeríveis, temos mais tempo para nos divertir e fazer listas.
*
Num dos diários de Susan Sontag, editados postumamente por seu único filho David, havia essa lista de Regras para criar um filho. Bonito e útil, seu conjunto de regras só é estranho pelo item 10:
1. Ser coerente.
2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.)
3. Não elogiá-lo por alguma coisa que eu nem consideraria boa.
4. Não repreendê-lo com aspereza por algo que ele foi autorizado a fazer.
5. Rotina diária: comer, lição de casa, banho, dentes, quarto, história, cama.
6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.
7. Sempre falar bem do pai dele. (Nada de caretas, suspiros, impaciência, etc.)
8. Não desencorajar as fantasias infantis.
9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.
10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.
*
Os pecados de Newton. Lista que Isaac Newton escreveu aos 19 anos. Era dirigida a Deus e confessava seus pecados. Dentre eles, “gulodice”, “desejar a morte e esperar que ela venha para algumas pessoas” e “fazer tortas no domingo à noite”. Impossível não se identificar.
*
A lista Como a minha vida mudou, de Hilary North, que não morreu no atentado de 11 de setembro porque se atrasou para chegar ao trabalho. Ela lembra de cada colega seu que foi vitimado na tragédia e escreve coisas como:
Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony.
Não posso mais fazer confidências para a Lisa.
Não posso mais reclamar do Gary.
*
Os onze mandamentos de Henry Miller. Escritos enquanto escrevia seu primeiro romance publicado, Trópico de câncer:
1. Trabalhe numa coisa de cada vez até concluí-la.
2. Não comece a escrever outros livros, não acrescente mais nada a Primavera negra.
3. Não fique nervoso. Trabalhe com calma, com alegria, com despreocupação no que quer que seja.
4. Trabalhe de acordo com a programação e não de acordo com o humor. Pare na hora estabelecida!
5. Quando não conseguir criar, você pode trabalhar.
6. Consolide um pouco todo dia, em vez de pôr novos fertilizantes.
7. Seja humano! Procure as pessoas, frequente os lugares, beba, se tiver vontade.
8. Não seja um burro de carga! Trabalhe só com prazer.
9. Abandone a programação, quando quiser – mas retome-a no dia seguinte. Concentre. Restrinja. Exclua.
10. Esqueça os livros que você quer escrever. Pense só no livro que você está escrevendo.
11. Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.
*
Jack Kerouac, com sua lista Crença e técnica para a prosa moderna, parece ter sido lido por muitos escritores dos nossos tempos:
28. Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor.
29. Você é um gênio o tempo todo.
*
Estranhas ideias de Lovecraft. 222 ideias que H. P. Lovecraft compilou para uso posterior em histórias de ficção. Coisas como:
73. Ratos se multiplicam e exterminam primeiro uma cidade e depois a humanidade inteira. Aumentados em tamanho e inteligência.
97. Medo cego de uma floresta onde cursos d'água serpenteiam entre raízes tortas e onde ocorreram sacrifícios terríveis num altar enterrado – Fosforescência de árvores mortas. Chão borbulha.
*
Um decálogo liberal, por Bertrand Russell:
Talvez se possa resumir a essência da posição liberal num novo decálogo, que não pretende substituir o velho, mas apenas suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de divulgar, poderiam ser redigidos nos seguintes termos:
1. Não tenha certeza absoluta de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder provas, pois elas certamente virão à luz.
3. Nunca tente desencorajar um pensamento, pois você com certeza vai conseguir.
4. Quando encontrar oposição, ainda que seja de seu cônjuge ou de seus filhos, esforce-se para vencê-la com argumentos, e não com autoridade, pois a vitória que depende de autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeite a autoridade dos outros, pois sempre vai encontrar autoridades contrárias.
6. Não use o poder para calar opiniões que considera perniciosas, pois, se fizer isso, as opiniões vão calar você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em suas opiniões, pois toda opinião que hoje é aceita já foi excêntrica no passado.
8. Tenha mais prazer com uma dissidência inteligente do que com uma concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deve, a primeira implica uma concordância mais profunda que a segunda.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, ainda que a verdade seja inconveniente, pois ela é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não tenha inveja da felicidade de quem vive num paraíso dos tolos, pois só um tolo achará que isso é felicidade.
*
Sugestões para tomar ônibus integrados. Essa lista, que não transcreverei por completo, me fez entender por que a ala delirante do movimento negro não costuma citar Martin Luther King em seus textos raivosos: porque ele não era um ativista movido pelo ódio. Luther King é um dos poucos cristãos que fazem jus ao título. Dentre seus preceitos está o de não revidar atos violentos. Negros que comemoram quando brancos são fuzilados por radicais islâmicos na França ou ficam do lado de criminosos como o Champinha (vale recordar aquele texto abominável da Marilene Felinto na Caros Amigos, em 2004) realmente não têm como idolatrar uma liderança que recomendava: “Se o xingarem, não responda. Se o empurrarem, não empurre. Se lhe derem um safanão, não revide, mas sempre demonstre amor e boa vontade.”. Claro está que mesmo com toda essa bondade Martin Luther King não perdeu dinamismo. Sua atuação pacífica não era sinônimo de inércia. Foi essa lista que me levou a um interesse maior por ele e me fez comprar sua autobiografia, publicada pela Zahar, que lerei quando voltar de férias, em junho. Segue a explicação de seu contexto e parte da lista:
O curso da história mudou em 1º de dezembro de 1955, quando Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco e foi presa por isso. No ano seguinte, até os tribunais federais considerarem inconstitucional a segregação racial, ocorreu um boicote ao transporte público, liderado por Martin Luther King. Em 19 de dezembro de 1956, às vésperas de uma vitória histórica para os opositores da segregação, King elaborou uma lista de normas para aqueles que logo voltariam a tomar ônibus.
1. Nem todos os brancos se opõem aos ônibus integrados. Aceite a boa vontade da parte de muitos.
2. Agora todos podem usar o ônibus inteiro. Sente-se no lugar vago.
3. Quando entrar no ônibus, peça ajuda ao céu e honre seu compromisso com a não violência absoluta em palavras e atos.
4. Demonstre em seus atos a calma dignidade de nossa gente em Montgomery.
5. Observe, em todos os aspectos, as regras usuais de cortesia e bom comportamento.
6. Lembre-se de que essa é uma vitória não só para os negros, mas para Montgomery e o Sul. Não se gabe! Não se vanglorie!
7. Fique quieto, porém amistoso; orgulhoso, mas não arrogante; contente, mas não ruidoso.
8. Tenha amor suficiente para absorver o mal e discernimento bastante para transformar um inimigo num amigo.
***
Agora, poucas das minhas inúmeras listas. A primeira poderia se chamar Melhores citações que estão em minha agenda 2017. São citações que fazem muito sentido para mim e tento sempre me lembrar delas para operar* coisas boas no meu cotidiano:
[*operar é uma palavra de que gosto muito; seu problema é que foi sequestrada para uso abusivo por evangélicos e agora toda vez que a uso lembro de algum pastor]
Pois cada qual considera claras ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas.
Proust
Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
André Gide
Cuidado com a bondade dos maus.
Esopo
O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos.
Esopo
Quanto mais se estende o nosso conhecimento dos bons livros, mais se reduz o círculo dos homens cuja companhia nos é agradável.
Feuerbach
Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade.
Isócrates
Comunismo é uma religião igualzinha às outras. Pra quem acredita, não precisa explicação. Pra quem não acredita, não adianta explicação.
Millôr Fernandes
A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz.
Do Talmude
Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa. Devemos ir à casa delas para ver como são.
Goethe
Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro como pródigos dos seus conselhos.
Marquês de Maricá
Quem vive contente com nada possui todas as coisas.
Boileau
Os covardes duram mais, mas vivem menos.
Sofocleto
Quando um chato diz “eu vou embora”, que presença de espírito!
Millôr Fernandes
*
Lista Aos meus amigos, com amor. Coisas que eu gostaria que meus amigos soubessem e entendessem:
1. Sou contra qualquer tipo de corporativismo, seja entre profissionais ou entre amigos. Se você errou, não defenderei seu erro. Se você me conta uma história do seu ponto de vista, eu vou perguntar se não podemos olhar do ponto de vista da outra pessoa. Não espere concordância.
2. Não sei consolar ninguém. Se me trouxer um problema, direi militarmente “erga-se, ande e vamos pensando em alguma coisa para resolver isso logo”. Não vou ficar às voltas com você e seu problema. Sou sargenta com os meus problemas, serei com os seus.
3. Está triste ou depressivo? A menos que seja porque perdeu uma perna, uma pessoa querida ou está sofrendo perseguição de agiotas, não sou boa companhia. Peça-me dinheiro, mas não me peça para ouvir lamúrias.
4. Sou sua amiga. Sua. Não tenho obrigação de gostar de quem está com você de forma acessória. Não me tornei amiga da sua esposa ou do seu marido, não me tornei amiga dos seus filhos ou dos seus outros amigos. Se sou sua amiga, é porque me interessei por você. Não me obrigue a gostar de outras pessoas ligadas a você. Vou respeitá-las, é claro. Mas não tenho que gostar delas. Tanto não sou amiga dessas pessoas que, se você morrer, eu não terei mais contato com elas.
5. Só porque às vezes eu sumo não quer dizer que não pense em você. Eu penso. Muito.
6. Se você se tornar uma pessoa idiota, nós romperemos nosso relacionamento como os casais rompem o deles.
7. Você não precisa ser debochado só porque eu sou debochada. Cada um tem uma personalidade e quem foge da sua sem ser para o lado da virtude geralmente não fica bem. Se se ofender com algum deboche meu, fale. Fale, não fique mudo, nem beiçudo, nem me dando indiretas.
*
Modismos de escrita que mancham quem escreve
1. Abuso de palavras do momento. Ex: empoderamento, resiliência.
2. Recursos especiais pedantes. Ex: usar parênteses para fazer uma palavra se transformar em duas, como em “partidarismo: uma opção (i)moral?” ou “o misógino e seus (des)afetos”. Muito comum em trabalhos acadêmicos, o que explica por que a universidade está ao lado da autoajuda barata ao derrubar árvores para transformá-las em lixo paginado.
3. Eufemismos fajutos. Ex: desconstrução.
4. Encheção de linguiça. Não ser objetivo para parecer erudito. Subjetividade não é nem de longe sinônimo de inteligência, pensamento galante ou coisa que o valha. Uma pessoa ignorante subjetiva é algumas vezes pior que uma ignorante prática no palavreado.
5. Recorrência periódica a comparações esdrúxulas desproporcionais. Ex: “Bolsonaro é Hitler”, “Cunha é Hitler”, “Alexandre de Moraes é Hitler”, “o golpe [sic] lembra a Alemanha nazista”, enfim, “todo mundo que eu não gosto é Hitler ou se assemelha ao nazismo”.
*
Quando tinha dúvidas se pedia a mão de sua prima Emma, Darwin escreveu uma lista com prós e contras sobre o casamento (essa lista está no livro de Usher). Eu, que estou chegando naquela fase, inclusive biológica, em que se deve decidir se filhos são bons ou não, também fiz minhas listas de prós e contras. Os contras vencem de maneira evidente, mas não vou fingir que não existam prós.
Motivos para ter filhos
1. Porque sou uma pessoa com clara cartilha educacional. Se infelizmente casais sem planos educacionais têm filhos, por que eu que tenho um método e princípios não deveria tê-los?
2. Porque sou intransigente em relação ao respeito, coisa que os pais não exigem mais: uma criança deve cumprimentar os outros, uma criança não deve interromper adultos falando, uma criança não deve ser o centro das atenções, uma criança deve ter rotina e saber que na maior parte do tempo seus progenitores não estarão abertos a suas negociações. E em público uma criança deve entender o que seus pais querem somente pelo olhar.
3. Porque crianças são divertidas. E crianças educadas são muito bonitinhas.
4. Porque é maravilhoso ter uma autoridade saudável sobre alguém que você ama.
5. Porque é maravilhoso brincar com crianças de igual para igual, e eu sei fazer isso sem parecer uma adulta constrangida porque está tentando fazer uma girafinha falar com voz fanha. Aliás, brincar pra valer não me causa nenhum constrangimento.
6. Porque famílias bonitas me encantam. Famílias em que os membros são amigos, comem juntos, cozinham juntos, dão suporte uns aos outros, dividem as tarefas domésticas, celebram. Não estou falando de “o grupo da família” no Whatsapp. Estou falando de comunhão presencial.
7. Porque terei quem me acompanhe ao médico quando eu usar bengala.
Motivos para não ter filhos
1. Porque gosto muito de mim mesma para ter que dividir minha atenção com outras pessoas.
2. Porque se me meto a fazer, quero fazer bem feito. Isso significa que eu não aceitaria ser uma mãe mais ou menos. Isso significa que a maternidade tomaria muito do meu tempo e da minha energia.
3. Porque eu gosto de silêncio. Gosto de tomar café (descafeinado) na janela e esperar aviões passarem, e eu sempre apreciei poder ouvir um avião passando ao longe e perceber que tudo o mais silencia. Gosto tanto do silêncio que gosto de estar em casa e ficar calada por horas: gosto de não ouvir nada, nem ninguém, inclusive minha própria voz.
4. Porque eu gosto de ir dormir muito tarde e acordar muito tarde. Porque gosto do ar das duas horas da madrugada. Ao mesmo tempo, sempre fiz questão de, por saúde e conforto, dormir minhas 8h diárias.
5. Porque não posso devolver meus filhos caso a experiência seja mais penosa do que gratificante.
6. Porque gosto de ficar por três horas, sem interrupção, lendo um livro.
7. Porque gosto muito de ler. Porque não quero ser uma pessoa do “não tenho tempo para”.
8. Porque eu evito trazer quaisquer pessoas novas para meu ambiente familiar e também evito entrar em novos ambientes. Porque não preciso e não me farão bem novos relacionamentos íntimos forçados. Porque não quero ter que me envolver com os pais dos colegas dos meus filhos só porque nossos filhos são amigos. Porque me corroem obrigações sociais.
9. Porque sou ansiosa, e mesmo com as coisas mais banais. Consegui trabalhar minha ansiedade e hoje estou calma. Mas para ela voltar basta um estalo, e um filho é muito mais que um estalo, é quase uma promessa de bomba.
10. Porque com meu senso de “a família é muito importante”, a possibilidade de que meus filhos não se tornassem amigos perenes seria muito ruim para meu coração (é por esse motivo que se eu tivesse filhos minha primeira opção seria dois meninos, a segunda opção seria duas meninas e só por último viriam um menino e uma menina: amizade perene entre irmãos de sexos diferentes são muito raras, tragicamente).
11. Porque gosto de ser livre.
*
Lista de nomes bonitos. Se existisse uma profissão chamada "aconselhadora de nomes", eu gostaria de fazer bicos nela. Acho uma dádiva meus pais terem me dado um nome bonito, pois deve ser horrível não gostar do próprio nome. Só penso que não precisavam ter me dado um nome do meio, já que meu primeiro nome é forte o suficiente e meu sobrenome é incomum. Gosto do meu nome do meio, Raquel, mas o considero desnecessário. Minha lista pessoal de nomes bonitos é formada desde a minha infância (cogitei, em certa época pueril, que um filho meu poderia se chamar Barbaro):
Barbara, Úrsula, Rosa, Suzana, Ângela, Ângelo, Walter, Wagner, Fausto, Frederico, Francis, Bóris, Glauco, Rubens.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
O pecado mais cruel e nada divertido - "Inveja", de Joseph Epstein
Costuma-se dizer que o único pecado que ninguém confessa é a inveja. Muita gente nega sentir, o que é mentira. Muita gente finge não estar sentindo, o que talvez seja pior do que entregar a fraqueza de forma franca. E eu não me lembro de ter conhecido qualquer pessoa que admitisse sentir inveja do próximo. Inveja dos ricos e famosos, inveja da blogueira que brinca de Amélie Poulain morando na Bélgica, inveja do estranho que acabou de ganhar na loteria, inveja da modelo holandesa que faz ensaios na Harper's – isso é fácil aceitar, trabalhar e até externar. Mas a inveja daquela pessoa que está logo ali e parece se amar mais do que eu me amo, que parece ter um casamento melhor que o meu, filhos mais educados, vida sexual ativa, que recebeu uma promoção, que recebe o dobro do meu salário, que é mais bonita do que eu, que faz coisas que eu nunca consegui fazer por medo, que tem uma personalidade incrível, que é segura de si e não me dá muita importância – essa inveja ninguém admite. E precisaríamos admitir? Não, porque não existe nenhuma norma social que determine que devamos ser livros escancarados. Já negar a inveja em vez de consertá-la na medida do possível – sendo um tanto biológica e com sentido evolucionário, torna-se mais dificultoso extirpá-la de vez – parece coisa de quem erra duas vezes: erra ao sentir inveja por expor o próprio fracasso para si mesmo e erra ao teatralizar sentimentos. A falsidade é bela e necessária no palco. Na vida cotidiana costuma trazer um tipo de ranço que se denuncia em gargalhadas forçadas, olhares furtivos, falas cheias de meandros competitivos, ironia fora de hora e gestos feios. O invejoso é rico em atos falhos facilmente reconhecíveis por qualquer um que tenha aplicado a psicanálise ao exame dos outros. Que propósito existe nesse tipo de conduta analítica dos subtextos e dos símbolos que nossos pares deitam sobre nós sem perceber? Poupamos tempo, energia e impedimos intimidade com quem não agrega nada. Os únicos que reconhecem invejosos e gostam de tê-los sob louvor são os que vivem à procura de causar inveja. Os dois sujeitos tristes se merecem e dependem um do outro para esse projeto de vida vazia.
A Oxford University Press estava para lançar uma coleção sobre os sete pecados capitais, sendo cada pecado abordado por um autor diferente. Ao escritor Joseph Epstein restaram ira, preguiça, luxúria e inveja para escolher. Ele escolheu a inveja, que é um dos pecados mais delicados, e, segundo ele, o único que não tem lado engraçado. Descobri esse livrinho por meio de uma coluna do João Pereira Coutinho na Folha – se suas opiniões fossem tão sérias quanto suas recomendações de leitura, seria um colunista perfeito; a coluna de 14/02, por exemplo, me parece apenas mais uma de suas vontades de barbarizar – e logo o comprei. Encanta-me entender todos os pecados e a inveja é, como é para todo mundo, o pecado que mais me causa mal-estar. Obviamente não gosto de sentir inveja. Ao mesmo tempo, não sinto inveja pelos objetos tradicionalmente fonte de inveja para outras pessoas. Mas nos campos em que sinto, sinto. E de fato não há nada de divertido nisso.
Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.
“Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'”
Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.
Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.
A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:
“E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.”
No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:
“Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.”
Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.
Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.
No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):
“Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.”
Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.
Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:
“Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.”
Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.
“Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'”
Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.
Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.
A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:
“E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.”
No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:
“Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.”
Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.
Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.
No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):
“Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.”
Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.
Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:
“Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.”
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Inveja (Coleção sete pecados capitais) – Joseph Epstein, Editora ARX. A coleção está disponível na loja virtual da Saraiva, exceto o exemplar dedicado à preguiça, que só pode ser encontrado na Estante Virtual.
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