segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mente vazia, oficina do diabo; ou Por que o tédio cria pautas delirantes


Se tivesse que descrever este século em uma palavra, ela seria: delírio. Foquemos no Ocidente: é no Ocidente que eu vivo, é do Ocidente que eu sei e são os problemas ocidentais que costumam me preocupar mais amiúde. Não vou me manter o ano inteiro calada sobre a África para somente falar dela e das questões tenebrosas que muitos de seus países vivem – problemas que a Acadêmicos do Tatuapé e o movimento de mentalidade coletiva “África Linda” parecem desconhecer – quando algum colega manifestar seu horror por atentados que afetam “gente branca do Ocidente”. Estou explicando tudo isso para que não se levantem para expressar que “isso que você está falando não se aplica ao Oriente Médio”, como se meus pontos tivessem que ser como o imperativo categórico e ter abrangência universal. Defini, mal e humanamente, um determinado espaço sobre o qual expressar uma opinião. Já espanto por um momentinho quem merecia ter osso na língua. 

Machismo existe. Mas o Ocidente nunca foi tão pouco machista quanto hoje. Os esforços feministas não se voltam somente ao que resta de machismo, mas a uma fantasia de mentes desocupadas que passam à doença da paranoia: tudo é machismo. Se tudo é machismo, nada é machismo, e a existência deveria seguir como se navegássemos numa fluida maionese relativista – isso aí que aconteceu com você pode ser machismo, pode não ser, siga. Não é a experiência que vivemos, todavia. Impedida de seguir porque cada microagressão merece celeuma, a feminista padrão fará, diariamente, inúmeras paradas em sua jornada para apontar vestígios de violência masculina. É caso clínico: o paranoico não consegue ser feliz. Livre como é e filha da geração menos machista que já existiu, a feminista da terceira onda, que criou um efeito – sua fúria – e agora precisa encontrar as causas para seu novo entretenimento “político”, manterá uma cartilha. A cartilha da mulher revoltada entediada do século XXI: 

1. Nada melhor para afastar o tédio do que uma adversidade, que pode ser um câncer ou uma revolta. Na falta de um câncer por enquanto, revolte-se. O primeiro passo para um bom processo de revolta é buscar um inimigo específico. O problema é ele. Seu problema é ele. Se as coisas dão errado, é por causa dele. Esse inimigo é o homem. Aprenda com as grandes figuras que arrastaram multidões: muitas delas tinham um inimigo específico a combater. O povo quer objetividade, quer o nome dos bois, sejam os bois os judeus, os burgueses, os kulaks, os brancos, os negros, os norte-americanos ou os homens. A partir disso, você arranjou uma ocupação. Sua vida vai passar a fazer mais sentido com esse engajamento. Isso sem esquecer de mencionar que é sempre reconfortante para a carência participar de um grupinho. 

2. Se o inimigo fizer contra você ou contra outra mulher qualquer coisa desagradável, exponha-o em sua condição de inimigo. Não proceda ao pensamento lógico do “e alguém do meu lado poderia fazer o mesmo?” ou do “isso é mesmo machista ou apenas humano?” quando o inimigo te interrompe numa reunião, diz que você fica melhor de cabelo comprido ou pede seu telefone e não liga. Empatia é poupar a mulher e massacrar o inimigo quando eles procedem da mesmíssima forma. Um movimento não é nada sem corporativismo. 

3. Mulheres que falham ao expor condutas típicas do inimigo devem ser vítimas de pena, não de ódio, porque não é culpa delas que suas ações tenham sido moldadas por uma sociedade patriarcal. Se uma mulher errar, a culpa é do inimigo também, porque a mulher que erra teve seu arbítrio sequestrado pelo espírito social machista. 

4. Não junte energia para destruir somente o monstro real, como a violência doméstica e o clitóris mutilado. Afinal, você não apanha do seu namorado e seus pais nunca cogitaram arrancar seu clitóris. Se você se ativer somente a esses tópicos, a pauta do movimento ficará enxuta, sem graça e não haverá motivação. Veja, as pessoas gostam de lutar por causas que as atinjam diretamente. Que interesse a universitária classe média terá no feminismo se ele só disser respeito a coisas que não a atingem? Crie demônios. Fale para essa universitária que aquele rapaz que a seduziu numa festa e diante de uma negativa provocou com “então vou ali no banheiro bater uma pensando em você” é machista e precisa ser contestado. Forje estatísticas, como aquela que assegura que mulheres ganham 30% menos que homens, e extrapole pesquisas, colocando “agressão verbal” no grande balaio da “agressão” e insinuando que esse é um problema feminista em vez de ser um problema comportamental sobre agressores verbais de modo geral. 

5. Critique a sexualização exagerada da mulher. Critique a exposição de nudez sedutora na Playboy. Critique as posições que heroínas padronizadas fazem em quadrinhos e filmes, numa clara analogia sexual e vontade de ser desejada. Depois disso, publique suas próprias fotos seminua, com bumbum empinado, seios à mostra abaixo de um batom vermelhíssimo borrado. Se alguém perguntar se isso que você faz também não é um tipo de esperança de aprovação sexual, diga que está “empoderando sexualmente belezas diferentes”. Não tenha medo da contradição. Não tenha medo de parecer que você só criticava a exposição de outras mulheres porque esse doutrinamento sexual impedia que você fosse o tipo de mulher desejada. Não tenha medo de parecer invejosa. 

6. Muitas de nós, feministas da terceira onda, entramos para o movimento após problemas pequenos com homens: eles não compareciam, não se interessavam por nós, deixaram-nos por outra, faziam-nos de trouxa. O feminismo foi nosso divã terapêutico, foi a almofada que amorteceu nossa queda. Aproveite para aliciar outras mulheres com esse perfil.

7. Por outro lado, não podemos montar um movimento que seja conhecido como clube das fracassadas ou das feias. Por isso, atente: a bonita, a padrão, a que está feliz no casamento precisam descobrir que vivem num mundo muito machista. O inimigo vai ficar louco quando souber que as belas que ele explorava até pouco tempo agora estão politizadas e indisponíveis. Toda mulher precisa de feminismo porque toda mulher é vítima de machismo. 

8. Você tem a liberdade de continuar se torturando para ficar bonita. Caso questionem seu ritual e seu salto altíssimo, responda: “eu me produzo para mim mesma”. Se o engraçadinho retrucar com um “então você deve ficar assim dentro de casa também”, aponte o machismo da fala e diga “eu é que não vou bater palma para homem dançar”.

9. Não há espaço para a desocupação quando você adentra esse movimento, porque na falta de buracos para tapar nós mesmas cavamos a terra e depois repomos o que for necessário. Os publicitários não falam tanto sobre “criar a demanda por um produto”? Nós criamos demandas por problemas. É por isso que em países tidos como “os mais igualitários do mundo”, como a Noruega e a Suécia, há feminismo combatendo o patriarcado local todos os dias. Um problema conhecido que o feminismo de lá criou para combater? Homens que urinam em pé. Ora, se mulheres não podem urinar em pé, por que homens fazem isso? É um tipo de humilhação. Outro: homens sem camisa. Enquanto mulheres não puderem andar sem camisa, #freethenipple, homens não devem poder. Se alguém disser que “mulheres de busto pelado não são a mesma coisa que homens de busto pelado assim como tocar no busto de um homem não gera nada mas tocar no busto de uma mulher é assédio”, aponte o machismo da fala. Não somos obrigadas a ter respostas coerentes para tudo. Se não souber desclassificar o argumento do adversário, desclassifique o adversário. A menos que seja uma mulher. Só desclassifique uma mulher se você for negra e ela for branca.

10. É uma pena que nem metade das mulheres é engajada. Como falar e lutar por elas se somos poucas no movimento? Fazendo muito barulho, um barulho tão grande que faça meia dúzia parecer oitenta. Obrigando, pelo aviltamento, colunistas, jornalistas e artistas a pedirem perdão quando disserem coisas que não se aplicam a nossa visão de mundo. Vamos gritar, vamos nos reunir para depreciar uma figura pública ou página por micromotivos. Há machismo em tudo. Quem não vê precisa de uma troca de lentes.

11. E lembre-se: quem não dramatiza não coopta. É preciso fazer com que as mulheres se sintam numa Idade Média no que diz respeito a direitos. 

*

Nunca consegui respeitar os entediados. Considero o tédio uma forma de desrespeito com a vida. Se eu pudesse, compraria o tempo das pessoas – há tantos entediados acumuladores de dinheiro sob o colchão que o preço por hora seria, suspeito, barato – porque não há vida que chegue para que eu possa conhecer tudo o que me excita. Acho que é pelo mesmo motivo que nunca tive paciência para depressivos, já que em muitos casos a depressão é apenas uma extensão ou fase avançada do tédio, um “aprimoramento” de quem não conseguiu se interessar por muitos assuntos num universo com milhões de possibilidades. Mas fico em dúvida se desprezo mais os entediados perenes ou os entediados que criaram sarna para se coçar visando à fuga de uma vida vazia. Esse é o caso do movimento feminista moderno. Parte da gritaria começou nos EUA. Mesmo os autoproclamados maiores esquerdistas acabam, sem perceber, importando pautas americanas a cada temporada. O feminismo ocidental deixou de ser sobre direitos reprodutivos, violência doméstica e imposição comportamental de gênero para passar a versar sobre o euzinho de cada mulher que gostaria de mais visibilidade. Práticas que podiam ser erradas no âmbito comum – você de qualquer sexo impedir seu interlocutor de terminar uma sentença porque acha que o que tem para falar é melhor e mais importante – se tornaram erradas na guerra contra o machismo. O que era problema de todos se tornou um problema feminista, piorado e amesquinhado. No clube onde meninos não entram, as reuniões são sobre detalhes, minúcias, tons de fala e interpretação de entrelinhas. Poderia ser o clube do bordado psicanalítico, mas não é assim gracioso porque gera mal-estar e ódio despropositado. Na geração mais calma que o lado de cá deste planeta já viu, pautas revoltosas apareceram para espantar o tédio de não se ter mais que fugir de predadores, escapar de assassinos, procurar o que comer e remoer guerras entre nações. Nunca as mulheres tiveram tanta liberdade e nunca as mulheres reivindicaram tanta liberdade e denunciaram tanta opressão sobre si. O feminismo não é sobre mulheres sofredoras, mas sobre todas as mulheres, mesmo as mais privilegiadas, que se consideram vítimas de machismo. A importância da causa se dilui quando ela deixa de ser sobre quem necessita para atender a todas, já que todas se pensam necessitadas. O entediado é desrespeitoso com a vida. O entediado que procura sarna para se coçar é desrespeitoso com quem de fato sofre de sarna. 

*

Mas os movimentos delirantes brotados do tédio não se encerram no feminismo. Quem acompanha as barbaridades que o movimento negro anda dizendo e defendendo sabe quão longe pode ir a vontade de arranjar um bode expiatório para encher de culpa e combater. 

Racismo existe. E é claro que não aparece só pela autodeclaração “sou racista”. Há, inclusive, o racismo bem-intencionado, que na minha opinião não deixa de ser racismo só porque está no inconsciente, mas não merece linchamento como a Ku Klux Klan, pois tudo na vida precisa de avaliação graduada. Gisele Bündchen publicou uma foto meditativa com a cabeça encostada na cabeça de uma modelo negra (desconheço o nome). A legenda: “é hora de acabar com todas as formas de discriminação”. Nessa hora me lembrei de uma cena excelente do filme Jackie Brown (1997), do Tarantino, em que Ordell (Samuel L. Jackson), negro, vai ao escritório de Max (Robert Forster), branco, vê uma foto na parede em que Max está abraçado simpaticamente a um negão e pergunta, sardonicamente: “aposto que foi você que sugeriu que tirassem essa foto, huh?”. Porque é lindo mostrar que não se é racista, é lindo o fetiche de aparecer numa foto abraçado a um negro. Negro é o novo Mickey: todo mundo quer abraçar e tirar foto com ele para mostrar aos outros. Estamos no meio de uma campanha abolicionista para Gisele fazer uma foto com uma legenda dessas? Não estamos. Então a legenda é patética e é o que qualquer negro pode chamar de “branquice”. Não sei muito bem, ao mesmo tempo, qual é a nobreza real de você pedir para tirar uma foto com uma pessoa de que goste e na legenda ressaltar a vulnerabilidade dela diante da sociedade. Você chamaria para uma foto seu colega de trabalho que usa cadeira de rodas por causa de uma deficiência nas pernas e depois colocaria na legenda “vamos respeitar pessoas com deficiência”? Que situação tola para você e que situação vexatória para seu colega. Se peço para minha mãe, negra, uma foto dessas e depois escrevo na legenda o mesmo que Gisele, só vejo dois cenários de reação: bronca ou desapontamento. Não porque minha mãe seja uma ativista (nunca participou de movimento nenhum, aliás), mas porque ela entende como soa uma frase afetada dessas. Soa como “eu sendo bacana com esse coitado aqui, ó”, soa como propaganda política. Nossa relação é natural; passei a infância vendo minha mãe defender a expressão “preta”, comprar bonecas pretas para mim e corrigir qualquer um que chamasse um preto de “moreno”. Não tenho que usá-la para posar de defensora dos negros ou plural à United Colors of Benetton. 

Existe racismo quando negros são pagos para fazer papéis costumeiramente atribuídos a negros. É fácil um negro ser chamado para fazer papel de escravo num dos inúmeros filmes sobre escravidão feitos nos EUA ou ser escalado para uma película sobre pobreza. Novidade seria um negro no papel principal de um filme do Nolan, do Scorsese ou interpretando um herói – um personagem que não esteja obrigatoriamente vinculado à cor de sua pele. Novidade foi quando Will Smith começou a protagonizar filmes em que sua cor, naturalizada, não foi mencionada na trama. Com isso não estou defendendo o apelo “Oscar's so white”, que gerou dúvida sobre os premiados deste ano: foram premiados porque os avaliadores consideraram que mereceram de fato a estatueta ou porque tiveram medo de uma nova onda de boicote ao Oscar depois da reivindicação do ano anterior? Não é uma baita coincidência que no ano seguinte ao apelo metade dos atores vencedores fossem negros e que o filme premiado seja uma história cheia de personagens negros? É o tipo de pulga que ficará atrás da orelha de quem solicitou cotas em premiações cinematográficas. 

Também é prova de racismo, mesmo que inconsciente, quando alguém que dirige uma publicidade com pessoas pede para que arranjem um negro em nome da pluralidade da propaganda. Se a negritude estivesse naturalizada, você poderia encontrar comerciais com cinco pessoas brancas escolhidas aleatoriamente e outro comercial somente com pessoas negras, ou com três pessoas negras e duas brancas. Não, o padrão dos comerciais é: muita gente branca, algum negro, se der algum oriental. Ou família negra, como é comum em comerciais vinculados ao governo, empresas públicas, etc. Em suma: enquanto você tiver que se esforçar para colocar um negro na sua produção, enquanto você tiver que teorizar a frase “precisamos de negros aqui para pluralizar”, estamos diante de um sintoma de uma sociedade racista que ainda não naturalizou essa cor de pele. 

Naturalizemos, eu digo. A voz delirante do movimento negro diz “segreguemos”. Anos de miscigenação nas principais regiões do país, anos de ouvido de penico nas regiões afastadas com imigração branca preconceituosa e agora o movimento negro quer ser como esses colonos: “segreguem, criemos nossa cultura particular bem delimitada, separemo-nos dos brancos, miscigenação uma ova”. Não basta que esses teóricos do absurdo, que devem execrar Mandela e o demasiadamente bonzinho Martin Luther King Jr., queiram determinar com quem negros devem casar, o que devem comer, livros de quem devem ler, que tipo de tratamento reservar a um branco: agora é necessário criar uma cultura negra arrogante que decide quem entra e quem não entra no círculo dos ornamentos. O caso “turbante na cabeça de uma branca com câncer” foi o ápice da presunção. As culturas são intercambiáveis desde sempre – religiões se copiam, alimentos daqui permutam com os de lá, indumentárias evoluem baseadas no que se viu nas vestes do vizinho, idiomas se cruzam, pessoas de diferentes culturas se cruzam –, mas o movimento negro decidiu que o turbante é dos negros. Há povos negros na África que não usam turbante: se sua ascendência for desse povo e você usar turbante, está praticando apropriação cultural? Há povos não-negros que usam turbante. O turbante é adereço de inúmeras culturas não-negras há séculos. Que birra é essa que faz com que negros no Brasil pensem que têm o direito de apontar alguém na rua e dizer que essa pessoa não pode usar um pano na cabeça por causa da cor de pele dela? Esse revanchismo que imita estratégias passadas de brancos que discriminavam negros – apropriação de uma cultura discriminatória? – só pode ser chamado de retrocesso. “Mas teve o texto da Eliane Brum...” Sim, um texto que não apela à lógica, mas ao sentimentalismo, com ar de professora querida que explica à criança raivosa por que ela está errada e precisa se acalmar e entender que os negros foram explorados e agora têm adereços que representam sua identidade. Um texto de quem se sente culpada por ser branca e admite que tudo que pode fazer para se redimir pelos crimes que não cometeu – pior do que negros culparem brancos de hoje pela escravidão é brancos de hoje se sentirem responsáveis pela escravidão – é “ouvir o que as negras têm a dizer”. Estamos ouvindo. Temos que acatar? Por que eu deveria tratar esse item em particular como sagrado enquanto quase todos os outros adereços das outras culturas permanecem intercambiáveis? Atitudes comigo-ninguém-pode não são razoáveis. Apelo ao sentimento puro e simples não é razoável. Machado de Assis escreveu: “lágrimas não são argumentos”. 

Enquanto isso, no mundo onde “às minorias tudo é permitido e elas criam as regras”, quando negros se “apropriam” de elementos culturais e até biológicos da “cultura branca” há passe livre. Se uma mulher negra alisa e pinta de loiro o próprio cabelo, isso é o quê? Por que a regra de não intercambiar com outros clubinhos não se aplica aqui? “O que é nosso é nosso, mas o que é de vocês também é nosso”? Sejam pelo menos coerentes; ou vocês protegem essa pretensa cultura pura negra de qualquer mácula de opressores ou entram no jogo com todo mundo, sem usar a conversa sobre escravidão como moeda de troca para tudo, como um persistente trauma, como uma insistente apelação. Nem que me esforçasse num banana exercício de alteridade eu conseguiria me emocionar com o texto da Eliane Brum, justamente porque sei que quem teve a audácia de abordar a moça branca de turbante não fez isso por “amor à África”, mas por arrogância, mesquinhez e vaidade. É claro que no mundo dos ornamentos há disputas e risadinhas pelas costas de quem está usando um item “do jeito errado” ou “sem poder”, mas essa postura se restringia à fútil esfera dos cochichos e das lamentáveis rodas de mulher. Agora a coisa é institucionalizada, vira artigo de jornal em defesa e logo vai ser tema de doutorado em uma das dezenas de especializações sobre minorias disponíveis em universidades públicas. Na era do tédio, qualquer firula vira caso. E delírios paranoides de movimentos desenvolvidos para espantar o marasmo são vistos como “convicção de ideias sobre microassuntos”. 

*


Eu me pergunto: se vivêssemos numa época com mais o que fazer, utilizaríamos nosso pouco tempo somente para o essencial? Nessa hipótese, talvez o feminismo se ocupasse em resgatar mulheres que sofrem em vez de almofadar a sala de terapia para mimadas egocêntricas, e talvez o movimento negro tentasse enriquecer seus irmãos na periferia em vez de se preocupar em problematizar o pedaço de pano que Simone de Beauvoir usava em sua cabeça branca. Há sutilezas no mundo, e há disfunções sutis, mas essa sociedade não está sabendo diferenciar sutileza de delírio, problema real de paranoia. Como será viver sob a constante pressão imaginária de um entorno opressor? Como será se sentir num completo desânimo em meio a facilidades e ansiar criar uma realidade paralela onde há centenas de questões que me atingem e precisam ser resolvidas? Rosa Luxemburgo dizia que quem não se mexe não percebe os grilhões que o prendem, mas há pessoas que caminham maratonas para tentar provar que em algum momento seus pés ficarão presos pelos grilhões que acreditam possuir. Perde-se tempo e vigor com questões abstratas sobre si enquanto questões reais sobre os outros oprimem e matam. Culpa de três dos quatro pecados principais deste século: tédio, carência e vaidade (o quarto é a inveja). Pecados que, não é megalomania dizer, explicam quase tudo. É uma pena. Tínhamos tudo para dar certo, mas parece que a tranquilidade enjoa. O diabo faz a festa. 

domingo, 5 de março de 2017

Separar a arte do artista


A notícia do momento é que uma carta assinada por 400 intelectuais pede que Lula considere, “desde já”, a possibilidade de se candidatar à Presidência da República para 2018. Tássia Camargo é uma das que assinam o documento. Não sabia da produção intelectual da atriz, assim como desconheço a imensa maioria dos nomes da intelligentsia brasileira que ratificam o conteúdo da carta. Pode ser apenas muita ignorância minha, já que ignoro tantas coisas. Se nunca ouvi falar dos intelectuais “Flávia Moura Caldas, comerciária”, “Deolinda de Almeida Pantoja, dona de casa” ou “Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor evangélico” deve ser porque ando lendo os livros e jornais errados. Pago a assinatura da Folha de S. Paulo para estar bem informada e passo esse vexame ao me deparar com uma lista de nomes alienígenas. Talvez devesse ler o Brasil 247, que tem Renan Calheiros como colunista. 

Dentre os assinantes óbvios está Chico Buarque, que enxerga o mundo com os óculos de um taxista: dicotômico, eterno bandidos versus moços. Diante disso, pergunto-me: 

1. De que serve o conhecimento se ele não puder alterar nossa leitura das coisas? Chico não é nenhum iletrado, mas age como um ao querer salvar Lula de “perseguição política” em nome do combate a figuras da suposta direita brasileira. Seguindo o mesmo jeito de operar estão os que alegam defender entusiastas de torturadores a fim de formar uma forte oposição ao PT. Resumo: existem apenas dois lados, e ou você está aqui, ou está ali, não existe acolá ou outro lugar. O que é, convenhamos, o retrato certo de boa parte dos taxistas. Quando trabalhei com educação infantil, alarmei-me ao ver que muitas pedagogas, formadas pedagogas e pagas com salário de pedagogas, queriam apenas “cuidar” de crianças, levando-as para brincar livremente no parque, deixando que desenhassem o que bem entendessem e interagissem à vontade “desde que não se machucassem”. Para que servia a formação delas se o trabalho que realizavam podia ser feito por uma costureira analfabeta? Deixar crianças passando horas em frente à TV ou correndo pelo parque não exige nenhum conhecimento de Freinet ou Vygotsky: qualquer adulto sem cursos consegue tomar essa responsabilidade e ainda ser menos oneroso à instituição que o emprega. Se o conhecimento não for usado, repito, para que serve? Chico Buarque viveu em lar cheio de livros, com pai erudito, entorno intelectual, escreveu canções primorosas e a lista continua. Isso, infelizmente, não o ensinou nada sobre ponderação política. Suas opiniões nesse campo são primárias, e o bordão “é claro que o PT errou em algumas coisas” – presente na fala de muitos contemporizadores – só serve para que não passe uma imagem de cego completo tomando chuva ao som de Like a fool, do Robin Gibb. Depois do bordão vem um esperado “mas”, e depois da justificativa fajuta vem um “não troco o certo pelo duvidoso, quero Lula de novo”. No fim, o sujeito que quis parecer um analítico minucioso pesando valores na balança estava desde o começo convicto e cimentado em que lado apoiar.

2. A questão principal deste texto: O artista como pessoa deve se confundir com a sua obra? Não sei responder. Certa vez Rodrigo Constantino, perdido em assuntos que não dizem respeito à área econômica, bradou contra a obra de célebres como Chico Buarque por causa de suas opiniões políticas. Disse aos seus leitores que artistas ligados ao PT deveriam ser boicotados. Discordo, mas com ressalvas. Discordo porque apesar de achar aberrante que, em plena era da informação, alguém defenda um claro demagogo como Lula, ignorância e canalhice, não sendo crimes, acabam não sendo tão graves para o boicote de um artista de qualidade. Não me parece justo com o meu coração ter que deixar de ouvir Você vai me seguir porque seu compositor é lulista, e nesse momento separo o Chico opinador do Chico compositor. A ressalva quanto à minha discordância à ideia de Constantino: qual é o limite da separação entre o artista e sua obra? Devo tolerar a obra de um assassino por motivo fútil porque é muito refinada? Devo poder colocar uma das pinturas de Hitler na parede da minha sala porque uma coisa é o homem e outra coisa é a obra? Até agora dei exemplos dos extremos de aceitação “muito fácil” e “muito difícil” – Chico e Hitler –, mas vamos ao meio-termo que gerará alguns “não sei” e “aí você me pegou”: como proceder diante da obra de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma adolescente nos anos 70? Eu não lembro de não ter gostado de nenhum filme dirigido por ele. Gostaria que pudesse fazer mais trabalhos como Deus da carnificina (Carnage, 2011), cheio de diálogos, tensão e toques de humor, e O inquilino (Le locataire, 1976), hipnotizante, sombrio e que se assemelha, agradável e estranhamente, a uma experiência literária (que ocorre quando você está vendo um filme e parece estar lendo um livro; o contrário também é possível). Devo negar essas boas obras porque foram pensadas por um estuprador? Outra pergunta pertinente seria: devo julgar uma pessoa inteira por causa de um fato isolado? Também não tenho resposta, porque dependendo do caso a ideia é descabida ou justa. Talvez Polanski não mereça ser condenado a vida inteira por causa de um estupro ocorrido há décadas – talvez deva. E merecerá condenação um autor como Gabriel García Márquez, que foi amigo próximo de Fidel Castro? É possível que alguém advogue em seu benefício dizendo que “não são de nossa carga os crimes que nossos amigos cometem” ou, os mais delirantes, que “mas Fidel só fuzilava para salvar a revolução”. Só que Márquez não apertava mãos e dava tapinhas nas costas no escuro. Enquanto a população vivia somente com o básico racionado, Márquez, na qualidade de amicíssimo, frequentava os paraísos escondidos de Fidel. Márquez via que Fidel nadava em fartura e futilidade enquanto o povo cubano pensava que o comandante só possuía uma casinha simples onde fazia refeições frugais. Perdoamos o escritor colombiano por aceitar tamanha conduta imoral de seu amigo – e por aceitar receber benefícios como uma bela casa em Cuba – ou paramos de ler sua obra para honrar nossos princípios? Eu nem tenho muito o que pensar de Gabo, já que só li um livrinho dele (e não gostei), mas sei que muitas pessoas o veneram pelo que fez em Cem anos de solidão. Se algum leitor brasileiro se espantar com o fato de ele ser íntimo de um ditador e resolver parar de ler e propagar suas obras, isso seria inusitado – atitude que não espero tão incomum para alguém que tivesse fugido de Cuba para os EUA e execrasse o regime socialista no qual vivera até então.

John Lennon batia em sua primeira esposa. James Brown batia em suas esposas. Edmund O. Wilson batia em Mary McCarthy. O que fazemos com suas obras? Se estou num baile de super flashback e depois de Good times, do Chic, tocarem Papa's got a brand new bag, devo me retirar da pista balançando a cabeça e doutrinando “a música desse agressor eu não danço”? Seria fácil fazer isso e ser acompanhada se o agressor tivesse acabado de ser televisionado ou se seu caso estivesse marcado na memória coletiva, mas parar de dançar a música de um homem violento que teve seu auge há muitos anos, está morto e ninguém se lembra que causava problemas domésticos pode ser visto como o ato de “alguém que não está pronta para separar homem e obra”. Nós desculpamos uns, nós punimos em definitivo outros. Que régua mede quem merece estar separado da carreira e quem merece ser arrastado para a vala com ela? Na dúvida, admito, acabo separando o artista da obra. E tento defender minha escolha me convencendo de que não possuo nenhuma garantia de que outros ilustres sentimentais ou renomados literatos não tiveram, na vida privada e secreta, condutas altamente condenáveis. O poeta é um fingidor, e encarando uma magnífica poesia dá-se um jeito de livrar a pele de seu farsante para poder continuar a fruir sua farsa. Também tento me defender dizendo que as pessoas são mais complexas do que suas imperfeições pontuais, mas essa é uma opinião bem flexível e oportunista, pois eu jamais teria em minha cabeceira a grande obra de alguém que tivesse feito mal a um membro da minha família, e eu sei que algum bocado do meu desgosto pelo legado de Hemingway se deve ao fato de ele ser tão devoto do sofrimento animal, seja por meio de touradas ou caçadas por diversão. Já de Almodóvar não consigo não gostar e digo que é ótimo apesar das touradas. Fale com ela (Hable com ella, 2002) só não é um filme perfeito porque o sofrimento do touro e o louvor à cultura da tourada são reais. É fácil dispensar a obra de um imoral que não nos cativa tanto. Quem nos cativa nos tem não obstante muitas coisas, inclusive crimes. 

Admirarei qualquer nobre espírito que, sem querer holofotes e elogios, educadamente saia da pista quando tocarem James Brown. Já alguém parar de sambar porque começou uma música do petista Chico Buarque seria radicalismo. Se um compositor for boicotado por causa de uma opinião partidária infeliz, que meia dúzia de artistas restarão para condizer com nossas expectativas de forma plena? Não separar os homens de suas obras por motivos contornáveis e recusá-los inteiramente por isso só faria aumentar o comércio de arte feita por freiras. Boicotes artísticos inconscientes e rigorosos só servem bem na cabeça de autoritários que se pensam deus. Eu prefiro arte feita por seres humanos que falham.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O pecado mais cruel e nada divertido - "Inveja", de Joseph Epstein

Costuma-se dizer que o único pecado que ninguém confessa é a inveja. Muita gente nega sentir, o que é mentira. Muita gente finge não estar sentindo, o que talvez seja pior do que entregar a fraqueza de forma franca. E eu não me lembro de ter conhecido qualquer pessoa que admitisse sentir inveja do próximo. Inveja dos ricos e famosos, inveja da blogueira que brinca de Amélie Poulain morando na Bélgica, inveja do estranho que acabou de ganhar na loteria, inveja da modelo holandesa que faz ensaios na Harper's – isso é fácil aceitar, trabalhar e até externar. Mas a inveja daquela pessoa que está logo ali e parece se amar mais do que eu me amo, que parece ter um casamento melhor que o meu, filhos mais educados, vida sexual ativa, que recebeu uma promoção, que recebe o dobro do meu salário, que é mais bonita do que eu, que faz coisas que eu nunca consegui fazer por medo, que tem uma personalidade incrível, que é segura de si e não me dá muita importância – essa inveja ninguém admite. E precisaríamos admitir? Não, porque não existe nenhuma norma social que determine que devamos ser livros escancarados. Já negar a inveja em vez de consertá-la na medida do possível – sendo um tanto biológica e com sentido evolucionário, torna-se mais dificultoso extirpá-la de vez – parece coisa de quem erra duas vezes: erra ao sentir inveja por expor o próprio fracasso para si mesmo e erra ao teatralizar sentimentos. A falsidade é bela e necessária no palco. Na vida cotidiana costuma trazer um tipo de ranço que se denuncia em gargalhadas forçadas, olhares furtivos, falas cheias de meandros competitivos, ironia fora de hora e gestos feios. O invejoso é rico em atos falhos facilmente reconhecíveis por qualquer um que tenha aplicado a psicanálise ao exame dos outros. Que propósito existe nesse tipo de conduta analítica dos subtextos e dos símbolos que nossos pares deitam sobre nós sem perceber? Poupamos tempo, energia e impedimos intimidade com quem não agrega nada. Os únicos que reconhecem invejosos e gostam de tê-los sob louvor são os que vivem à procura de causar inveja. Os dois sujeitos tristes se merecem e dependem um do outro para esse projeto de vida vazia. 

A Oxford University Press estava para lançar uma coleção sobre os sete pecados capitais, sendo cada pecado abordado por um autor diferente. Ao escritor Joseph Epstein restaram ira, preguiça, luxúria e inveja para escolher. Ele escolheu a inveja, que é um dos pecados mais delicados, e, segundo ele, o único que não tem lado engraçado. Descobri esse livrinho por meio de uma coluna do João Pereira Coutinho na Folha – se suas opiniões fossem tão sérias quanto suas recomendações de leitura, seria um colunista perfeito; a coluna de 14/02, por exemplo, me parece apenas mais uma de suas vontades de barbarizar – e logo o comprei. Encanta-me entender todos os pecados e a inveja é, como é para todo mundo, o pecado que mais me causa mal-estar. Obviamente não gosto de sentir inveja. Ao mesmo tempo, não sinto inveja pelos objetos tradicionalmente fonte de inveja para outras pessoas. Mas nos campos em que sinto, sinto. E de fato não há nada de divertido nisso.

Falando sobre a inveja no terreno das ideias mais altas, Epstein cita Kierkegaard, Kant, Nietzsche e, é claro, Schopenhauer. Diz o último que “sentindo-se infelizes, os homens não conseguem suportar a visão de alguém que julguem estar feliz” e “o ódio sempre acompanha a inveja”. Nos cadernos bobos de colegas ginasiais sempre se escreviam frases de tom moralista ao estilo “para meninas”. Uma das mais comuns ressaltava que o verdadeiro amigo não é aquele que está com você para celebrar seus momentos felizes, mas aquele que está lá para enxugar suas lágrimas. Pura abobrinha. A prova maior de uma grande amizade ocorre quando seu amigo vê que você está bem, está melhor que ele, que está alcançando coisas que ele mesmo não alcançou – e está feliz por isso. Não é fácil admirar com honestidade alguém que está ao nosso lado obtendo privilégios que nós não obtemos. As celebridades que são inundadas todos os dias com juras de amor de “eu te admiro e quero ser como você” devem sempre pensar que estão a salvo somente porque estão longe. Se estivessem perto de seus fãs, continuariam causando inveja, mas misturada com ódio. A vizinhança não é ruim apenas porque invade sua privacidade, mas porque torna você “um dos nossos, mas que não é família”, ou seja, alvo do que o Oxford English Dictionary define como “o sentimento de mortificação e má vontade provocado pela contemplação de vantagens superiores possuídas por outrem”. Se seu próximo for invejoso e você estiver melhor que ele, você será tácita e amargamente cozido em uma panelinha de rancor. Se seu próximo for esnobe, idem. E se seu próximo for esnobe e você estiver pior que ele, você será considerado um coitado, um reles. Competições sociais podem atingir níveis muito doentios, e isso não vale só para quem toma medicação, vai ao psiquiatra e é um espalhafato de problemas. As águas paradas que aparecem podem ser profundas. Exceções sobre essa rivalidade são abertas para nossos pais, cônjuges e filhos: quando eles progridem, sentimos que progredimos junto, e a explicação mais coerente para esse fato deve estar associada à biologia. Isso é tão notório que qualquer um que demonstre invejar o próprio filho porque ele conseguiu ir para uma universidade melhor que a sua será visto com estranhamento.

Quando confrontados com um sério revés ou uma desgraça irreversível na vida, sentimo-nos inclinados a fazer uma pergunta óbvia: Por que eu? Mas para a pessoa invejosa, a pergunta, ao ver alguém que teve mais sorte, é: Por que não eu? Por que esta mulher deve ser mais bonita do que eu? Por que este homem é mais rico e mais poderoso? Por que estas pessoas têm talentos e dons naturais que me faltam? Lord Chesterfield declarou que 'as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir a própria inferioridade'. Sem dúvida, isto nos faz perguntar: 'Por que fui deixado de fora? Por que não eu?'

Após esse trecho, Epstein sugere que algumas profissões são mais propensas à inveja do que outras e que o ramo da literatura deve ser o pior. Ele próprio, no pensamento seguinte, diz que isso pode ser um julgamento errado de sua parte, já que é apenas o círculo literário e acadêmico que ele conhece bem. Já trabalhei em lugares variados, conheço pessoas que trabalharam em lugares variados e posso dizer com alguma segurança: mesmo entre as faxineiras do seu prédio pode haver um grau elevado de inveja contaminando relações. Há inveja nos lugares mais estúpidos e entre as pessoas mais estudadas: nenhuma classe ou profissão está imune a ela. Há inveja entre freiras e entre membros de ONGs. Entre pessoas que fazem trabalho voluntário. Entre feministas ativistas. Entre amigos de infância. Há inveja entre amigas que saem juntas para comprar toalhas – “olha a Lúcia esbanjando dinheiro só para ter toalhas de maior qualidade que as minhas; também, com esse emprego fácil de salário imerecido...” –, entre viajantes, entre bebedores de vinho, e no grande roteiro de restaurantes de São Paulo há até competição para ver quem vai aos melhores lugares, resultando num grupo de almas sujas e verruguentas tomadas pelo esnobismo, pela inveja ou, horror dos horrores, por ambos. Atribuem a Sócrates uma bela fala proferida após ver inúmeros itens num mercado: “tantas são as coisas de que não preciso para ser feliz!” Podemos trocar a palavra “coisas” por “companhias” quando frequentamos um desses ambientes.

Na distinção que Epstein faz entre ciúme e inveja no capítulo primeiro, uma frase sua basta: “sente-se ciúme do que se tem e inveja do que as outras pessoas têm”.

A inveja possui uma espécie de amor à justiça, mas de forma macabra. Uma de suas maiores vontades é a de nivelar, mas não pelo alto para que todos sejamos felizes, e sim para que todos sejamos medíocres. Quem se atreve a fugir da felicidade medíocre é visado, e não é à toa que Epstein compara certos anseios comunistas e socialistas a uma vontade invejosa. Nesse ponto, discordo um pouco dele. Sei que muitos esquerdistas só são esquerdistas por inveja – tivemos várias provas disso quando esquerdistas pobres, ao alcançar o poder, passaram a tratar seus iguais como súditos, realizando o que Bakunin previa para a até agora fracassada ditadura do proletariado – e que no fundo eles gostariam de ter o poder e a pompa que seus alvos têm – lembremo-nos das vidas absurdamente luxuosas de Mao, Fidel, Stálin e da dinastia Kim –, mas reduzir toda vontade de justiça a motivação invejosa é perverso. Se o dono de uma indústria enriquece rapidamente enquanto seus funcionários trabalham por salários de miséria, reivindicar melhores condições de pagamento não é “invejoso”. É apenas justo. Claro, nem sempre é fácil distinguir a justiça da pura inveja. Quando uma mulher feia pleiteia “a quebra dos padrões de beleza” para que seus traços possam ser considerados bonitos, às vezes tenho minhas dúvidas se estou diante de uma advogada de uma causa interessante ou de uma invejosa que anseia nivelar todos os modelos para que ela não fique por baixo. Essa hesitação de minha parte surge principalmente quando aquele que requer pede coisas que o beneficiem, como é o caso da vertente narcisista do feminismo. E é por isso que considero o veganismo como uma das causas mais nobres: quando se pleiteia algo para o outro, como poderá a inveja sequestrar essa preocupação? A relação entre veganos uns com os outros é outra história muito diferente. No que concerne a veganos e animais, a inveja some. Para fechar esse ponto sobre sistemas sociais falsamente igualitários, um trechinho muito bom do capítulo oitavo:

E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pouco lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma da ascensão.

No primeiro parágrafo escrevi que o invejoso dá sinais. Não cabe a mim palestrar sobre esses sinais: observem, estudem e aprendam. Confesso que me acho bastante “leitora das mensagens ocultas alheias”, mas só falo a sério sobre isso (a sério = coisas não exatamente inofensivas) com pessoas realmente íntimas. Essas pessoas íntimas não são leitoras de mensagens ocultas. Graça das graças, costumo não gostar de outros arrogados leitores dessas psicopatologias da vida cotidiana (um texto bom de Freud, apesar de considerá-lo exagerado porque ninguém mais pregará os olhos à noite ao tentar se debruçar sobre a questão: “por que José escolheu o número 34 quando pedi que escolhesse aleatoriamente qualquer número até 100?”), pois sempre acho que eles estão lendo errado. Ou entregando seu próprio modus operandi em vez de arreganhar o do outro. Por exemplo, sempre desconfiei das meninas/moças/mulheres/senhoras que chegaram para mim apontando suas análises minuciosas sobre uma outra “que dá em cima dos meninos/moços/homens/senhores”. Essa acusação não costuma vir com um tom encantado como se uma senhorinha de cabelo branco preso num coque tivesse acabado de sair de um campo florido com uma cestinha de palha, olhasse para a prostituta simpática que é sua vizinha e dissesse, com as bochechas rosadas pelo sol e pelo rubor: “dando em cima de todos os homens da vila, hein, Dafne?” A delação costuma ser venenosa. É uma leitura, e é uma leitura que costuma ser venenosa. O que penso? Geralmente penso que quem está acusando é que “dá em cima” – seja rindo mais alto para homens ou se abaixando para pegar um lápis, não sei, mulheres têm formas bem bizarras de seduzir às vezes – e está quase se incriminando como o bom caso da raposa e das uvas. Nessas leituras erradas, uma pessoa má se entrega (a que se finge de dama mas que é a vagabunda para a qual aponta o narizinho) ou põe em maus lençóis uma pessoa boa (quem não conhece uma mulher que era agradável com todos e foi chamada de vagabunda porque o “todos” incluía “homens que estão sendo vigiados por intrometidas que não sossegam o facho"?). Ressalto que isso não é regra: às vezes a analista é mesmo uma dama e está certa em sua leitura sobre as outras, e aí a única questão que fica é se a animação das outras é da conta dela e por que diabos ela se importa tanto. Assim, minhas leituras são um lazer muito pessoal: passá-las por completo pode levar ao equívoco (cadê o juiz para escolher qual é a leitura correta?) e à exposição desnecessária. Nenhum detetive fica revelando seus métodos. Mas Epstein, que é centenas de vezes mais cuidadoso e razoável, tenta mostrar um tipo de ajuda para o reconhecimento do invejoso:

Um manual para identificar os invejosos seria de grande utilidade. O invejoso muitas vezes lança mão da ironia, a arte de dizer uma coisa, mas querendo dizer outra. Cuidado, também, com o desdém excessivo, mesmo quando usado por si próprio, porque, nas palavras de Paul Valéry, 'a um exame mais cuidadoso descobrimos que o desdém inclui uma pitada de inveja'. A tendência da maioria das pessoas é desdenhar do que não consegue fazer ou ter. O invejoso também tende a elogiar excessivamente. […] Moral da história: observe os olhos de quem se curva mais.

Conselhos simples e práticos para viver num terreno tão pantanoso. Quem não conhece gente que se mascara sob desdém e ironia? Aqui, dou minha opinião mais uma vez. Ironia, aquela ironia que vivo criticando (aquela que digo ser tão comum na fala de professores de história, que no meio de História Contemporânea III devem ter recebido muitas aulas subliminares de ironia para terem saído da faculdade com aquela imensa expressão de pato sabido), não deve se confundir com graça. O debochado, o “palhaço da turma”, não tira sarro da sua cara para te fazer mal. Ele quer ser engraçado, seja falando que suas orelhas são grandes (você achar isso engraçado ou não é outro assunto) ou que você tem um bordão pegajoso. Sua intenção é: ser engraçado. É o Chandler Bing da vida real. Já o irônico não quer ser engraçado, tanto é que ele ri sozinho ou muitas vezes ri acompanhado de sorrisos amarelos constrangidos. O irônico quer provocar, ofender, menosprezar, diminuir. Muitas vezes ele precisa disso para fingir que é superior aos outros (se se achasse mesmo superior, não precisaria fazer esse papel patético de mascarar complexo de inferioridade com ironias que desequilibram o emocional alheio), portanto é digno de pena. A ironia que você deve aceitar como recurso justo é a ironia de um inimigo, porque faz parte do inimigo querer te provocar e diminuir. Se um pretenso amigo ou colega faz isso, algo está muito errado. Afaste-se e limpe os pés antes de entrar em casa.

Que outros conselhos Epstein compila para que reconheçamos um invejoso de meter medo? Não há quase nada mais. Por a inveja ter um grande “talento para o disfarce”, na expressão de Leslie Farber, poucos estudos são feitos sobre o tema. Um desses poucos mostrou que muitas pessoas estão dispostas a ganhar menos dinheiro desde que ganhem mais do que seus colegas: para elas, é preferível ganhar 85 mil por ano se ninguém mais ganhasse acima de 75 mil a ganhar 100 mil num contexto onde todos os outros ganham 125 mil. Se acha que isso parece absurdo, pense bem. É comum que se avalie a própria vida tomando como parâmetro a vida dos outros, e é por isso que muitas vezes o faxineiro com o salário mais alto da equipe pode estar mais feliz que o procurador com o salário mais baixo da classe. Epstein cita uma máxima de Josh Billings: “a melhor situação na vida é não ser tão rico a ponto de ser invejado, nem tão pobre a ponto de ser execrado”.

No capítulo sexto, Malditos jovens, fala-se sobre a inveja da juventude. Vocês devem saber do que se trata, mas vou declarar que considero esta uma das invejas mais injustas e sem sentido. Por quê? Porque o quarentão, cinquentão, sessentão que inveja a juventude de seu colega ou subordinado já teve a sua vez como jovem. E precisa pensar que a tendência é que esse jovem à sua frente terá a oportunidade de ficar velho como ele mesmo ficou. É um ciclo, e não faz sentido invejá-lo: você já esteve no lugar dele, ele um dia estará no seu (não precisa esfregar as mãos maleficamente e sussurrar entredentes “hehe, um dia ele estará no meu lugar”, não é de revanche que estou falando). Quanto ao jovem que com 20 anos já conseguiu o que você só alcançou aos 40, candura. Cada um tem um estilo de vida para conseguir as coisas e essas comparações não vão levar ninguém a lugar algum. Se levarem, será com uma dose muito ruim de hormônios prejudiciais perambulando pelo organismo. Epstein conta uma história engraçada (com a qual me identifico):

Minha inveja só ganhou particularidade quando decidi que queria ser escritor. Isto me pôs imediatamente na situação de invejar outros escritores da minha geração que, da maneira como o mundo media essas coisas, haviam avançado mais rápido do que eu. Com vinte e poucos anos, lembro-me de ter lido, nas notas sobre os colaboradores da Poetry Magazine, que uma mulher com três poemas naquela edição havia nascido dois anos depois de mim, o que foi suficiente para me estragar o dia – e eu nem tinha intenção de escrever poesia. Saber que pessoas da minha idade ou ainda mais jovens já haviam escrito livros, alguns até bons, era mais do que perturbador. Eu não queria exatamente que morressem, mas, diante da falta de cortesia por não terem esperado que minhas realizações fossem reconhecidas primeiro, eu queria que, de algum modo, fossem impedidas de escrever. A moral desta historieta, acredito, é que é difícil ser ambicioso sem também sentir inveja.

Essa confissão me lembra algo que aconteceu comigo há muitos anos (leia-se há mais de sete anos). Um amigo e eu pensamos em escrever romances para participar de um concurso literário. Éramos totalmente pretensiosos para achar que de primeira e em dois meses poderíamos escrever algo que prestasse e merecesse prêmios, mas juventude é isso: você acha que sabe tudo e que é um Rimbaud escondido. Começamos a escrever. Quando eu não estava nem com uma trama engatada, esse amigo me envia várias páginas da sua história. Fiquei preocupada. “Eu é que escrevo, eu é que leio Sartre desde os 15, e ele me passa na frente?” Desgostosa e com cara de grumpy cat, fui ler o que ele tinha escrito. Li. Terminei e pensei: “Graças a deus é ruim”. Fiquei feliz por ver que meu amigo não me deixaria para trás num ramo que eu acreditava ser o meu. Para que ele não se sinta humilhado sozinho nessa confissão, o que eu escrevi depois também era bastante ruim. Na época achei que era uma nova Pirandello transportando o conflito entre personagens e autor do palco para a prosa, mas hoje sei que aquilo era apenas o fruto de uma presunção. Ademais, no estilo dei uma de Clarice Lispector e escrevi o que vinha na telha. Não tinha como ser bom, como prova o resultado lá-lá-lá-escrevo-o-que-penso-e-não-retoco do trabalho dela, cujos livros não consigo ler por mais de vinte páginas.

Inveja, de Joseph Epstein, trata ainda do feminismo, do asco aos judeus, das diferentes coisas que homens e mulheres invejam e do famoso Schadenfreude, que é o sentimento de prazer que se sente com o fracasso ou a derrota de outras pessoas. Com 137 páginas de texto num formato pequeno, é um bom livrinho para ler numa tarde calma. Já encomendei, aliás, os livros equivalentes aos outros seis pecados. Finalizo minha seleção com um trecho bonito que está na última página. Gosto muito quando Epstein cita a palavra “auto-análise”, porque isso nos remete à responsabilidade que deveríamos ter conosco e se perdeu num tempo de psicólogos, psiquiatras e médicos para qualquer “desvio” absolutamente humano. Deve ser culpa da era da terceirização, onde até a resolução de emoções simples e trabalháveis são tarefa para outros fazerem por nós. Eis o trecho:

Seja lá o que for, a inveja é, acima de tudo, um grande desperdício de energia mental. Embora não se possa provar que a inveja faça ou não parte da natureza humana, o que se pode provar, acredito, é que quando desencadeada, ela tende a degradar a pessoa de quem se apossa. Sempre que a inveja entra em cena, o julgamento torna-se mais grosseiro e vulgar. Como quer que a mente funcione, a inveja, sabemos, é um de seus excessos, e como tal é preciso identificá-la e combatê-la pelo único meio à nossa disposição: a honestidade consigo mesmo, a auto-análise e um julgamento equilibrado.
 
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Inveja (Coleção sete pecados capitais) – Joseph Epstein, Editora ARX. A coleção está disponível na loja virtual da Saraiva, exceto o exemplar dedicado à preguiça, que só pode ser encontrado na Estante Virtual.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Explicando este blog

Olá, leitores. Este é um blog novo, mas é quase uma continuação do antigo Barbara Maidel Page. Encerrei-o por dois motivos: primeiro, porque queria um ar refrescado, cores novas, criação de tags diferentes. Alguns leitores me acompanham há muitos anos – declaradamente ou às escondidas – e sabem que já tive pelo menos uns três blogs, que acabei fechando para visitação. Cada mudança de blog é uma vontade de renovação, apesar de eu continuar a mesma schopenhaueriana de sempre (coisa que pronuncio como um autoelogio). Segundo, porque fui invadida por um tipo de visualizador spam. Todos os dias, algum servidor nos EUA visita, automaticamente, 30 ou 40 vezes cada postagem do meu blog. Fui de vinte/trinta visualizações diárias para centenas. Parece coisa de quem fatura com visualizações, mas isso não tem nada a ver comigo, pois meu blog atingia um público restrito e nunca o liberei para gerar renda com anúncios. Se alguém cadastrou minha página num site que gera visualizações automáticas achando que me fazia um favor ou um trote, não atingiu seu objetivo. Vejo de onde vêm as visualizações e obviamente sei que não são reais. (Aos que me leem de forma espiã: não se preocupem, não tenho a capacidade de rastreá-los; podem continuar me stalkeando e depois fingindo que não sabem o que se passa na minha vida e na sala das minhas opiniões.)

O Barbara Maidel Page continuará aberto pelo simples motivo de eu gostar muito de alguns textos que estão lá. De outros textos não gosto tanto e sempre penso em fazer consertos pontuais, mas acabo concluindo que um blog não é como um livro que precisa de edições atualizadas. O que escrevi era pertinente com o que eu pensava na época em que publiquei. Se penso de forma diferente sobre certo assunto, devo escrever um novo texto sobre ele em vez de mexer num texto antigo que manterá sua data da época. Se eu corrigir um texto de março de 2015, por exemplo, e a data se mantiver a mesma, é quase como se eu estivesse me fraudando. Ou excluo a postagem, ou deixo como está.

Dentre alguns dos textos de que gosto do blog antigo estão:

Editoras – Breves comentários sobre editoras confiáveis e editoras mercenárias que estão no mercado. Infelizmente há pessoas inteligentes que ainda não sabem avaliar o valor de compra de uma obra nova de acordo com a editora que a publica. Foi uma honra ver que a Denise Bottmann, citada na postagem, recomendou o texto em seu blog Não Gosto de Plágio.

O que Deus tem a ver com isso – Sobre Deus, evolução (das espécies) e veganismo. O que eu mais gosto desse texto é da luz que recebi para uma explicação (que enquanto eu não encontrar em nenhum artigo ou obra anterior considerarei original) sobre a incompatibilidade entre a crença em Deus e a aceitação da evolução por um motivo especial: quem tenta fundir as duas ideias – geralmente quem tem medo de não ser amparado por forças místicas mas ao mesmo tempo não quer passar por antiquado que nega a ciência – precisa admitir que um pai que viraria apenas pó gerou um filho que viraria um ser com alma graças ao dedo de Deus atuando sobre essa “evolução guiada”. Ainda quero escrever melhor sobre esse assunto. Nunca é cansativo ler, falar, escrever, propagar as belas histórias da evolução. Só de olhar aquela imagem sobre caracteres homólogos já sinto ímpeto de participar de cruzadas darwinistas com Richard Dawkins.

A idade do serrote – Murilo Mendes – Excertos de um dos meus livros de literatura favoritos. Livro lindo, sentimental, uma valsa. Sobre meu comentário que antecede as passagens copiadas do livro de Murilo Mendes, mantenho minha opinião de acordo com a máxima romana: “Livros ou filhos”. Se isso já fazia sentido num passado muito remoto, hoje em dia é quase lei: com pais que trabalham fora e gostam de ler, colocar crianças dentro de casa é matar o amor pela leitura praticado do jeito certo. Quem tem filhos lê pouco, ou muito menos do que gostaria. Quando lê muito, é porque está deixando os filhos de lado. Muitos dos grandes homens que a humanidade já criou tiveram filhos e conseguiram seguir com suas vidas intelectuais – porque suas mulheres, irmãs e babás cuidavam diariamente de suas crianças. Isso ajuda a explicar por que homens intelectuais não se limitavam na busca do conhecimento ao colocar muitos rebentos no mundo e mulheres intelectuais optaram por não ter filhos – ou ter um filho só. As poucas intelectuais que arriscaram ter filhos e os preteriram em benefício de si mesmas correram o risco de ver suas crianças crescendo e publicando livros e entrevistas escandalosas: “mamãe nunca foi capaz de dar afeto sincero para nós”, “essa senhora que se convencionou que eu chamasse de 'mãe' sempre me empurrou para a casa de avós e babás”, “ela se fechava no escritório por horas com suas leituras enquanto aprendíamos a cozinhar batatas sozinhos”.

Montando uma biblioteca particular – Uma casa deve ser um lar. E um lar que se preze possui uma biblioteca. Nessa postagem, derramo minhas lamúrias sobre casas horrendas (porque sem vida, sem personalidade, montadas com avareza ou com vistas a atender algum modismo fajuto) e dou conselhos sobre como montar uma biblioteca pessoal. É uma das postagens mais lidas.

O paradoxo da igualdade de gênero – Homens e mulheres são diferentes. E quem diz que isso se deve somente à repressão cultural deve voltar aos bancos escolares para as aulas de ciências. Se hormônios moldam nosso corpo, nossos pelos, a suavidade ou rudeza de nossos traços, não há por que negar que moldam também nossa personalidade. Mesmo assim, a biologia não é uma prisão, dizem os cientistas, que assumem que somos biologia + cultura. Já os culturalistas dizem que tudo que somos vem da cultura… É uma triste ignorância que encontra eco tanto nos centros acadêmicos tomados pelo esquerdismo quanto entre opinadores de redes sociais que se guiam pelo que dizem os astros.

Movimentos que criam monstros – Um apanhado de absurdos que compilei das falas reais de justiceiros sociais, também conhecidos como SJW (social justice warrior). Parece piada. Mas não é. Quando calhou de ser piada – algum imenso gozador criou um perfil falso para proliferar opiniões non sense na internet –, mesmo assim se tornou sério pela quantidade de curtidas e incentivos que ganhou. Foi o que aconteceu quando uma usuária falsa publicou no maior grupo sobre veganismo do Facebook (que é um grupo medonho: causa-me asco imaginar que muita gente nova vai parar lá e vai achar que aquilo é veganismo) que era desrespeitoso com os negros, “que inventaram a feijoada”, que veganos criassem uma feijoada alternativa sem todos os itens que a receita negra ordenava. Nesse caso, os veganos deveriam dar outro nome à sua pretensa feijoada para não ofender os negros. Piada forçada? Sem dúvida. Manifestações de apoio? Mais de cem. Por mexer com gente histérica e autoritária, também se tornou uma das postagens mais lidas e compartilhadas do blog.

Trabalhando em uma biblioteca – Em 2015, saí da biblioteca do IFSC para assumir um cargo em São Paulo. E saí com dor, porque ajudei a construir a biblioteca que deixei para trás e bibliotecas costumam ser lugares ótimos para se trabalhar quando não se é rebaixado por assuntos humanos desagradáveis (ninguém deixa uma biblioteca porque “estava incomodado com o ar petulante dos livros” ou porque “o quinto livro da segunda prateleira critica meu estilo de vida”). Com a experiência, pude reunir uma porção de fatos bizarros que vivi atrás do balcão de atendimento. Compilei-os nessa postagem. 

A biblioteca esquecida de Hitler – Timothy W. Ryback
– Resenha sobre o referido livro. Mais elogio do que critico. Critico, isso sim, uma interpretação que Ryback faz da leitura de Hitler sobre Schopenhauer. Eu havia dito que passaria a anotar nos livros a data em que os li para que “não me perdesse em minha história como leitora”. Acabei não fazendo isso porque criei um diário de leituras: agora anoto quanto comecei a ler tal livro e quando o terminei. Parece serelepe no momento, mas daqui a cinco ou dez anos, quando eu estiver revivendo o que fiz da minha vida, agradecerei a mim mesma por ter feito essas anotações. Gostar de nós mesmos é fazer isso de ficar brincando com as próprias coisinhas e fazendo rabiscos que causarão ternura no futuro. Eu me arrependo muito de não ter guardado meus cadernos de desenho da infância.

Gordos e gordofobia – Uma crítica aos gordos que se exibem de maneira afetada para nos convencer de que são felizes (é claro que é possível ser gordo e feliz – quando se propagandeia isso em demasia é que começa a desconfiança sobre uma possível felicidade forjada), aos obesos-exceção que acham que seus casos muito particulares de exames de sangue “normais” provam que é possível ser obeso e saudável, e também aos gordofóbicos, que costumam ser ressentidos e incomodados com quem não tem sua preocupação em se adaptar ao que a sociedade determinou como “aceitável” (gordofóbicos muitas vezes pensam: “como eu, magro, sou infeliz e esse outsider de 140 quilos ousa ser feliz?”). Felicidade incomoda. Principalmente quando alguém se atreve a ser feliz fora dos padrões.

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela – Eu penso que a minha vida particular é uma festa. Eu me divirto, eu choro, eu bebo, eu danço, eu fico batendo os pés na beira da piscina. Como essa festa é particular e sobre mim, tenho todo o direito de escolher quem convidar para participar dela. Não escolhemos nossos parentes, nossos colegas de faculdade, nossos professores, nossos colegas de trabalho, mas escolhemos quem pode ou não participar da festa de nossas vidas, quem frequentará nossa casa, quem chamaremos espontaneamente e com muito gosto para tomar um Cosmopolitan na madrugada. Lanço os tipos que devem ser vetados de qualquer intimidade para que não estraguem nossa festa: o exibido, o invejoso, o umbigo tagarela, o provocador, o das indiretas, o que se recusa a aprender e o fútil. Parece fácil barrar essas figuras, mas não é, principalmente porque elas não se veem como são. Às vezes elas tentam se vender para nós como uma coisa, mas são o oposto (por isso fazem questão de fazer declarações bonitas sobre si…). A tarefa é árdua na hora de preparar a lista de convidados, mas necessária: se deixar entrar na festa “o das indiretas”, por exemplo, ele vai atormentar a sua vida e estragar o sabor da Piña Colada. Barre-o enquanto é tempo, porque depois que o sujeito se acha íntimo você só conseguirá arrancá-lo do palco chamando os seguranças, criando uma cena grosseira ou puxando uma arma. E se não sobrar quase ninguém, lembre-se que Schopenhauer dizia que para cada homem de valor há uns cem idiotas.

Da utilidade de rabiscar livros – Texto recente em que defendo que livros bons sejam usados como material de consumo em vez de itens decorativos. O genuíno amor ao conhecimento – e o amor à prática de resgatar o conhecimento quando necessário – pede que se rabisque um livro em nome de sua compreensão e uso posterior. Quem lê doze bons livros por ano chegará ao mês de dezembro sem lembrar muito bem de várias passagens do livro lido em janeiro: seu rabisco o salvará da insânia. Para quem não tem amor ao conhecimento ou acha que um livro na sala é como uma taça na estante, esses conselhos são vãos: um livro que só serve para passar o tempo de alguém poderia muito bem ser substituído por um jogo de cartas ou um seriado vazio.

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Quanto a este blog, permanecerá com a regra do outro: com a seção de comentários fechada. Vivemos num tempo em que qualquer pacóvio pensa que sua opinião é relevante para o mundo. Não é. Quem não gosta do que lê aqui, que vá ler outra coisa ou monte seu próprio blog. Não tenho interesse em palestras discordantes. Sei que erro em algumas colocações, sei que há dias em que escrevo como se estivesse no meio da fúria de um redemoinho, mas prefiro me corrigir sozinha ou com os meus amigos (aqueles que foram convidados para a festa da minha vida). Aos que pensam que fechando a seção de comentários me livro somente das críticas, enganam-se: livro-me também dos elogios que criam obrigações. Disse Freud: “Contra os ataques um homem pode se defender; contra os elogios ele não pode fazer nada.” Alguém que elogia seu texto na internet muitas vezes quer que você agradeça o elogio, que comece uma amizade ou que você leia as coisas dele também como forma de retribuição por você ter recebido um elogio dele. Estou fora desse tipo de pendência e tenho horror a gente carente. Carência só é bonita em cachorro. Também acho ruim ter que me policiar quinhentas vezes para não ofender os leitores fiéis que se mostram em caixas de comentários e fazem cobranças. Os puxa-sacos cobram a dívida de seus encantos (muitas vezes nem precisam cobrar porque a maioria das pessoas cai na cilada de ficar hipnotizada por alguém que finja as adorar.) Um conselho para a vida: você não é obrigado a comentar sobre tudo que lê. Pode apenas ler sem forçar ninguém a estar a par da sua existência cheia de “grandes opiniões”.

Aos que me leem com as melhores intenções e com o coração suave, aquele abraço e um 2017 muito belo e virtuoso.


*Imagem de capa: casinhas cinzas em Edimburgo - Escócia
Aqui embaixo: um das centenas de gnomos espalhados pela cidade polonesa de Wroclav (Breslávia, em português)