domingo, 26 de novembro de 2017

Notas sobre lugares: Blumenau, clima e outras coisas


Há um provérbio sueco que diz: “não existe tempo ruim, apenas roupas inadequadas”. Gosto dele porque incentiva a adaptação, conduta morta nestes tempos em que todo mundo é infeliz por qualquer coisa adversa. Divago (sempre divago quando invento de falar “destes tempos”). O que quero dizer é que o criador desse provérbio nunca passou um verão em Blumenau. 

*

Blumenau é uma cidade úmida que fica no Vale do Itajaí, estado de Santa Catarina. Do Sudeste para cima a maioria do povo pensa que o Sul é uma Suíça, com friozinho o ano todo e fondue. Mas garanto por mim e pela fala de outros: o calor de Blumenau é um dos piores, se não o pior de muitas jornadas. Não há apenas calor, há mormaço. E o mormaço desmotiva o trabalho, aumenta a força gravitacional, rouba a humanidade. Meus piores desejos aos meus pares vieram quando eu voltava da escola ao meio-dia e fazia um longo trajeto no sol. Não por acaso, nessa época li O estrangeiro, do Camus. Tornou-se meu livro predileto por tantas coisas, e uma delas foi essa concepção de um homem matar outro por causa do sol. Passei vinte e cinco anos no mormaço de Blumenau, sei o que é ter vontade de matar alguém somente por causa do calor. 

*

Um dia saí para festejar meu aniversário e tomei meu primeiro Negroni. Se um dia eu tiver câncer no esôfago, culparei com toda certeza aquele coquetel, que desceu como uma invasão viking. E se um dia eu tiver câncer de pele – já que o efeito maléfico do sol é cumulativo –, culparei com toda certeza minhas andanças em Blumenau na volta do colégio ao meio-dia. 

*

Padrão de clima em Blumenau: de dezembro a maio, muito calor e mormaço, com tempestades no final da tarde que levam sacolas, telhas e árvores; de junho a setembro, frio com muita chuva, as roupas não secam, é muito fácil que tudo cheire a cachorro molhado, o mofo é o Demogorgon da cidade; outubro e novembro são os meses em que há forte expectativa para a próxima estação: “se já está assim, imagine no verão”. 

*

Todo inverno era a mesma coisa: como a umidade estava no auge, os tecidos viviam molhados. Então antes de dormir eu passava a ferro minha cama, meu edredom e meu travesseiro. 

*

Paulistanos são dramáticos com mudanças climáticas. Faz um calorzinho que jamais se comparará ao de Blumenau e eles passam o dia tecendo comentários e criando matérias jornalísticas diversificadas para provar recordes: “o dia mais quente de fevereiro dos últimos vinte anos”, “a semana mais quente dos outonos desde Maluf governador”. Bate uma brisa que jamais se comparará ao frio de alguns invernos em Blumenau (lembram, catarinenses, daquele inverno quando tivemos “os alpes da Palhoça”?) e eles, desesperados ou jecas, já estão de botas, casacos, cachecóis e gorros. Chuva para eles também é sinônimo de frio. Se chove lá fora em pleno verão, eles não saem sem casaco. Dirão, talvez, que é apenas receio da água batendo na pele. Pergunto-me como tomam banho. 

*

“Como colonos alemães resolveram se estabelecer em Blumenau com esse clima?”, perguntou meu namorado ao passar seu primeiro verão mórbido na cidade. Vale lembrar que o Dr. Hermann Blumenau voltou para a Alemanha anos depois da colonização. Sábio ele. Tenho uma forte ligação com o lugar onde nasci, vez ou outra caio ébria num espiral nostálgico sobre tudo que vivi lá e não está mais (sou do tempo em que havia cinco alfarrabistas, sendo três Book Center e mais dois Querche: hoje há apenas um Book Center num salão que perdeu todo o ar intimista de sebo), mas não penso em voltar para morar. Não é por causa da mentalidade de germânico do interior, não é porque sempre tem gente estranha com aspecto maníaco perto do Angeloni da Fonte, não é porque as exposições de arte costumam ser uma droga. É simplesmente por causa do clima. 

*

O comércio ajuda a refletir o tempo. Não há mais nenhuma banca de revistas na Rua XV de Novembro, a principal rua do comércio de Blumenau. Se você quer um jornal, deve comprá-lo no supermercado. No Shopping Neumarkt, três locais antigos e tradicionais fecharam esse ano: a Bruneti Discos, a confeitaria da Glória e a banca de revistas. Com isso, concluí que não existe mais nenhuma banca de revistas na região do Centro. Há dez anos elas eram várias. Agora, a cidade está transformada num terreno fértil para farmácias, lojas de produtos naturais e barbearias. Casinhas antigas com porão (!) vieram abaixo para que farmácias fossem construídas no lugar. Obviamente não gosto do que vejo. Faço parte do grupo de todas as pessoas que saem de suas cidades de origem e quando voltam para visitas reclamam que elas não são mais tão boas como costumavam ser. 

*

Vou a Blumenau uma vez por mês. Em São Paulo me dizem: “ai, que gostoso”. Imaginam que farei tricô em frente a uma lareira enquanto saboreio pinhão cozido e bebo chocolate quente. Um gato preguiçoso vai se enroscar nas minhas pernas e depois se ajeitar delicadamente na almofada de veludo, onde é acariciado pela minha mãe, que está com luvas. Vamos à realidade: não faz nenhum sentido ter lareira em Blumenau, tricô só é feito no inverno, gatos deitam no piso frio aparentando enfarto por causa do calor e nunca, nunca vi minha mãe usar luvas. 

*

Em São Paulo os médicos querem tratar especificamente as reclamações dos pacientes, ao que parece. Em Blumenau qualquer pessoa com três quilos de sobrepeso que vá ao SUS por causa de um resfriado receberá de bônus uma recomendação para que emagreça. Uma vez eu estava vomitando até o jantar de dias anteriores, fui a um posto de saúde, vomitei lá também. Na hora de ser atendida na triagem, a técnica de enfermagem, que viu minha situação, sentou-se na minha frente e lentamente calculou meu IMC. E me disse: “você precisa emagrecer pelo menos um quilo para entrar na situação de peso normal”. Infelizmente eu estava tão mal que tinha perdido minha veia sardônica. Podia ter dito: “se eu vomitar mais um pouco talvez consiga”. Cabe uma ressalva: esse tipo de atendimento a-gordura-é-a-causa-de-todos-os-males foi padrão no serviço público de atendimento, não vi a mesma coisa quando fui atendida em consultórios particulares. Já que em São Paulo nunca fui atendida no serviço público de saúde, não sei dizer bem como é o tratamento, talvez isso de que reclamei em Blumenau possa ser uma medida nacional recomendada pelo Ministério da Saúde: “não existe má hora para falar sobre perda de peso, toda hora é hora”. 

*

Blumenau para mim é, pensando em épocas variadas, a finada Rádio União – meu pai costumava preparar o café da manhã ouvindo o programa que tocava música alemã tradicional, aquela com muita tuba e muito acordeon –, a Antena 1 – que hoje é apenas 30% boa –, a Rádio Atlântida – que hoje é puro horror –, os sebos, a Biblioteca Municipal com suas funcionárias sisudas para adolescentes (nunca me perdoaram as pontuais bagunças que eu fazia com amigos, não importa a quantidade de livros que eu tomasse emprestado), o cheiro de maconha aqui e ali nas ruas e matos, a Livraria Alemã (hoje fechada), a PROEB (hoje Vila Germânica), o euro dance nos anos 90 que eu captava dos sons alheios e adorava (Ace of Base, Gala, 2 Brothers on the 4th Floor), a luta entre os locais e os que imigravam, bares se transformando em igrejas, as festas juninas com cachorro quente com chucrute, os shows na “Prainha” aos quais eu nunca fui porque era muito criança (uma amiga mais velha viu Skank lá, e aqui eu gostaria de manifestar um sentimento que chamo de “inveja ao contrário”), o Parque Tupã, os cafés coloniais, a TV Galega, os paranaenses do interior formadores de guetos, o chimarrão diário e as rodas de chimarrão, os jogos de canastra, os velhos de chapéu que ficavam nos terminais de ônibus e arredores dando balas para meninas como pretexto para alisá-las, pessoas com deficiência descritas como “ele vai na APAE” (ninguém dizia “Fulano tem uma deficiência”, mas com o “Fulano vai na APAE” dava para entender tudo), a Rádio Menina e o boom de música gaúcha que vivemos, o Colégio Pedro II com seu uniforme inconfundível (entre os pobres havia algum frisson se alguém estudasse lá, mesmo sendo público), o Colégio SOS (que não existe mais), as histórias lendárias sobre túneis que levavam freiras para a danação da carne ou nazistas para encontrar outros nazistas, as histórias elaboradas sobre o Teatro Carlos Gomes ter sido feito como uma homenagem a Hitler (“dá para ver pelo formato da construção”), as histórias sobre o professor de História do Energia que era nazista (o mesmo que teve sua piscina com uma suástica no fundo fotografada por um helicóptero anos depois em Pomerode; seu filho “Adolf” estudou no mesmo colégio que eu por um tempo e era “uma sensação” com aquele nome e com aquele pai), os cursos na Fundação Cultural (foi lá que aprendi a tocar violão e a fazer cerâmica), a Rua Araranguá e a Rua Pedro Krauss rivalizando como os piores becos, o bullying em excesso nas escolas (principalmente nas públicas), as procissões das igrejas católicas, a popularidade da danceteria Rivage, a Sessão da Tarde passando nas lanchonetes, o comprar “massinha” na padaria (pão doce com farofa, basicamente), os alagamentos com as chuvas. Isso só para citar alguns exemplos. 

*

Falo de Blumenau como a terra da umidade, mas este ano visitei Buenos Aires pela primeira vez e descobri que o nome da cidade só pode ser ironia. Os prédios são muito úmidos, você entra e é abraçado pela névoa. Nos restaurantes os guardanapos estavam sempre molhados, as paredes dos banheiros escorriam, às vezes colocavam um aquecedor no ambiente para ajudar a desumidificar, mas isso não contribuía com quase nada. Era frio. No calor, imagino que haja muito mormaço.

*

Buenos Aires tem locais muito bonitos, mas é superestimada. “A cidade europeia da América do Sul” é um exagero. Algumas atrações turísticas são vãs: não entendo o que há de mais naquela flor metálica que abre e fecha na Praça das Nações Unidas. Já não existem moedas por causa da inflação. Qualquer comidinha custa muito para a nossa conversão. O Museu Nacional de Belas Artes, que é bom, tem entrada gratuita. O Museu Jorge Luis Borges é pequenininho e não muito convidativo, mas tem seu valor para quem gosta do escritor. Os ônibus parecem feitos para grupos de circo. Um livro que no Brasil custa por volta de 25 reais está por 100 reais na Livraria Ateneo, que só vale a pena para conhecer, e não para comprar alguma coisa. É assustadora a quantidade de cocô de cachorro nas ruas. Há construções antigas bonitas (em parte é por causa delas que chamam Buenos Aires de europeia), há parques bem cuidados, algumas ruas são agradabilíssimas. 

Ônibus à moda circense em Buenos Aires

Bairro de Palermo

Escultura "Centauro", de Antoine Louis Barye,
no Museu Nacional de Belas Artes de BA

*

Falo mal da flor metálica que abre e fecha em Buenos Aires, mas ela não é das piores invenções de ponto turístico. No Brasil muitas cidades têm o hábito de construir grandes arcos nos centros ou nas fronteiras para que o turista considere aquilo como mais uma atração onde bater ponto e tirar foto. Não é bom sinal quando um desses arcos, que não fazem nada e sequer são bonitos, figuram entre “as 10 maiores atrações da cidade” segundo o Trip Advisor. A clara intenção disso é inflar o número de locais de visitação: “temos o rio, temos o museu da história da cidade, a pedra da inauguração… e temos os arcos”. 

*

O pior frio que passei em viagens foi em Budapeste (Hungria), em janeiro de 2015. Muitas pessoas têm o hábito de pensar, consciente ou inconscientemente, “comigo isso não vai acontecer”. É assim que dirigem bêbadas, não usam cinto de segurança, lançam-se de paraquedas, fumam e exageram no consumo de açúcar. Comigo é o oposto, muitas vezes penso “é comigo que vai acontecer”. Casos bizarros e excepcionais de quem morreu engasgado com um pedaço de maçã me levam a comer mais devagar, em viagens de ônibus (mesmo se for de São Paulo a Santos) sempre uso o cinto, etc. No inverno de Budapeste, houve um momento em que achei que ia morrer de hipotermia. Estava no alto de um morro, de onde é possível ver toda a cidade e onde não havia local fechado para aquecimento. Mas minha indumentária de astronauta não bastou, e senti meus pés doendo muito e ficando duros de congelados. Então me lembrei do caso de pessoas que perderam pés ou mãos por causa do frio, e pensei “pronto, vou virar esse tipo de estatística”. Horas depois voltei ao normal, mas ainda temi um pouco possíveis consequências posteriores. Nem sempre é bom ter certos conhecimentos. 

Lençol de neve em Budapeste

Parte da cidade de Budapeste

*

O pior calor que passei em viagens foi em Pompeia (Itália), em 2014. No meio das ruínas do vulcão e sem nenhuma proteção de telhados, o sol torrava a pele sobremaneira. Não é à toa que pessoas morrem no verão italiano por causa do excesso de calor. 

Um pedaço da destruída Pompeia

*

Clima bom é o clima invisível, aquele que não gera muito falatório para pessoas normais – pessoas anormais sentem um assoprar e já começam a esfregar seus bracinhos e tagarelar sobre o frio, ou sentem um pouco de calor e começam a fazer trejeitos de quem vai explodir. Não gosto nem de lugares muito quentes, nem de lugares muito frios. Não vejo graça em “ver neve” e penso que é preciso um trabalho interior muito grande para aprender a gostar de tirar neve da porta de casa com uma pá (esse trabalho interior funciona, foi assim que aprendi a gostar de passar roupas). O clima bom permite o uso de roupas numa quantidade confortável: se está calor, uma bermuda e uma camisa, se está frio, uma calça e uma blusa. Nada de camadas de roupa que impedem a execução de movimentos, nada de quase nudez com peças de viscose e ainda assim sentindo vontade de se abanar. E já que o tal clima bom dificilmente acontece o ano inteiro, o melhor é se acostumar e naturalizar o que está dado. Hoje, com o mundo como é e com as pessoas como são, toda vez que entro num táxi tenho vontade de avisar: “boa noite; olha, o senhor pode ir pulando o papo sobre o tempo, pois que está calor e que vai chover no final da tarde todos nós já sabemos”. 

*

Mas que o clima em Blumenau é horrível, ah, isso é.

domingo, 8 de outubro de 2017

Pesquisadores que são salsicheiros


“Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja.” 
Da incoerência de nossas ações – Montaigne em Ensaios

Muitas pesquisas acadêmicas são como salsichas: se quem as consome soubesse como são feitas, não as consumiria mais. A diferença na obstinação em continuar consumindo algo de péssima procedência é que as salsichas podem propiciar o câncer, enquanto os danos dos trabalhos acadêmicos feitos da costura dos restos menos nobres de animais humanos podem não trazer esse aviso de perigo mortal. “Não creio, uma má pesquisa pode matar.” É fato, só que más pesquisas endossadas por sérios estudiosos raramente – portanto, muito pontualmente – aparecem, são propagadas e matam. Foi o caso, dentre os contados nos dedos nas últimas décadas, da pesquisa que vinculou a vacinação ao autismo. Também é fato que esses casos pontuais provocam estragos que se arrastam por gerações: não é preciso andar muito longe no campo das redes sociais, que escancaram na praça as vísceras dos nossos conhecidos, para encontrar quem incentive uma nova revolta da vacina “porque os médicos, a indústria farmacêutica e os governos mancomunados querem que as crianças tenham autismo para que todos lucrem mais”. Não sou amigável à comunidade médica (psiquiatras principalmente), à indústria farmacêutica (passei anos sem gastar um centavo com medicamentos) e a governos (fora Lula, Dilma, Temer, Aécio, Gilmar Mendes, etc.), mas meu asco é muito maior a teorias conspiratórias, especialmente quando vindas (se é quem vêm de outro lugar) da cabeça de gente ignorante que não entende nada do assunto e sequer se deu ao trabalho de fazer uma pesquisa rasa em bibliotecas sobre o que era para ela suspeito. Mas divago: quero falar das pesquisas feitas em massa que se parecem com salsichas. Essas que você consome porque são convenientes e aparentam confiabilidade. 

Citação de estudos é o novo pretinho básico: todo mundo tem um no armário para ficar elegante com facilidade. E os estudos citados podem corroborar qualquer coisa. Na área da nutrição, por exemplo, que muitos céticos chamam de pseudociência – com dose de razão, Ben Goldacre considera que nutricionistas são charlatões e até mandou comercializar uma camiseta em que se lê “nutricionista” embaixo da imagem de um pato (quack é “charlatão” em inglês) –, fanáticos por dietas restritivas sempre têm uma lista de estudos na manga comprida da blusa para apresentar caso sejam colocados em dúvida. O erro já começa na alusão ao apocalipse alimentar, mas piora conforme o fanatismo adere a uma corrente específica: açúcar jamais, glúten mata mesmo os não-celíacos, carboidratos são veneno, farinha e arroz são carboidratos cancerígenos, etc. Eu francamente não tenho tempo de analisar os estudos que todo mundo me aponta para justificar sua alimentação restritiva, mas sei que cada iludido consegue arrolar dezenas de “pesquisas honestas” para explicar como vive maravilhosamente bem. Adeptos da dieta paleolítica – que comem basicamente carnes, ovos e plantas – e da dieta crudívora – que comem apenas alimentos crus ou aquecidos somente em baixíssima temperatura – sempre falam em “estudos”. O básico é que as populações mais longevas do mundo não são nem paleolíticas, nem crudívoras: japoneses, por exemplo, comem pouquíssima carne, muito arroz e muitos derivados de soja. Paleolíticos e crudívoros – e os “estudos” que os embasam – querem buscar nos antepassados a alimentação adequada que protege contra doenças e confere vida longa, mas que diabos: desde quando nossos antepassados devem ser modelos literais de saúde? Viviam pouco, tinham que comer o que estava disponível sem cerimônias, podiam não padecer das doenças que nos acometem, mas padeciam de tantas outras. Não, para os profetas do apocalipse alimentar extremo não basta excluir processados, ler rótulos, moderar o que se torna vício (álcool, açúcar, farinha de trigo): é preciso que exista um modo de alimentação tão hermético que funcione como uma religião conservadora. 

Quanto aos estudos sobre os quais não tenho tempo de me debruçar – trabalho 35h semanais, durmo no mínimo 8h por noite, não me resta muito tempo para ficar desafiando e contestando cada lunático que surge com “novidades fundamentadas” –, às vezes uma passada de olhos já denuncia a trapalhada: pesquisas feitas com dez, quinze, trinta pessoas que “revelam” informações na base de “56%, 61%, 63% dos pesquisados” querem dizer o quê? Querem dizer que precisamos de estudos mais aprofundados, com uma amostragem muito maior, para bem julgar os resultados obtidos na prévia. Eu sei, há quem se pense cientista com uma amostragem de uma, duas, três pessoas – “minha mãe não me amamentou e estou vivo até hoje, logo a amamentação é desnecessária”, “bebo água de torneira desde sempre e nunca morri nem adoeci, então essa história de água mineral, de água melhor tratada é coisa do comércio criando demanda”, “na minha casa não compramos orgânicos e não temos problema nenhum com isso, logo provamos que o comércio de orgânicos é apenas um nicho de mercado”, “Bibi Ferreira tem 95 anos, diz que nunca praticou exercícios e bebe Coca-Cola todos os dias; assim concluímos que exercícios físicos são desnecessários e que Coca-Cola não faz mal” –, mas isso fica no terreno coloquial onde o achismo é rei e primeiro-ministro: ninguém chama a colega que infere coisas sobre o universo baseada em sua experiência pessoal de “estudiosa” ou “pesquisadora”. Mas estudos de dois meses feitos com dez pessoas que mostram uma tendência 2% maior de hipertensão no grupo de cinco que comeu pão todos os dias – esses “estudos” entram para a lista do pânico dos que tratam farinha de trigo como heroína. A desgraça, infortunadamente, não fica apenas do lado do pleno leigo que interpreta o que leu na Seção Mundo Bizarro do jornal: há pesquisadores que fazem esses estudos de quintal, concluem coisas e tratam suas realizações como trabalhos sérios e dados prontos. Num planeta globalizado, um débil sempre achará outros débeis maiores para concordar com ele e divulgá-lo. 

Aqui parece que falo apenas da deep web de informações falsas, capengas, aleijadas onde mergulha o grosso de quem tem carência afetiva e precisa achar deuses em todo lugar: o deus político, o deus alimentar – que se manifesta na forma de “o limão é uma panaceia” ou “a linhaça cura diversas doenças” –, o deus opinativo. É um mar onde se nada de escafandro e às vezes se pensa pedir para cortarem o fio. Mas é bom não esquecer dos gigantes, e vou bailá-los brevemente. 

Liberais vivem numa utopia teórica que é quase tão fantasiosa quanto o que a esquerda planeja como paraíso social. Pensam que o Brasil tem competência, responsabilidade e maturidade para liberar porte de armas para todos; acham que numa sociedade de cada um por si necessariamente surgirão associações caritativas criadas pela espontaneidade dos bem-sucedidos, desejosos de ajudar os pobres; creem que há pouquíssimas coisas (ou nada) que o Estado pode prover e incentivar melhor que a livre iniciativa. Nesse último ponto, liberais se referem muitas vezes à atividade dos mecenas da ciência, que patrocinam estudos sobre temas variados e dizem dar liberdade aos pesquisadores para que concluam o que tiver que ser. Quem acredita nesse sistema no qual o pesquisador sabe que seu patrocinador tem interesse em determinados resultados que o beneficiem? Não digo que os pesquisadores são claramente comprados (apesar de achar possível, imagino que isso seja minoritário), mas a mera informação de que o mecenas tem interesse num dado encaminhamento do estudo pode bastar para que tudo seja subjetivamente, inconscientemente, tacitamente conduzido. Um dos pilares mais importantes das principais pesquisas com pessoas é fazer um teste duplo cego: o pesquisado não sabe que hipótese o pesquisador lançou de início e o pesquisador não faz ideia qual pesquisado receberá o que no meio do estudo para testar sua teoria. Se o pesquisador sabe que está dando um placebo para seu pesquisado 1 e que está dando remédio com princípio ativo para o pesquisado 2, ele, pesquisador, pode deixar passar uma expressão, um tom de fala, um modo de frase que entregue para o pesquisado que tipo de reação se espera dele ao tomar a pílula que lhe é dada. Parece rigoroso, mas é apenas um preceito muito elementar que pesa o papel da psicologia na relação entre pesquisador e pesquisado. Se nesse âmbito menor já é tão importante que o estudo seja realizado às cegas, por que não seria importante que um laboratório inteiro não soubesse quem é que está financiando a pesquisa milionária que será iniciada? Laboratórios que recebem baldes de dinheiro dos barões da indústria geralmente sabem quem os financia e sabem que tipo de resultado seria mais benéfico ao financiador. Podem não pensar “vou conduzir essa pesquisa de modo a agradar ao Sr. Nestlé”, mas a avaria moral já se manifesta no momento em que o pesquisador come o fruto da árvore do conhecimento que delata o interesse do mecenas. Há caso pior, é claro, como quando o proveito é escancarado: em ditaduras que dizem financiar a ciência, o cientista é muitas vezes obrigado a servir ao ventríloquo que o move dentro do laboratório. Mas não vejo motivo para terror quando governos livres financiam pesquisas num processo liso, e dependendo da pesquisa prefiro confiar na conclusão de alguém que atendeu a um edital de pesquisa lançado pelo governo a confiar em quem teve financiamento privado. Não só as pequenas pesquisas merecem nosso ceticismo ajuizado (ceticismo desajuizado é o que os eternos conspiradores carregam consigo), mas também as grandes: saber quem financia um estudo pode ser uma informação substancial para manter uma saudável pulga atrás da orelha. Atenção aos autoritários, aos polarizados: eu não disse que pesquisas financiadas por grandes marcas devem ser usadas para concluir o oposto – “se a pesquisa financiada pela Mondelez conclui que chocolate faz bem, é porque chocolate faz mal” –, apenas incentivei o benefício da dúvida comedida até que outro pesquisador possa provar outra coisa ou ratificar o que foi concluído. 

O sentido da metodologia exposta num trabalho acadêmico não é só o de informar sobre a técnica utilizada, mas de possibilitar que a experiência possa ser repetida por outro pesquisador que queira verificar se atinge o mesmo resultado. Usar a mesmíssima metodologia e não alcançar o mesmo alvo, ou um alvo sadiamente próximo, é mau sinal para o estudo publicado. Excetuando pesquisas com forte cunho de análise de dados quantitativos, qual é a medida das produções da área de humanas que passariam pelo teste com tranquilidade? Não só a metodologia está muitas vezes errada como mesmo seguindo os passos tortos da metodologia errada não se chega ao mesmo lugar. Pretenso Pesquisador: "Eis o mapa: foi assim que cheguei ao que denomino Vale do Conhecimento". Possível Replicador: "Interessante, porque o mapa não apenas é mal feito como seguimos os tracejados conforme aqui está e chegamos a um local completamente diferente". É uma realidade assombrosa, mas somente até você se acostumar a ela: se orientadores de trabalhos acadêmicos já esculpiram seu corpo no colchão dessa pesquisa macunaímica de tanto passarem deitados confortavelmente nele, não há razão para o mais comum terrestre não diplomado deixar de normalizar tal situação. 

Em tempo: há muitos textos da área de humanas que são ensaios e não pesquisas acadêmicas, mas são aprovados como pesquisas acadêmicas. O fato de um texto citar alguns livros não o torna uma pesquisa acadêmica. Já há “artigos acadêmicos” sobre “o golpe de 2016 no Brasil”, e em boa parte deles dá para se ter uma ideia da confusão entre ensaio e pesquisa.

O equivalente, na área de humanas, ao cientista de laboratório que se permite guiar pelo benefício de seu financiador (ele nega a influência, mas isso não quer dizer nada), está no pesquisador que prefere causas a fatos. Esse pesquisador, que geralmente atende a apelos políticos, apelos partidários, apelos sentimentais dos movimentos sociais, não deixará que a razão reine naquilo para o qual ele chama primeiro a paixão, tonta porque inebriada por suas convicções de fé. A imparcialidade é fantasma que nunca se agarra, mas é canalhice de muitos pesquisadores "de humanas" não ao menos tentar. Nessa toada, a pesquisa não informa, mas doutrina. Ou seja, não é pesquisa. 

Para se formar, um graduando precisa passar por dezenas de professores. Depois ele passa pelo cansativo estágio e/ou pelo trabalho de conclusão de curso. Quando você vai ao banco de TCCs da biblioteca de uma instituição de ensino e pega aleatoriamente algumas monografias da sua área para ler, pode ficar confuso. Aquilo é pesquisa. Aquilo foi ratificado por pares. Aquilo recebeu uma orientação, passou por uma banca avaliativa e recebeu aprovação. Aquilo pode ser citado em outros trabalhos acadêmicos. Há trabalhos tão ruins que é de se perguntar se a universidade, que deveria priorizar a formação dos melhores pesquisadores e profissionais, está se tornando um novo ensino fundamental público onde qualquer um que não seja completamente absurdo passa para o ano seguinte. Li um trabalho acadêmico, aprovado, em que a conclusão trazia dados novos que não foram apresentados em momento algum do desenvolvimento. Vi uma pessoa que estava para se formar na especialização juntando materiais para poder usar nas referências e inserir as citações no meio do texto que já estava pronto: não houve pesquisa, houve “escrevi o que penso e agora vou intercalar umas citações de renomados que concordem comigo”. Conheci uma pesquisadora cujo trabalho de reunir todos os dados coletados foi por mim observado: de maneira desarrazoada, elementos que não casavam eram unidos e mal interpretados. Pessoas externas ao que estava acontecendo ali receberiam um artigo aparentemente bem feito e de acordo com a época estudada, mas tendo sabido do bastidor eu sei que parte do que foi publicizado era fruto da pressa e da mera lucubração, e não de um estudo feito com calmo capricho. Leio e ouço desde sempre reclamações sobre ter que citar autoridades sobre o assunto, porque os amadores pesquisadores preguiçosos e nada humildes achavam “ridículo que não possamos pensar com nossa própria cabeça e tenhamos que procurar argumentos de autoridade”. Se você acha que citar quem entende mais do assunto que você é uma poda ao direito de pensar com a própria cabeça, saia da faculdade e monte um blog. Num blog você pode dizer o que pensa e não se dignar a responder caso alguém pergunte que tipo de autoridade você é para opinar sobre o assunto. 

Não consumo salsichas justamente porque sei como – e de que – elas são feitas. Por saber que muitos trabalhos acadêmicos têm o modo de produção semelhante ao das salsichas, consumo estudos com muita parcimônia hoje em dia. Infelizmente, mesmo uma pesquisa lindamente bordada pode ter um avesso tenebroso. E é muito arriscado defender qualquer ideia subitamente aparecida num estudo que possa ser suspeita. Estudo por estudo, todo mundo tem os seus preferidos para citar. Até a homeopatia, que é pseudociência evidente, tem diversos estudos (ruins) "comprovando" seus efeitos. Pesquisa acadêmica é também como estatística: dependendo quem fez e com que objetivos, pode ser uma grande furada. É melhor conhecer tudo o que ocorre nos bastidores antes de acreditar na peça que é encenada. 

***

NOTAS

1. Esta postagem terá uma parte II chamada Universitários que são manequins. 

2. Não acho que eu precise me explicar, mas me explico e até me repito. Não aderi ao veganismo por motivo de saúde, aderi por ética. Não me lembro de em nenhuma fase da minha vida não ter gostado de animais (não gostava muito de ganhar bonecas, sempre queria animais de pelúcia), assim como não me lembro de ter gostado de ou me divertido com tortura, que é tudo o que os animais passam antes de irem para pratos de ególatras. Portanto, veganismo não é dieta, como erradamente apregoam Drauzio Varella e reportagens sobre nutrição na televisão. E só aderi ao veganismo porque ele é possível: se fosse uma aberração alimentar que fosse me fazer mal, eu não teria embarcado nessa e iria apenas “comprar carne de produtores que realizam abate humanitário”. Aberração alimentar é comer pedra e fazer jejum enquanto uma fruta não cai naturalmente da árvore. Aberração alimentar e moral é contar para os filhos histórias bonitinhas sobre galinhas, mostrar os pintinhos abrigados embaixo das asas da galinha em um parque qualquer e depois, à noite, servir frango no jantar. 

3. Não demonizo agrotóxicos (não mais). Sei que com o estilo de vida da população geral seria muito difícil ter fartura de alimentos sem o uso deles. Mas não posso aprovar a história de que “orgânicos são apenas nicho de mercado” enquanto no Brasil são permitidos agrotóxicos que estão banidos na Europa há anos e enquanto auditorias flagram abuso na quantidade de agrotóxicos despejada em certas plantações. 

4. Existem casos de estudos aparentemente “sérios dos dois lados”. Não sei muito bem o que pensar sobre o álcool: há quem defenda que com moderação ele faz bem, há quem defenda que qualquer quantidade dele já aumenta o risco de câncer. Para mim seria muito vantajoso que fizesse bem, porque gosto de beber e bebo com moderação, mas li pessoas que estimo condenando essa angelização do “álcool em doses moderadas” porque há estudos que mostram que mesmo a ingestão com prudência faz mal. Mantenho-me aqui, bebendo enquanto não saem estudos definitivos. 

5. A Cochrane Library faz revisões de estudos sobre temas variados e é uma base segura para avaliar a seriedade e profundidade dos resultados de pesquisas. Alguns artigos são de acesso livre. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas


Não convivo em sociedade tanto quanto vocês, mas o pouco de convivência que experimento serve para colocar minhas antenas de fora e captar tudo o que passa com as pessoas, essas figuras interessantíssimas e gravemente defeituosas. Se nem sempre posso fruir a vida em sociedade – porque há um limite para a dissimulação defensiva –, posso ao menos aprender alguma coisa com ela, usá-la para elaborar meus textos mentais (o blog dentro da minha cabeça tem dezenas de vezes mais conteúdo que este, que frequentemente abandono às moscas) e, quando possível, tomá-la como base para criar personagens. Um dos aprendizados que tomei ao realizar tantas observações foi o de entender que todos, mesmo os mais improváveis, têm fórmulas para gerir a vida. E essas fórmulas podem ser boas, mas geralmente são equivocadas e nocivas. Quem pode ser refém delas? Qualquer um que conviva com um “formulador” contumaz. 

Sempre tive receio dos formuladores quando eles tinham algum poder sobre mim: um chefe, um professor, um atendente para serviços que necessito com urgência, um médico. O formulador, quando está muito certo da teoria fajuta que ele acredita ser aplicável de maneira radical, pode destruir minha vida ou, como dizem os coitadistas cheios de não-me-toques, “minha saúde mental”. Experimente “ter o signo errado” quando seu contratador for um aficionado por astrologia que pensa que, de acordo com a data em que nasceu, você só pode ser um problema. Experimente não gostar de crianças ou de cachorros quando tiver uma chefe – e eu ouvi isso de uma superiora – que diz a sério que “nunca é possível confiar em alguém que não goste de crianças ou cachorros”. Francisco Daudt da Veiga, psicanalista que aceitou fazer participações crônicas no modorrento programa da Fátima Bernardes, foi convidado a se retirar após o ápice de suas opiniões polêmicas: disse que não gostava de cachorros. Isso foi demais para os telespectadores, que pediram a cabeça de Daudt porque ele correspondia à fórmula do “somente uma pessoa horrível pode não gostar de cachorros”. Fórmulas como essas podem ser bem danosas, principalmente nas mãos de quem tem autoridade sobre os outros, mas o saco é muito mais fundo. Por isso apresento-lhes O rol das fórmulas problemáticas e outras abobrinhas. Os nomes próprios são somente para exemplificar, portanto são fictícios. 

“Não tenho nada contra a Wanda, ela nunca fez nada de mal para mim.” [Sobre Wanda, que todos sabem ser uma pessoa sem caráter.]

Que planeta ególatra é esse que habitamos onde uma pessoa só pode receber uma avaliação negativa minha se tiver feito algo de forma específica contra mim? Existem alguns modos de eleger alguém como ruim: a) nunca vi fazendo mal a ninguém, mas tem uma personalidade horrenda, b) fez mal considerável ou reiterado a mim, sem motivo razoável, ou c) fez mal considerável ou reiterado a alguém, pelo motivo errado e/ou sem ser uma reação a um mal feito anteriormente. Isso tudo me parece muito justo. Há, no entanto, uma parcela de indivíduos considerados íntegros, pacíficos, de boa índole, incapazes de falar mal dos outros, que se saem com essa quando se fala sobre um notório ímpio: “não tenho nada contra ele, pois nunca me fez nada”. Muito bem, vamos ao drama: Hitler nunca me fez nada. Devo deixar de ter algo contra ele por isso? E Jesus: acham ajuizado que alguém devesse ter tomado as rédeas desse homem que resolveu se opor a tanta gente que não tinha feito nada contra ele? “Jesus, por que o senhor está destruindo o comércio do povo que se instalou no templo? O que ele lhe fez de mal?” No pior dos casos, Victor Hugo entra em cena com seu “quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas”. Ao não agirmos contra uma pessoa ruim somente porque “ela não nos fez mal particularmente”, podemos colocar em risco pessoas boas que são atingidas por ela. 

“Rogéria é uma boa pessoa, pois nunca fala mal de ninguém.”

Nem sempre “quem não fala mal de ninguém” o faz porque é budista em grau máximo; ou seja, não falar mal de ninguém pode não ser boa coisa. Há pessoas que não falam mal de outras porque têm medo de ser confrontadas – assim como há quem não furte somente porque tem medo de ser pego, e não porque aderiu ao princípio de “não tomar o que não é seu” –, porque querem ser gostadas por todos ou porque, simplesmente, são bundonas. O bundão vê alguém ameaçando um pequeno funcionário dentro de uma empresa e não denuncia “porque não quer se envolver”. O bundão vê um colega de trabalho na escola desrespeitando uma criança e fecha os olhos “porque não quer se meter em problemas”. Um mundo cheio desses bundões que não falam mal de ninguém que mereça é um mundo repleto de injustiça. Não é uma virtude você saber que uma pessoa bate o ponto e vai para casa no horário de trabalho e guardar isso consigo. Não é uma virtude você ver que um amigo está enganando outro suposto amigo apenas por interesse (dinheiro, poder, status) e deixar que o enganado pereça sem saber quem causou sua tragédia. Calar sobre uma informação que se tem pode ser um erro grave em vez de uma qualidade. 

“Cláudio era uma pessoa muito bondosa, amiga, genuína.” [Sobre Cláudio, que acabou de morrer.] 

No excelente livro Fim, da Fernanda Torres, um personagem perde o pai. Esse pai era um canalha e foi um péssimo pai. O personagem hesita um pouco, mas prossegue: convida todo mundo para participar do sepultamento do canalha que foi seu pai. Sem floreios, sem mentiras. Quando Ayrton Senna morreu, Nelson Piquet não foi ao seu enterro, para o espanto de muita gente. Espantoso seria, na verdade, se tivesse ido ao enterro de uma pessoa que detestava em vida, e se começasse a fazer um panegírico. Nós, como foi bem dito pelo Contardo Calligaris em entrevista no Roda Viva, temos essa mania estranha de elogiar os mortos, mesmo que não mereçam. (Nós não, porque eu não faço isso.) Tem meu respeito quem sabe avaliar um morto como a pessoa que foi, e não como a pessoa que fica bem que tivesse sido. Vi poucas pessoas morrerem. Todas permanecem na minha avaliação iguaizinhas ao que eram em vida. 

“Paulo dirigia embriagado na rodovia e desmaiou ao volante. Seu carro foi parar na outra pista e todos os caminhões que vinham conseguiram desviar. Não era a vez de Paulo. Se não morreu, é porque não era para ter sido.”

Esse tipo de sentença já mexe comigo porque subentende a presença de Deus, e é um Deus com um modo de operar estranho. A maioria das pessoas que acredita em Deus parece achar que o Criador é trouxa ou astigmático: Ele protegerá quem colocou o adesivo “fé” no próprio carro, Ele dará o céu a quem crê Nele mesmo que essa pessoa não faça o bem, Ele permitirá o paraíso a quem acumula posses mesmo tendo deixado claro que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus”, Ele só observa atos e não pensamentos, etc. Mas deixemos Deus um pouco para lá, nas nuvens que se confundem com sua barba. A questão é: se temos hora para morrer, por que seguir normas de segurança? Se eu já tenho um momento “que é para ser”, por que atravessarei na faixa e somente após o semáforo de pedestres ficar verde para mim? Por que evitar comer açúcar? Se nossa hora está destinada, não há o que fazer para alterá-la. Piquemos essa abobrinha e façamos um refogado com ela. 

“Foi Deus que me salvou.” [Dito por Alice, em entrevista a um repórter do jornal local, após ser a única sobrevivente num acidente de ônibus que matou 38 pessoas.] 

Falta amor, altruísmo, compaixão, bom senso nessa fala. Imaginem que sou a mãe de um rapaz que morreu no acidente. Vejo a entrevista com a única moça sobrevivente e ela diz que Deus a escolheu para permanecer viva. Não é preciso estudo de nenhum tratado de lógica da Grécia Antiga para entender que meu filho, segundo essa moça, foi morto por causa de Deus, porque Deus quis. Mesmo que seja verdade – por que essa moça está se gabando disso num momento que é tão triste para mim e mais 37 famílias? Estou passando por algo tão deprimente e ainda tenho que ouvir isso? 

“Estou gorda como um barril, preciso emagrecer.” [Dito por alguém ao lado de uma pessoa gorda que não começou o assunto.] 

Digamos que somente metade de quem usa essa fala nessa circunstância – estar ao lado de outra pessoa de fato gorda que não começou o assunto – seja por provocação (e há quem diga que não coloco um pouco de otimismo nas ações humanas, que só uso meu parco conhecimento psicanalítico para compreender o mal). Se você for a pessoa atingida pela provocação, tenha pena, franca pena de quem faz isso. É complexo de inferioridade tentando se mascarar com arrogância. Alguém que precise disso para se sentir bem é digno de dó e deve levar uma vidinha interna muito triste. Se você é a pessoa que faz a provocação, bem, já explanei como é a sua vida. Falemos da outra metade, dos que dizem isso sem ser uma provocação ou indireta a quem esteja em volta. Há coisas, principalmente aquelas que concernem à imagem, que não devem ser ditas em qualquer momento ou devem ser ditas de maneira educada. Ninguém é obrigado a querer estar gordo – ou com outras características que se considerem socialmente desvantajosas –, mas é uma absurda falta de educação chegar ao lado de alguém de um jeito xis e dizer, com a boca cheia, que odeia estar com características daquele jeito xis. Uma vez uma mulher de cabelo cacheado disse horrores sobre o próprio cabelo, e disse que ia morrer se não conseguisse alisá-lo “para ficar decente para sair na rua”, ao lado de um homem negro com o cabelo pixaim. Isso não é “estar só falando sobre si” ou “estar apenas expondo as próprias preocupações”, isso é falta de respeito. É como dizer: “meu cabelo é uma droga, imagine o que eu penso do seu”. Não. Se você não diz ao lado de alguém sem pernas “ah, como é bom ter pernas!”, não sugira ao lado de uma pessoa gorda – ou orelhuda, nariguda, alta demais, baixa demais, magra demais, com olheiras, com manchas no rosto, dentes feios, corcunda, idosa, voz nasalada, língua presa – que você considera horrível estar parecido com ela. E lembre-se: reclamar com visível aborrecimento “ai, como estou velho!” ao lado de alguém mais velho que você também é falta de educação, principalmente se você for jovem. Friso isso porque ocorre com uma frequência assustadora. 

“Aquilo que odiamos nos outros é aquilo que odiamos em nós mesmos.”

Qual é o cabimento dessa autoajuda de quem se formou pelo correio? Tudo bem, eu de certa forma me formei pelo correio, mas gosto de ter pensado que criei essa expressão. Primeiro, gostaria de declarar que acho bom que se ataque o ódio, em especial quando ele é contínuo. Não gostar das pessoas é uma coisa – meu livro com os nomes está no terceiro volume e segue –, odiá-las já tem a ver com um tipo de paixão cega e arrebatadora. Quem odeia vai lembrar do objeto de ódio quando acorda, quando lê um livro, quando ouve uma música que o odiado estima, chega a casa à noite e passa tempo demais reclamando para o companheiro sobre o odiado (“porque fez isso, porque é assim, porque planejou assado”), enfim: tem fixação e gasta tempo. O odiado, enquanto isso, está lá sendo feliz ou outra coisa e nem imaginando que ocupa tanto a existência de alguém que só atingirá o clímax quando vê-lo queimando no meio da praça. Discordo da fórmula “o ódio só faz mal a quem o cultiva” porque já vi muitos odiados sofrendo nas mãos daqueles que os odeiam, atuantes como se estivessem numa batalha, mas acho que o pior dano ainda fica na carga de quem sente o ódio. Assim, combater o sentimento de ódio contínuo – o abrupto nós sempre temos e pode até ser salutar para estimular a ação – é bom. Mas afirmar que aquilo que odiamos nos outros é algo que odiamos em nós… A frase não é apenas cafona. É mentirosa. Eu odeio nos outros a inação a respeito do sofrimento animal que todos conhecem (podem desconhecer a dimensão, mas sabem que o sofrimento existe). O que isso tem a ver comigo? Exatamente: nada. Não como animais, evito usar coisas que agridam animais – como se pode considerar que odeio algo em mim quando odeio a esquizofrenia moral nos outros? Odeio nos outros a incapacidade de pensar “e eu na situação dessa pessoa não faria o mesmo?” antes de começar a tecer críticas. Estou odiando algo em mim? Não, porque me pergunto se não faria o mesmo na situação da pessoa que intento criticar. Se eu faria o mesmo, paro. Se eu não faria, critico. Jesus, que está muito participante nesta página hoje, criticava características que ele “não gostava” nos outros. Estaria a atacar o que havia dentro dele? Peguem todos os grandes nomes de homens que revolucionaram o mundo de maneira virtuosa e percebam que eles “não gostavam” ou “odiavam” vários pontos naqueles que combatiam. Alguém ousará dizer que Martin Luther King criticava nos outros aquilo que ele precisava trabalhar nele mesmo? 

“Se o garoto não tivesse tentado furtar a bicicleta, não teriam tatuado uma sentença em sua testa. Se o Charlie Hebdo não tivesse provocado, os muçulmanos radicais não teriam exterminado os jornalistas.” 

Considero muito grave quando converso com alguém que demonstra não saber aplicar o princípio da proporcionalidade – que deveria reger não só o direito penal, mas nossos julgamentos – a casos que ocorrem por aí. Uma esquerda tonta e injusta disse que se justifica o atentado ao Charlie Hebdo porque “os chargistas provocaram os muçulmanos ao desenhar Maomé em posições humilhantes”. Uma direita tonta e injusta – que se aproxima daquela esquerda pela teoria da ferradura – disse que se justifica a tatuagem na testa do garoto ladrão “porque ele não deveria ter tentado furtar uma bicicleta”. Agora imaginem um mundo dominado por juízes doentes que consideram que fazer uma charge deve ter como vingança o assassinato de dez pessoas e tentar furtar uma bicicleta deve remeter ao castigo que Deus aplicou a Caim. Criticou-se tanto o olho por olho e agora temos uma versão para o século XXI que é o “olho por todos os olhos da vila onde mora o autor do primeiro delito”. O mundo não acabará cego, mas exterminado. Quem pensa “bem-feito” em ocasiões como essa nunca se coloca no lugar de quem sofre a retaliação desproporcional. Mas deveria. E se já vai se defendendo com um “eu jamais faria coisas como essas”, talvez deva abrir o leque e imaginar alguém que ame – um dos pais, um dos filhos, um amigo querido – fazendo algo errado e recebendo de “troco” uma consequência excessiva. 

“Eu apanhei na infância e estou aqui, vivo, firme e forte.” [Dito por alguém que apanhou na infância e quer justificar por que hoje acha correto que se possa “dar uns tapinhas de vez em quando” nos filhos.]

É de muito mau gosto – e uma amostra de ignorância – querer transformar casos isolados em teoria. Conheci uma mulher que não amamentou o próprio filho porque ela, quando bebê, não tinha sido amamentada e mesmo assim “tinha se desenvolvido muito bem” (na época vivia doente, não sei em que parte estava o “bom desenvolvimento”; talvez considere bom o fato de não ter ficado uma anã pela falta de aleitamento). Conheci outra mulher (para uma antissocial, conheci bastante gente, não acham?) que permanecia fumando porque sabia de senhoras na família que fumaram até a longa velhice e tinham ficado bem. Poderia elencar muitas outras histórias de conhecidos, mas acredito que já foi possível entender o ponto: sua ilha não é parâmetro para explicar os continentes. E não faz sentido que você queira que os continentes se adaptem à realidade da sua ilha. Sou contrária à palmada e otras cositas aplicadas contra crianças porque o nome claro disso é violência. Se o esposo não pode bater na esposa, que direito ele tem de bater em quem é menos capaz que a esposa – as crianças? Além disso, a palmada é uma demonstração da falta de controle. Você não consegue se impor como autoridade perante tocos de gente e recorre à agressão. O fracasso é seu. Eu por muitos dias precisei ter domínio de quinze crianças, sozinha. Na maior parte do tempo, estava acompanhada por uma colega, mas ainda assim eram seis, sete, oito crianças para cada uma. E tínhamos domínio sem poder recorrer a qualquer palmada que fosse. A situação é idêntica em milhares de outras creches espalhadas pelo país. Hoje os pais têm um ou dois filhos, perdem o controle e já querem recorrer à violência para consertar sua incompetência. De que serve a pedagogia enquanto ainda estiver valendo a surra? O mais importante aqui é que a sua história de vida, ou a história de um bocadinho de fulanos que você conheceu, não serve para explicar o globo. 

“É fácil que ativistas favoráveis ao aborto falem sobre isso quando puderam nascer. Elas não estariam aqui se a mãe delas tivesse abortado.”

Essa fala dá continuidade à anterior. Minha história pessoal não deve ser parâmetro para a história de outras pessoas. É verdade, nasci porque minha mãe não abortou. Mas se eu tiver que ser contra o aborto por ter nascido porque minha mãe não abortou, pessoas que nasceram de mulheres estupradas devem ser favoráveis à continuidade da gestação de outras mulheres que foram estupradas? Se não fosse o estupro que a mãe delas sofreu, elas não estariam aqui hoje para opinar. É a história de cada um que deve basear o ativismo por uma lei? Já dei esse exemplo anteriormente, mas repito: por parte de mãe tenho antepassados escravos, ou seja, pessoas que foram arrancadas da África para trabalhar no Brasil. É fato que minha mãe só pôde conhecer meu pai nos anos 80 porque no passado seus trisavós foram escravizados. Devo, por isso, ser a favor da escravidão vivida no Brasil porque foi por meio dela que meus pais puderam se encontrar e me dar a vida? Como é fácil para tanta gente transformar questões valiosas e grandes em discussões mesquinhas. 

Obviamente não estou imune a criar fórmulas problemáticas e proferir abobrinhas. Mas eu gosto tanto da minha companhia que todos os dias converso comigo mesma sobre diversas coisas, e esses meus erros de percurso estão entre elas. Vocês deveriam conversar consigo mesmos também. Às vezes poderão se assombrar ao ver que estão conhecendo alguém a quem nunca foram apresentados.

***

NOTAS

1. Dissimulação defensiva é aquilo que você precisa fingir ser para viver em sociedade sem ficar muito prejudicado. Ela é aceitável porque parte do pressuposto de que você não é obrigado a morrer por uma causa. É preciso observar o limite, todavia, porque em poucos passos podemos adentrar o perfil da dissimulação pura, que é nojenta, rançosa e vergonhosa. Dissimulados puros dão por aí como chuchu e muito gente não vê – ou não quer ver.

2. Coitadistas cheios de não-me-toques são os mesmos que apoiam ideias como o leitor sensível, cargo criado por algumas editoras para que personagens polêmicos sejam censurados ao ofender os valores e as frescuras de alguém prepotente que esteja do lado de cá do livro. Há um esquerdismo que ousa falar de Orwell e citar 1984 sem perceber que ele próprio, esse esquerdismo ruinoso, quer com todas as forças criar uma situação semelhante ao Grande Irmão.

3. É possível que alguém não goste de animais e seja vegano, assim como é possível que alguém não goste de crianças e mesmo assim seja a favor dos direitos da criança (ou vocês acham que os autoproclamados “não gostadores de crianças” são capazes de ver um miúdo sendo decepado e depois ir ao cinema apreciar um filme de comédia?). Apesar de ser vegana, em nada me agradam as fórmulas sobre “pessoas ruins não gostam de cachorros” ou “gente que não presta não gosta de gatos”. Pessoas ruins e que não prestam maltratam cães e gatos ou permitem que maltratem esses animais. Gostar deles é uma opção, tratá-los bem é uma obrigação. Muitos de vocês, dog lovers, permitem e pagam para que atrocidades sejam feitas com outros animais – inclusive animais mais inteligentes que os cachorros, como os porcos – e vêm posar de bonitos só porque gostam de ver um animal abanando o rabo para vocês? Patéticos.

4. Desconfiei dos elogios que o livro Fim, da Fernanda Torres, estava recebendo, e por isso fiz o download do livro digital. Li na minha primeira semana de férias, em Lisboa, quando descansava no quarto da pensão e minhas roupas secavam no varal, na janela. (Algumas cidades na Itália e em Portugal podem proporcionar essa experiência tão popular). E o livro é ótimo. Estupendo. Dá vontade de reler logo que acaba. Livros bons merecem ser comprados. Comprei o livro.

4.1. Não é que eu não acreditasse no talento da Fernanda Torres. Como atriz, é ótima. Como colunista da Folha, é impressionante. Mas ler que ela tinha escrito “sobre velhos que vivem situações tristes e cômicas no Rio de Janeiro” e ver que o livro tinha na capa uma praia cheia de guarda-sóis… Venho da literatura em que a praia serve como pano de fundo – um pano de fundo vazio – para matar um árabe, não para ambientar a vida de idosos cariocas. Li resumos e pensei “deve ser um livro que ela está escrevendo para a mãe dela”. Pensei que os tais velhos iam aparecer como caducos, jogadores de dominó e falantes compulsivos – características que muitos velhos têm em contos, crônicas e prosas brasileiras. Preconceito meu. Recomendo a leitura com louvor. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Listas extraordinárias, de Shaun Usher


Não me lembro quando foi que comecei a fazer listas porque tenho a impressão de fazer listas desde sempre. Se já possuísse o conhecimento necessário e o cérebro preparado, provavelmente, recém-nascida, já teria elencado os pontos positivos e negativos da vida de bebê. O que sei é que desde a infância tenho feito listas, escritas ou mentais, sobre as coisas, muito disso influenciada pelas delícias que eu lia em livros e revistas quando alguém expressava seus gostos pessoais (ficções prediletas, nomes bonitos, medidas a tomar numa ilha). Eu pensava: “encantador isso, o sujeito ficar namorando a si mesmo criando suas listas”, porque quase todo tipo de autoenamoramento que não desandasse para o narcisismo e o esnobismo calculado me fascinava. Mas não ocorria só com listas personalíssimas. Gosto de listas estatísticas e de “procedimentos para caso este avião caia”. No meio dessa existência que é uma torrente de tópicos meus e dos outros, encontrar o livro Listas extraordinárias foi uma graça para uma madrugada divertida no sofá. 

O livro reúne listas diversas de pessoas que não se conectam sobre assuntos díspares. Há desde O dicionário do beberrão, de Benjamin Franklin, em que são listadas dezenas de expressões que servem para descrever um bêbado – “tomou o grande elixir de Hipócrates”, “arruinou a própria pança” e “está de pilequinho” são algumas delas –, até Motivos para internação no Hospital para insanos da Virgínia Ocidental, no período entre 1864 a 1869 – dentre os motivos, “induzido a entrar para o exército”, “leitura de romance” e “masturbação suprimida”. Li somente as listas que me interessavam porque o livro não é do tipo “para conhecer do cabo ao rabo”, mas do tipo “consulta”. Talvez seja uma boa ideia colocá-lo numa mesa de centro para instigar assuntos com as visitas. Melhor do que livros de arte decorativos sobre os quais ninguém sabe falar com profundidade. 

Selecionei algumas listas boas para exemplificar o tipo de lazer que o livro proporciona. No final da postagem, coloquei também algumas listas minhas. Nunca pude me denominar organizada porque a virtude da organização é vinculada somente a objetos, mas minhas listas são a prova de que sou organizada em conhecimento, pensamentos e fórmulas de conduta – um tipo de ordem que é mais importante do que ter uma mesa clean. Eu poderia determinar que da próxima vez que me perguntarem se sou organizada direi que “sim, organizada em pensamentos”, mas não o farei porque isso seria esperar intensidade de interlocutores possivelmente rasos que gargalham à toa e não compreendem sutilezas. Vida longa às listas, e mais desse tipo de cuidado privado a quem se desencantou de si mesmo numa época em que listas e diários só servem se forem jogados ao público que aplaude. 

***

Na apresentação do Listas extraordinárias, Usher faz uma lista sobre por que é bom fazermos listas. Destaco dois pontos: 

4. Todos nós somos críticos. Classificar as coisas – da melhor à pior, da maior à menor, da mais rápida à mais lenta – pode ser viciante, sem dúvida porque faz com que nos sintamos muito inteligentes.
5. O tempo é precioso. Confiando um monte de informações monótonas a listas facilmente digeríveis, temos mais tempo para nos divertir e fazer listas.

*

Num dos diários de Susan Sontag, editados postumamente por seu único filho David, havia essa lista de Regras para criar um filho. Bonito e útil, seu conjunto de regras só é estranho pelo item 10: 

1. Ser coerente.
2. Não falar sobre ele com os outros (por exemplo, contar coisas engraçadas) na presença dele. (Não deixá-lo acanhado.)
3. Não elogiá-lo por alguma coisa que eu nem consideraria boa.
4. Não repreendê-lo com aspereza por algo que ele foi autorizado a fazer.
5. Rotina diária: comer, lição de casa, banho, dentes, quarto, história, cama.
6. Não deixar que ele me monopolize quando eu estou com outras pessoas.
7. Sempre falar bem do pai dele. (Nada de caretas, suspiros, impaciência, etc.)
8. Não desencorajar as fantasias infantis.
9. Ensinar-lhe que existe um mundo dos adultos que não é da conta dele.
10. Não supor que aquilo que eu não gosto de fazer (banho, lavar o cabelo) ele também não gosta.

*

Os pecados de Newton. Lista que Isaac Newton escreveu aos 19 anos. Era dirigida a Deus e confessava seus pecados. Dentre eles, “gulodice”, “desejar a morte e esperar que ela venha para algumas pessoas” e “fazer tortas no domingo à noite”. Impossível não se identificar. 

*

A lista Como a minha vida mudou, de Hilary North, que não morreu no atentado de 11 de setembro porque se atrasou para chegar ao trabalho. Ela lembra de cada colega seu que foi vitimado na tragédia e escreve coisas como:

Não posso mais sorrir para o Paul.
Não posso mais deixar a porta aberta para o Tony. 
Não posso mais fazer confidências para a Lisa.
Não posso mais reclamar do Gary. 

*

Os onze mandamentos de Henry Miller. Escritos enquanto escrevia seu primeiro romance publicado, Trópico de câncer:

1. Trabalhe numa coisa de cada vez até concluí-la.
2. Não comece a escrever outros livros, não acrescente mais nada a Primavera negra.
3. Não fique nervoso. Trabalhe com calma, com alegria, com despreocupação no que quer que seja.
4. Trabalhe de acordo com a programação e não de acordo com o humor. Pare na hora estabelecida!
5. Quando não conseguir criar, você pode trabalhar.
6. Consolide um pouco todo dia, em vez de pôr novos fertilizantes.
7. Seja humano! Procure as pessoas, frequente os lugares, beba, se tiver vontade.
8. Não seja um burro de carga! Trabalhe só com prazer.
9. Abandone a programação, quando quiser – mas retome-a no dia seguinte. Concentre. Restrinja. Exclua.
10. Esqueça os livros que você quer escrever. Pense só no livro que você está escrevendo.
11. Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

*

Jack Kerouac, com sua lista Crença e técnica para a prosa moderna, parece ter sido lido por muitos escritores dos nossos tempos:

28. Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor.
29. Você é um gênio o tempo todo.

*

Estranhas ideias de Lovecraft. 222 ideias que H. P. Lovecraft compilou para uso posterior em histórias de ficção. Coisas como:

73. Ratos se multiplicam e exterminam primeiro uma cidade e depois a humanidade inteira. Aumentados em tamanho e inteligência.
97. Medo cego de uma floresta onde cursos d'água serpenteiam entre raízes tortas e onde ocorreram sacrifícios terríveis num altar enterrado – Fosforescência de árvores mortas. Chão borbulha.

*

Um decálogo liberal, por Bertrand Russell: 

Talvez se possa resumir a essência da posição liberal num novo decálogo, que não pretende substituir o velho, mas apenas suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de divulgar, poderiam ser redigidos nos seguintes termos: 

1. Não tenha certeza absoluta de nada.
2. Não pense que vale a pena esconder provas, pois elas certamente virão à luz.
3. Nunca tente desencorajar um pensamento, pois você com certeza vai conseguir.
4. Quando encontrar oposição, ainda que seja de seu cônjuge ou de seus filhos, esforce-se para vencê-la com argumentos, e não com autoridade, pois a vitória que depende de autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeite a autoridade dos outros, pois sempre vai encontrar autoridades contrárias.
6. Não use o poder para calar opiniões que considera perniciosas, pois, se fizer isso, as opiniões vão calar você.
7. Não tenha medo de ser excêntrico em suas opiniões, pois toda opinião que hoje é aceita já foi excêntrica no passado.
8. Tenha mais prazer com uma dissidência inteligente do que com uma concordância passiva, pois, se você valoriza a inteligência como deve, a primeira implica uma concordância mais profunda que a segunda.
9. Seja escrupulosamente verdadeiro, ainda que a verdade seja inconveniente, pois ela é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não tenha inveja da felicidade de quem vive num paraíso dos tolos, pois só um tolo achará que isso é felicidade.

*

Sugestões para tomar ônibus integrados. Essa lista, que não transcreverei por completo, me fez entender por que a ala delirante do movimento negro não costuma citar Martin Luther King em seus textos raivosos: porque ele não era um ativista movido pelo ódio. Luther King é um dos poucos cristãos que fazem jus ao título. Dentre seus preceitos está o de não revidar atos violentos. Negros que comemoram quando brancos são fuzilados por radicais islâmicos na França ou ficam do lado de criminosos como o Champinha (vale recordar aquele texto abominável da Marilene Felinto na Caros Amigos, em 2004) realmente não têm como idolatrar uma liderança que recomendava: “Se o xingarem, não responda. Se o empurrarem, não empurre. Se lhe derem um safanão, não revide, mas sempre demonstre amor e boa vontade.”. Claro está que mesmo com toda essa bondade Martin Luther King não perdeu dinamismo. Sua atuação pacífica não era sinônimo de inércia. Foi essa lista que me levou a um interesse maior por ele e me fez comprar sua autobiografia, publicada pela Zahar, que lerei quando voltar de férias, em junho. Segue a explicação de seu contexto e parte da lista: 

O curso da história mudou em 1º de dezembro de 1955, quando Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um passageiro branco e foi presa por isso. No ano seguinte, até os tribunais federais considerarem inconstitucional a segregação racial, ocorreu um boicote ao transporte público, liderado por Martin Luther King. Em 19 de dezembro de 1956, às vésperas de uma vitória histórica para os opositores da segregação, King elaborou uma lista de normas para aqueles que logo voltariam a tomar ônibus. 

1. Nem todos os brancos se opõem aos ônibus integrados. Aceite a boa vontade da parte de muitos.
2. Agora todos podem usar o ônibus inteiro. Sente-se no lugar vago.
3. Quando entrar no ônibus, peça ajuda ao céu e honre seu compromisso com a não violência absoluta em palavras e atos.
4. Demonstre em seus atos a calma dignidade de nossa gente em Montgomery.
5. Observe, em todos os aspectos, as regras usuais de cortesia e bom comportamento.
6. Lembre-se de que essa é uma vitória não só para os negros, mas para Montgomery e o Sul. Não se gabe! Não se vanglorie!
7. Fique quieto, porém amistoso; orgulhoso, mas não arrogante; contente, mas não ruidoso.
8. Tenha amor suficiente para absorver o mal e discernimento bastante para transformar um inimigo num amigo.

***

Agora, poucas das minhas inúmeras listas. A primeira poderia se chamar Melhores citações que estão em minha agenda 2017. São citações que fazem muito sentido para mim e tento sempre me lembrar delas para operar* coisas boas no meu cotidiano: 
[*operar é uma palavra de que gosto muito; seu problema é que foi sequestrada para uso abusivo por evangélicos e agora toda vez que a uso lembro de algum pastor] 

Pois cada qual considera claras ideias que estão no mesmo grau de confusão que as suas. 
Proust

Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.
André Gide

Cuidado com a bondade dos maus. 
Esopo

O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos. 
Esopo

Quanto mais se estende o nosso conhecimento dos bons livros, mais se reduz o círculo dos homens cuja companhia nos é agradável. 
Feuerbach

Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade. 
Isócrates

Comunismo é uma religião igualzinha às outras. Pra quem acredita, não precisa explicação. Pra quem não acredita, não adianta explicação. 
Millôr Fernandes

A coisa principal na vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz. 
Do Talmude

Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa. Devemos ir à casa delas para ver como são. 
Goethe

Os homens são geralmente tão avaros do seu dinheiro como pródigos dos seus conselhos. 
Marquês de Maricá

Quem vive contente com nada possui todas as coisas. 
Boileau

Os covardes duram mais, mas vivem menos. 
Sofocleto

Quando um chato diz “eu vou embora”, que presença de espírito!
Millôr Fernandes

*

Lista Aos meus amigos, com amor. Coisas que eu gostaria que meus amigos soubessem e entendessem: 

1. Sou contra qualquer tipo de corporativismo, seja entre profissionais ou entre amigos. Se você errou, não defenderei seu erro. Se você me conta uma história do seu ponto de vista, eu vou perguntar se não podemos olhar do ponto de vista da outra pessoa. Não espere concordância.
2. Não sei consolar ninguém. Se me trouxer um problema, direi militarmente “erga-se, ande e vamos pensando em alguma coisa para resolver isso logo”. Não vou ficar às voltas com você e seu problema. Sou sargenta com os meus problemas, serei com os seus.
3. Está triste ou depressivo? A menos que seja porque perdeu uma perna, uma pessoa querida ou está sofrendo perseguição de agiotas, não sou boa companhia. Peça-me dinheiro, mas não me peça para ouvir lamúrias.
4. Sou sua amiga. Sua. Não tenho obrigação de gostar de quem está com você de forma acessória. Não me tornei amiga da sua esposa ou do seu marido, não me tornei amiga dos seus filhos ou dos seus outros amigos. Se sou sua amiga, é porque me interessei por você. Não me obrigue a gostar de outras pessoas ligadas a você. Vou respeitá-las, é claro. Mas não tenho que gostar delas. Tanto não sou amiga dessas pessoas que, se você morrer, eu não terei mais contato com elas.
5. Só porque às vezes eu sumo não quer dizer que não pense em você. Eu penso. Muito.
6. Se você se tornar uma pessoa idiota, nós romperemos nosso relacionamento como os casais rompem o deles.
7. Você não precisa ser debochado só porque eu sou debochada. Cada um tem uma personalidade e quem foge da sua sem ser para o lado da virtude geralmente não fica bem. Se se ofender com algum deboche meu, fale. Fale, não fique mudo, nem beiçudo, nem me dando indiretas. 

*

Modismos de escrita que mancham quem escreve

1. Abuso de palavras do momento. Ex: empoderamento, resiliência.
2. Recursos especiais pedantes. Ex: usar parênteses para fazer uma palavra se transformar em duas, como em “partidarismo: uma opção (i)moral?” ou “o misógino e seus (des)afetos”. Muito comum em trabalhos acadêmicos, o que explica por que a universidade está ao lado da autoajuda barata ao derrubar árvores para transformá-las em lixo paginado. 
3. Eufemismos fajutos. Ex: desconstrução.
4. Encheção de linguiça. Não ser objetivo para parecer erudito. Subjetividade não é nem de longe sinônimo de inteligência, pensamento galante ou coisa que o valha. Uma pessoa ignorante subjetiva é algumas vezes pior que uma ignorante prática no palavreado.
5. Recorrência periódica a comparações esdrúxulas desproporcionais. Ex: “Bolsonaro é Hitler”, “Cunha é Hitler”, “Alexandre de Moraes é Hitler”, “o golpe [sic] lembra a Alemanha nazista”, enfim, “todo mundo que eu não gosto é Hitler ou se assemelha ao nazismo”.

*

Quando tinha dúvidas se pedia a mão de sua prima Emma, Darwin escreveu uma lista com prós e contras sobre o casamento (essa lista está no livro de Usher). Eu, que estou chegando naquela fase, inclusive biológica, em que se deve decidir se filhos são bons ou não, também fiz minhas listas de prós e contras. Os contras vencem de maneira evidente, mas não vou fingir que não existam prós. 

Motivos para ter filhos

1. Porque sou uma pessoa com clara cartilha educacional. Se infelizmente casais sem planos educacionais têm filhos, por que eu que tenho um método e princípios não deveria tê-los?
2. Porque sou intransigente em relação ao respeito, coisa que os pais não exigem mais: uma criança deve cumprimentar os outros, uma criança não deve interromper adultos falando, uma criança não deve ser o centro das atenções, uma criança deve ter rotina e saber que na maior parte do tempo seus progenitores não estarão abertos a suas negociações. E em público uma criança deve entender o que seus pais querem somente pelo olhar. 
3. Porque crianças são divertidas. E crianças educadas são muito bonitinhas. 
4. Porque é maravilhoso ter uma autoridade saudável sobre alguém que você ama.
5. Porque é maravilhoso brincar com crianças de igual para igual, e eu sei fazer isso sem parecer uma adulta constrangida porque está tentando fazer uma girafinha falar com voz fanha. Aliás, brincar pra valer não me causa nenhum constrangimento.
6. Porque famílias bonitas me encantam. Famílias em que os membros são amigos, comem juntos, cozinham juntos, dão suporte uns aos outros, dividem as tarefas domésticas, celebram. Não estou falando de “o grupo da família” no Whatsapp. Estou falando de comunhão presencial.
7. Porque terei quem me acompanhe ao médico quando eu usar bengala. 

Motivos para não ter filhos

1. Porque gosto muito de mim mesma para ter que dividir minha atenção com outras pessoas.
2. Porque se me meto a fazer, quero fazer bem feito. Isso significa que eu não aceitaria ser uma mãe mais ou menos. Isso significa que a maternidade tomaria muito do meu tempo e da minha energia.
3. Porque eu gosto de silêncio. Gosto de tomar café (descafeinado) na janela e esperar aviões passarem, e eu sempre apreciei poder ouvir um avião passando ao longe e perceber que tudo o mais silencia. Gosto tanto do silêncio que gosto de estar em casa e ficar calada por horas: gosto de não ouvir nada, nem ninguém, inclusive minha própria voz.
4. Porque eu gosto de ir dormir muito tarde e acordar muito tarde. Porque gosto do ar das duas horas da madrugada. Ao mesmo tempo, sempre fiz questão de, por saúde e conforto, dormir minhas 8h diárias.
5. Porque não posso devolver meus filhos caso a experiência seja mais penosa do que gratificante.
6. Porque gosto de ficar por três horas, sem interrupção, lendo um livro.
7. Porque gosto muito de ler. Porque não quero ser uma pessoa do “não tenho tempo para”. 
8. Porque eu evito trazer quaisquer pessoas novas para meu ambiente familiar e também evito entrar em novos ambientes. Porque não preciso e não me farão bem novos relacionamentos íntimos forçados. Porque não quero ter que me envolver com os pais dos colegas dos meus filhos só porque nossos filhos são amigos. Porque me corroem obrigações sociais. 
9. Porque sou ansiosa, e mesmo com as coisas mais banais. Consegui trabalhar minha ansiedade e hoje estou calma. Mas para ela voltar basta um estalo, e um filho é muito mais que um estalo, é quase uma promessa de bomba.
10. Porque com meu senso de “a família é muito importante”, a possibilidade de que meus filhos não se tornassem amigos perenes seria muito ruim para meu coração (é por esse motivo que se eu tivesse filhos minha primeira opção seria dois meninos, a segunda opção seria duas meninas e só por último viriam um menino e uma menina: amizade perene entre irmãos de sexos diferentes são muito raras, tragicamente). 
11. Porque gosto de ser livre.

*

Lista de nomes bonitos. Se existisse uma profissão chamada "aconselhadora de nomes", eu gostaria de fazer bicos nela. Acho uma dádiva meus pais terem me dado um nome bonito, pois deve ser horrível não gostar do próprio nome. Só penso que não precisavam ter me dado um nome do meio, já que meu primeiro nome é forte o suficiente e meu sobrenome é incomum. Gosto do meu nome do meio, Raquel, mas o considero desnecessário. Minha lista pessoal de nomes bonitos é formada desde a minha infância (cogitei, em certa época pueril, que um filho meu poderia se chamar Barbaro): 

Barbara, Úrsula, Rosa, Suzana, Ângela, Ângelo, Walter, Wagner, Fausto, Frederico, Francis, Bóris, Glauco, Rubens.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mente vazia, oficina do diabo; ou Por que o tédio cria pautas delirantes


Se tivesse que descrever este século em uma palavra, ela seria: delírio. Foquemos no Ocidente: é no Ocidente que eu vivo, é do Ocidente que eu sei e são os problemas ocidentais que costumam me preocupar mais amiúde. Não vou me manter o ano inteiro calada sobre a África para somente falar dela e das questões tenebrosas que muitos de seus países vivem – problemas que a Acadêmicos do Tatuapé e o movimento de mentalidade coletiva “África Linda” parecem desconhecer – quando algum colega manifestar seu horror por atentados que afetam “gente branca do Ocidente”. Estou explicando tudo isso para que não se levantem para expressar que “isso que você está falando não se aplica ao Oriente Médio”, como se meus pontos tivessem que ser como o imperativo categórico e ter abrangência universal. Defini, mal e humanamente, um determinado espaço sobre o qual expressar uma opinião. Já espanto por um momentinho quem merecia ter osso na língua. 

Machismo existe. Mas o Ocidente nunca foi tão pouco machista quanto hoje. Os esforços feministas não se voltam somente ao que resta de machismo, mas a uma fantasia de mentes desocupadas que passam à doença da paranoia: tudo é machismo. Se tudo é machismo, nada é machismo, e a existência deveria seguir como se navegássemos numa fluida maionese relativista – isso aí que aconteceu com você pode ser machismo, pode não ser, siga. Não é a experiência que vivemos, todavia. Impedida de seguir porque cada microagressão merece celeuma, a feminista padrão fará, diariamente, inúmeras paradas em sua jornada para apontar vestígios de violência masculina. É caso clínico: o paranoico não consegue ser feliz. Livre como é e filha da geração menos machista que já existiu, a feminista da terceira onda, que criou um efeito – sua fúria – e agora precisa encontrar as causas para seu novo entretenimento “político”, manterá uma cartilha. A cartilha da mulher revoltada entediada do século XXI: 

1. Nada melhor para afastar o tédio do que uma adversidade, que pode ser um câncer ou uma revolta. Na falta de um câncer por enquanto, revolte-se. O primeiro passo para um bom processo de revolta é buscar um inimigo específico. O problema é ele. Seu problema é ele. Se as coisas dão errado, é por causa dele. Esse inimigo é o homem. Aprenda com as grandes figuras que arrastaram multidões: muitas delas tinham um inimigo específico a combater. O povo quer objetividade, quer o nome dos bois, sejam os bois os judeus, os burgueses, os kulaks, os brancos, os negros, os norte-americanos ou os homens. A partir disso, você arranjou uma ocupação. Sua vida vai passar a fazer mais sentido com esse engajamento. Isso sem esquecer de mencionar que é sempre reconfortante para a carência participar de um grupinho. 

2. Se o inimigo fizer contra você ou contra outra mulher qualquer coisa desagradável, exponha-o em sua condição de inimigo. Não proceda ao pensamento lógico do “e alguém do meu lado poderia fazer o mesmo?” ou do “isso é mesmo machista ou apenas humano?” quando o inimigo te interrompe numa reunião, diz que você fica melhor de cabelo comprido ou pede seu telefone e não liga. Empatia é poupar a mulher e massacrar o inimigo quando eles procedem da mesmíssima forma. Um movimento não é nada sem corporativismo. 

3. Mulheres que falham ao expor condutas típicas do inimigo devem ser vítimas de pena, não de ódio, porque não é culpa delas que suas ações tenham sido moldadas por uma sociedade patriarcal. Se uma mulher errar, a culpa é do inimigo também, porque a mulher que erra teve seu arbítrio sequestrado pelo espírito social machista. 

4. Não junte energia para destruir somente o monstro real, como a violência doméstica e o clitóris mutilado. Afinal, você não apanha do seu namorado e seus pais nunca cogitaram arrancar seu clitóris. Se você se ativer somente a esses tópicos, a pauta do movimento ficará enxuta, sem graça e não haverá motivação. Veja, as pessoas gostam de lutar por causas que as atinjam diretamente. Que interesse a universitária classe média terá no feminismo se ele só disser respeito a coisas que não a atingem? Crie demônios. Fale para essa universitária que aquele rapaz que a seduziu numa festa e diante de uma negativa provocou com “então vou ali no banheiro bater uma pensando em você” é machista e precisa ser contestado. Forje estatísticas, como aquela que assegura que mulheres ganham 30% menos que homens, e extrapole pesquisas, colocando “agressão verbal” no grande balaio da “agressão” e insinuando que esse é um problema feminista em vez de ser um problema comportamental sobre agressores verbais de modo geral. 

5. Critique a sexualização exagerada da mulher. Critique a exposição de nudez sedutora na Playboy. Critique as posições que heroínas padronizadas fazem em quadrinhos e filmes, numa clara analogia sexual e vontade de ser desejada. Depois disso, publique suas próprias fotos seminua, com bumbum empinado, seios à mostra abaixo de um batom vermelhíssimo borrado. Se alguém perguntar se isso que você faz também não é um tipo de esperança de aprovação sexual, diga que está “empoderando sexualmente belezas diferentes”. Não tenha medo da contradição. Não tenha medo de parecer que você só criticava a exposição de outras mulheres porque esse doutrinamento sexual impedia que você fosse o tipo de mulher desejada. Não tenha medo de parecer invejosa. 

6. Muitas de nós, feministas da terceira onda, entramos para o movimento após problemas pequenos com homens: eles não compareciam, não se interessavam por nós, deixaram-nos por outra, faziam-nos de trouxa. O feminismo foi nosso divã terapêutico, foi a almofada que amorteceu nossa queda. Aproveite para aliciar outras mulheres com esse perfil.

7. Por outro lado, não podemos montar um movimento que seja conhecido como clube das fracassadas ou das feias. Por isso, atente: a bonita, a padrão, a que está feliz no casamento precisam descobrir que vivem num mundo muito machista. O inimigo vai ficar louco quando souber que as belas que ele explorava até pouco tempo agora estão politizadas e indisponíveis. Toda mulher precisa de feminismo porque toda mulher é vítima de machismo. 

8. Você tem a liberdade de continuar se torturando para ficar bonita. Caso questionem seu ritual e seu salto altíssimo, responda: “eu me produzo para mim mesma”. Se o engraçadinho retrucar com um “então você deve ficar assim dentro de casa também”, aponte o machismo da fala e diga “eu é que não vou bater palma para homem dançar”.

9. Não há espaço para a desocupação quando você adentra esse movimento, porque na falta de buracos para tapar nós mesmas cavamos a terra e depois repomos o que for necessário. Os publicitários não falam tanto sobre “criar a demanda por um produto”? Nós criamos demandas por problemas. É por isso que em países tidos como “os mais igualitários do mundo”, como a Noruega e a Suécia, há feminismo combatendo o patriarcado local todos os dias. Um problema conhecido que o feminismo de lá criou para combater? Homens que urinam em pé. Ora, se mulheres não podem urinar em pé, por que homens fazem isso? É um tipo de humilhação. Outro: homens sem camisa. Enquanto mulheres não puderem andar sem camisa, #freethenipple, homens não devem poder. Se alguém disser que “mulheres de busto pelado não são a mesma coisa que homens de busto pelado assim como tocar no busto de um homem não gera nada mas tocar no busto de uma mulher é assédio”, aponte o machismo da fala. Não somos obrigadas a ter respostas coerentes para tudo. Se não souber desclassificar o argumento do adversário, desclassifique o adversário. A menos que seja uma mulher. Só desclassifique uma mulher se você for negra e ela for branca.

10. É uma pena que nem metade das mulheres é engajada. Como falar e lutar por elas se somos poucas no movimento? Fazendo muito barulho, um barulho tão grande que faça meia dúzia parecer oitenta. Obrigando, pelo aviltamento, colunistas, jornalistas e artistas a pedirem perdão quando disserem coisas que não se aplicam a nossa visão de mundo. Vamos gritar, vamos nos reunir para depreciar uma figura pública ou página por micromotivos. Há machismo em tudo. Quem não vê precisa de uma troca de lentes.

11. E lembre-se: quem não dramatiza não coopta. É preciso fazer com que as mulheres se sintam numa Idade Média no que diz respeito a direitos. 

*

Nunca consegui respeitar os entediados. Considero o tédio uma forma de desrespeito com a vida. Se eu pudesse, compraria o tempo das pessoas – há tantos entediados acumuladores de dinheiro sob o colchão que o preço por hora seria, suspeito, barato – porque não há vida que chegue para que eu possa conhecer tudo o que me excita. Acho que é pelo mesmo motivo que nunca tive paciência para depressivos, já que em muitos casos a depressão é apenas uma extensão ou fase avançada do tédio, um “aprimoramento” de quem não conseguiu se interessar por muitos assuntos num universo com milhões de possibilidades. Mas fico em dúvida se desprezo mais os entediados perenes ou os entediados que criaram sarna para se coçar visando à fuga de uma vida vazia. Esse é o caso do movimento feminista moderno. Parte da gritaria começou nos EUA. Mesmo os autoproclamados maiores esquerdistas acabam, sem perceber, importando pautas americanas a cada temporada. O feminismo ocidental deixou de ser sobre direitos reprodutivos, violência doméstica e imposição comportamental de gênero para passar a versar sobre o euzinho de cada mulher que gostaria de mais visibilidade. Práticas que podiam ser erradas no âmbito comum – você de qualquer sexo impedir seu interlocutor de terminar uma sentença porque acha que o que tem para falar é melhor e mais importante – se tornaram erradas na guerra contra o machismo. O que era problema de todos se tornou um problema feminista, piorado e amesquinhado. No clube onde meninos não entram, as reuniões são sobre detalhes, minúcias, tons de fala e interpretação de entrelinhas. Poderia ser o clube do bordado psicanalítico, mas não é assim gracioso porque gera mal-estar e ódio despropositado. Na geração mais calma que o lado de cá deste planeta já viu, pautas revoltosas apareceram para espantar o tédio de não se ter mais que fugir de predadores, escapar de assassinos, procurar o que comer e remoer guerras entre nações. Nunca as mulheres tiveram tanta liberdade e nunca as mulheres reivindicaram tanta liberdade e denunciaram tanta opressão sobre si. O feminismo não é sobre mulheres sofredoras, mas sobre todas as mulheres, mesmo as mais privilegiadas, que se consideram vítimas de machismo. A importância da causa se dilui quando ela deixa de ser sobre quem necessita para atender a todas, já que todas se pensam necessitadas. O entediado é desrespeitoso com a vida. O entediado que procura sarna para se coçar é desrespeitoso com quem de fato sofre de sarna. 

*

Mas os movimentos delirantes brotados do tédio não se encerram no feminismo. Quem acompanha as barbaridades que o movimento negro anda dizendo e defendendo sabe quão longe pode ir a vontade de arranjar um bode expiatório para encher de culpa e combater. 

Racismo existe. E é claro que não aparece só pela autodeclaração “sou racista”. Há, inclusive, o racismo bem-intencionado, que na minha opinião não deixa de ser racismo só porque está no inconsciente, mas não merece linchamento como a Ku Klux Klan, pois tudo na vida precisa de avaliação graduada. Gisele Bündchen publicou uma foto meditativa com a cabeça encostada na cabeça de uma modelo negra (desconheço o nome). A legenda: “é hora de acabar com todas as formas de discriminação”. Nessa hora me lembrei de uma cena excelente do filme Jackie Brown (1997), do Tarantino, em que Ordell (Samuel L. Jackson), negro, vai ao escritório de Max (Robert Forster), branco, vê uma foto na parede em que Max está abraçado simpaticamente a um negão e pergunta, sardonicamente: “aposto que foi você que sugeriu que tirassem essa foto, huh?”. Porque é lindo mostrar que não se é racista, é lindo o fetiche de aparecer numa foto abraçado a um negro. Negro é o novo Mickey: todo mundo quer abraçar e tirar foto com ele para mostrar aos outros. Estamos no meio de uma campanha abolicionista para Gisele fazer uma foto com uma legenda dessas? Não estamos. Então a legenda é patética e é o que qualquer negro pode chamar de “branquice”. Não sei muito bem, ao mesmo tempo, qual é a nobreza real de você pedir para tirar uma foto com uma pessoa de que goste e na legenda ressaltar a vulnerabilidade dela diante da sociedade. Você chamaria para uma foto seu colega de trabalho que usa cadeira de rodas por causa de uma deficiência nas pernas e depois colocaria na legenda “vamos respeitar pessoas com deficiência”? Que situação tola para você e que situação vexatória para seu colega. Se peço para minha mãe, negra, uma foto dessas e depois escrevo na legenda o mesmo que Gisele, só vejo dois cenários de reação: bronca ou desapontamento. Não porque minha mãe seja uma ativista (nunca participou de movimento nenhum, aliás), mas porque ela entende como soa uma frase afetada dessas. Soa como “eu sendo bacana com esse coitado aqui, ó”, soa como propaganda política. Nossa relação é natural; passei a infância vendo minha mãe defender a expressão “preta”, comprar bonecas pretas para mim e corrigir qualquer um que chamasse um preto de “moreno”. Não tenho que usá-la para posar de defensora dos negros ou plural à United Colors of Benetton. 

Existe racismo quando negros são pagos para fazer papéis costumeiramente atribuídos a negros. É fácil um negro ser chamado para fazer papel de escravo num dos inúmeros filmes sobre escravidão feitos nos EUA ou ser escalado para uma película sobre pobreza. Novidade seria um negro no papel principal de um filme do Nolan, do Scorsese ou interpretando um herói – um personagem que não esteja obrigatoriamente vinculado à cor de sua pele. Novidade foi quando Will Smith começou a protagonizar filmes em que sua cor, naturalizada, não foi mencionada na trama. Com isso não estou defendendo o apelo “Oscar's so white”, que gerou dúvida sobre os premiados deste ano: foram premiados porque os avaliadores consideraram que mereceram de fato a estatueta ou porque tiveram medo de uma nova onda de boicote ao Oscar depois da reivindicação do ano anterior? Não é uma baita coincidência que no ano seguinte ao apelo metade dos atores vencedores fossem negros e que o filme premiado seja uma história cheia de personagens negros? É o tipo de pulga que ficará atrás da orelha de quem solicitou cotas em premiações cinematográficas. 

Também é prova de racismo, mesmo que inconsciente, quando alguém que dirige uma publicidade com pessoas pede para que arranjem um negro em nome da pluralidade da propaganda. Se a negritude estivesse naturalizada, você poderia encontrar comerciais com cinco pessoas brancas escolhidas aleatoriamente e outro comercial somente com pessoas negras, ou com três pessoas negras e duas brancas. Não, o padrão dos comerciais é: muita gente branca, algum negro, se der algum oriental. Ou família negra, como é comum em comerciais vinculados ao governo, empresas públicas, etc. Em suma: enquanto você tiver que se esforçar para colocar um negro na sua produção, enquanto você tiver que teorizar a frase “precisamos de negros aqui para pluralizar”, estamos diante de um sintoma de uma sociedade racista que ainda não naturalizou essa cor de pele. 

Naturalizemos, eu digo. A voz delirante do movimento negro diz “segreguemos”. Anos de miscigenação nas principais regiões do país, anos de ouvido de penico nas regiões afastadas com imigração branca preconceituosa e agora o movimento negro quer ser como esses colonos: “segreguem, criemos nossa cultura particular bem delimitada, separemo-nos dos brancos, miscigenação uma ova”. Não basta que esses teóricos do absurdo, que devem execrar Mandela e o demasiadamente bonzinho Martin Luther King Jr., queiram determinar com quem negros devem casar, o que devem comer, livros de quem devem ler, que tipo de tratamento reservar a um branco: agora é necessário criar uma cultura negra arrogante que decide quem entra e quem não entra no círculo dos ornamentos. O caso “turbante na cabeça de uma branca com câncer” foi o ápice da presunção. As culturas são intercambiáveis desde sempre – religiões se copiam, alimentos daqui permutam com os de lá, indumentárias evoluem baseadas no que se viu nas vestes do vizinho, idiomas se cruzam, pessoas de diferentes culturas se cruzam –, mas o movimento negro decidiu que o turbante é dos negros. Há povos negros na África que não usam turbante: se sua ascendência for desse povo e você usar turbante, está praticando apropriação cultural? Há povos não-negros que usam turbante. O turbante é adereço de inúmeras culturas não-negras há séculos. Que birra é essa que faz com que negros no Brasil pensem que têm o direito de apontar alguém na rua e dizer que essa pessoa não pode usar um pano na cabeça por causa da cor de pele dela? Esse revanchismo que imita estratégias passadas de brancos que discriminavam negros – apropriação de uma cultura discriminatória? – só pode ser chamado de retrocesso. “Mas teve o texto da Eliane Brum...” Sim, um texto que não apela à lógica, mas ao sentimentalismo, com ar de professora querida que explica à criança raivosa por que ela está errada e precisa se acalmar e entender que os negros foram explorados e agora têm adereços que representam sua identidade. Um texto de quem se sente culpada por ser branca e admite que tudo que pode fazer para se redimir pelos crimes que não cometeu – pior do que negros culparem brancos de hoje pela escravidão é brancos de hoje se sentirem responsáveis pela escravidão – é “ouvir o que as negras têm a dizer”. Estamos ouvindo. Temos que acatar? Por que eu deveria tratar esse item em particular como sagrado enquanto quase todos os outros adereços das outras culturas permanecem intercambiáveis? Atitudes comigo-ninguém-pode não são razoáveis. Apelo ao sentimento puro e simples não é razoável. Machado de Assis escreveu: “lágrimas não são argumentos”. 

Enquanto isso, no mundo onde “às minorias tudo é permitido e elas criam as regras”, quando negros se “apropriam” de elementos culturais e até biológicos da “cultura branca” há passe livre. Se uma mulher negra alisa e pinta de loiro o próprio cabelo, isso é o quê? Por que a regra de não intercambiar com outros clubinhos não se aplica aqui? “O que é nosso é nosso, mas o que é de vocês também é nosso”? Sejam pelo menos coerentes; ou vocês protegem essa pretensa cultura pura negra de qualquer mácula de opressores ou entram no jogo com todo mundo, sem usar a conversa sobre escravidão como moeda de troca para tudo, como um persistente trauma, como uma insistente apelação. Nem que me esforçasse num banana exercício de alteridade eu conseguiria me emocionar com o texto da Eliane Brum, justamente porque sei que quem teve a audácia de abordar a moça branca de turbante não fez isso por “amor à África”, mas por arrogância, mesquinhez e vaidade. É claro que no mundo dos ornamentos há disputas e risadinhas pelas costas de quem está usando um item “do jeito errado” ou “sem poder”, mas essa postura se restringia à fútil esfera dos cochichos e das lamentáveis rodas de mulher. Agora a coisa é institucionalizada, vira artigo de jornal em defesa e logo vai ser tema de doutorado em uma das dezenas de especializações sobre minorias disponíveis em universidades públicas. Na era do tédio, qualquer firula vira caso. E delírios paranoides de movimentos desenvolvidos para espantar o marasmo são vistos como “convicção de ideias sobre microassuntos”. 

*


Eu me pergunto: se vivêssemos numa época com mais o que fazer, utilizaríamos nosso pouco tempo somente para o essencial? Nessa hipótese, talvez o feminismo se ocupasse em resgatar mulheres que sofrem em vez de almofadar a sala de terapia para mimadas egocêntricas, e talvez o movimento negro tentasse enriquecer seus irmãos na periferia em vez de se preocupar em problematizar o pedaço de pano que Simone de Beauvoir usava em sua cabeça branca. Há sutilezas no mundo, e há disfunções sutis, mas essa sociedade não está sabendo diferenciar sutileza de delírio, problema real de paranoia. Como será viver sob a constante pressão imaginária de um entorno opressor? Como será se sentir num completo desânimo em meio a facilidades e ansiar criar uma realidade paralela onde há centenas de questões que me atingem e precisam ser resolvidas? Rosa Luxemburgo dizia que quem não se mexe não percebe os grilhões que o prendem, mas há pessoas que caminham maratonas para tentar provar que em algum momento seus pés ficarão presos pelos grilhões que acreditam possuir. Perde-se tempo e vigor com questões abstratas sobre si enquanto questões reais sobre os outros oprimem e matam. Culpa de três dos quatro pecados principais deste século: tédio, carência e vaidade (o quarto é a inveja). Pecados que, não é megalomania dizer, explicam quase tudo. É uma pena. Tínhamos tudo para dar certo, mas parece que a tranquilidade enjoa. O diabo faz a festa.