segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Explicando este blog

Olá, leitores. Este é um blog novo, mas é quase uma continuação do antigo Barbara Maidel Page. Encerrei-o por dois motivos: primeiro, porque queria um ar refrescado, cores novas, criação de tags diferentes. Alguns leitores me acompanham há muitos anos – declaradamente ou às escondidas – e sabem que já tive pelo menos uns três blogs, que acabei fechando para visitação. Cada mudança de blog é uma vontade de renovação, apesar de eu continuar a mesma schopenhaueriana de sempre (coisa que pronuncio como um autoelogio). Segundo, porque fui invadida por um tipo de visualizador spam. Todos os dias, algum servidor nos EUA visita, automaticamente, 30 ou 40 vezes cada postagem do meu blog. Fui de vinte/trinta visualizações diárias para centenas. Parece coisa de quem fatura com visualizações, mas isso não tem nada a ver comigo, pois meu blog atingia um público restrito e nunca o liberei para gerar renda com anúncios. Se alguém cadastrou minha página num site que gera visualizações automáticas achando que me fazia um favor ou um trote, não atingiu seu objetivo. Vejo de onde vêm as visualizações e obviamente sei que não são reais. (Aos que me leem de forma espiã: não se preocupem, não tenho a capacidade de rastreá-los; podem continuar me stalkeando e depois fingindo que não sabem o que se passa na minha vida e na sala das minhas opiniões.)

O Barbara Maidel Page continuará aberto pelo simples motivo de eu gostar muito de alguns textos que estão lá. De outros textos não gosto tanto e sempre penso em fazer consertos pontuais, mas acabo concluindo que um blog não é como um livro que precisa de edições atualizadas. O que escrevi era pertinente com o que eu pensava na época em que publiquei. Se penso de forma diferente sobre certo assunto, devo escrever um novo texto sobre ele em vez de mexer num texto antigo que manterá sua data da época. Se eu corrigir um texto de março de 2015, por exemplo, e a data se mantiver a mesma, é quase como se eu estivesse me fraudando. Ou excluo a postagem, ou deixo como está.

Dentre alguns dos textos de que gosto do blog antigo estão:

Editoras – Breves comentários sobre editoras confiáveis e editoras mercenárias que estão no mercado. Infelizmente há pessoas inteligentes que ainda não sabem avaliar o valor de compra de uma obra nova de acordo com a editora que a publica. Foi uma honra ver que a Denise Bottmann, citada na postagem, recomendou o texto em seu blog Não Gosto de Plágio.

O que Deus tem a ver com isso – Sobre Deus, evolução (das espécies) e veganismo. O que eu mais gosto desse texto é da minha luz para uma explicação (que enquanto eu não encontrar em nenhum artigo ou obra anterior considerarei original) sobre a incompatibilidade entre a crença em Deus e a aceitação da evolução por um motivo especial: quem tenta fundir as duas ideias – geralmente quem tem medo de não ser amparado por forças místicas mas ao mesmo tempo não quer passar por antiquado que nega a ciência – precisa admitir que um pai que viraria apenas pó gerou um filho que viraria um ser com alma graças ao dedo de Deus atuando sobre essa “evolução guiada”. Ainda quero escrever melhor sobre esse assunto. Nunca é cansativo ler, falar, escrever, propagar as belas histórias da evolução. Só de olhar aquela imagem sobre caracteres homólogos já sinto ímpeto de participar de cruzadas darwinistas com Richard Dawkins.

A idade do serrote – Murilo Mendes – Excertos de um dos meus livros de literatura favoritos. Livro lindo, sentimental, uma valsa. Sobre meu comentário que antecede as passagens copiadas do livro de Murilo Mendes, mantenho minha opinião de acordo com a máxima romana: “Livros ou filhos”. Se isso já fazia sentido num passado muito remoto, hoje em dia é quase lei: com pais que trabalham fora e gostam de ler, colocar crianças dentro de casa é matar o amor pela leitura praticado do jeito certo. Quem tem filhos lê pouco, ou muito menos do que gostaria. Quando lê muito, é porque está deixando os filhos de lado. Muitos dos grandes homens que a humanidade já criou tiveram filhos e conseguiram seguir com suas vidas intelectuais – porque suas mulheres, irmãs e babás cuidavam diariamente de suas crianças. Isso ajuda a explicar por que homens intelectuais não se limitavam na busca do conhecimento ao colocar muitos rebentos no mundo e mulheres intelectuais optaram por não ter filhos – ou ter um filho só. As poucas intelectuais que arriscaram ter filhos e os preteriram em benefício de si mesmas correram o risco de ver suas crianças crescendo e publicando livros e entrevistas escandalosas: “mamãe nunca foi capaz de dar afeto sincero para nós”, “essa senhora que se convencionou que eu chamasse de 'mãe' sempre me empurrou para a casa de avós e babás”, “ela se fechava no escritório por horas com suas leituras enquanto aprendíamos a cozinhar batatas sozinhos”.

Montando uma biblioteca particular – Uma casa deve ser um lar. E um lar que se preze possui uma biblioteca. Nessa postagem, derramo minhas lamúrias sobre casas horrendas (porque sem vida, sem personalidade, montadas com avareza ou com vistas a atender algum modismo fajuto) e dou conselhos sobre como montar uma biblioteca pessoal. É uma das postagens mais lidas.

O paradoxo da igualdade de gênero – Homens e mulheres são diferentes. E quem diz que isso se deve somente à repressão cultural deve voltar aos bancos escolares para as aulas de ciências. Se hormônios moldam nosso corpo, nossos pelos, a suavidade ou rudeza de nossos traços, não há por que negar que moldam também nossa personalidade. Mesmo assim, a biologia não é uma prisão, dizem os cientistas, que assumem que somos biologia + cultura. Já os culturalistas dizem que tudo que somos vem da cultura… É uma triste ignorância que encontra eco tanto nos centros acadêmicos tomados pelo esquerdismo quanto entre opinadores de redes sociais que se guiam pelo que dizem os astros.

Movimentos que criam monstros – Um apanhado de absurdos que compilei das falas reais de justiceiros sociais, também conhecidos como SJW (social justice warrior). Parece piada. Mas não é. Quando calhou de ser piada – algum imenso gozador criou um perfil falso para proliferar opiniões non sense na internet –, mesmo assim se tornou sério pela quantidade de curtidas e incentivos que ganhou. Foi o que aconteceu quando uma usuária falsa publicou no maior grupo sobre veganismo do Facebook (que é um grupo medonho: causa-me asco imaginar que muita gente nova vai parar lá e vai achar que aquilo é veganismo) que era desrespeitoso com os negros, “que inventaram a feijoada”, que veganos criassem uma feijoada alternativa sem todos os itens que a receita negra ordenava. Nesse caso, os veganos deveriam dar outro nome à sua pretensa feijoada para não ofender os negros. Piada forçada? Sem dúvida. Manifestações de apoio? Mais de cem. Por mexer com gente histérica e autoritária, também se tornou uma das postagens mais lidas e compartilhadas do blog.

Trabalhando em uma biblioteca – Em 2015, saí da biblioteca do IFSC para assumir um cargo em São Paulo. E saí com dor, porque ajudei a construir a biblioteca que deixei para trás e bibliotecas costumam ser lugares ótimos para se trabalhar quando não se é rebaixado por assuntos humanos desagradáveis (ninguém deixa uma biblioteca porque “estava incomodado com o ar petulante dos livros” ou porque “o quinto livro da segunda prateleira critica meu estilo de vida”). Com a experiência, pude reunir uma porção de fatos bizarros que vivi atrás do balcão de atendimento. Compilei-os nessa postagem. 

A biblioteca esquecida de Hitler – Timothy W. Ryback
– Resenha sobre o referido livro. Mais elogio do que critico. Critico, isso sim, uma interpretação que Ryback faz da leitura de Hitler sobre Schopenhauer. Eu havia dito que passaria a anotar nos livros a data em que os li para que “não me perdesse em minha história como leitora”. Acabei não fazendo isso porque criei um diário de leituras: agora anoto quanto comecei a ler tal livro e quando o terminei. Parece serelepe no momento, mas daqui a cinco ou dez anos, quando eu estiver revivendo o que fiz da minha vida, agradecerei a mim mesma por ter feito essas anotações. Gostar de nós mesmos é fazer isso de ficar brincando com as próprias coisinhas e fazendo rabiscos que causarão ternura no futuro. Eu me arrependo muito de não ter guardado meus cadernos de desenho da infância.

Gordos e gordofobia – Uma crítica aos gordos que se exibem de maneira afetada para nos convencer de que são felizes (é claro que é possível ser gordo e feliz – quando se propagandeia isso em demasia é que começa a desconfiança sobre uma possível felicidade forjada), aos obesos-exceção que acham que seus casos muito particulares de exames de sangue “normais” provam que é possível ser obeso e saudável, e também aos gordofóbicos, que costumam ser ressentidos e incomodados com quem não tem sua preocupação em se adaptar ao que a sociedade determinou como “aceitável” (gordofóbicos muitas vezes pensam: “como eu, magro, sou infeliz e esse outsider de 140 quilos ousa ser feliz?”). Felicidade incomoda. Principalmente quando alguém se atreve a ser feliz fora dos padrões.

Quem convidar para a festa e quem expulsar dela – Eu penso que a minha vida particular é uma festa. Eu me divirto, eu choro, eu bebo, eu danço, eu fico batendo os pés na beira da piscina. Como essa festa é particular e sobre mim, tenho todo o direito de escolher quem convidar para participar dela. Não escolhemos nossos parentes, nossos colegas de faculdade, nossos professores, nossos colegas de trabalho, mas escolhemos quem pode ou não participar da festa de nossas vidas, quem frequentará nossa casa, quem chamaremos espontaneamente e com muito gosto para tomar um Cosmopolitan na madrugada. Lanço os tipos que devem ser vetados de qualquer intimidade para que não estraguem nossa festa: o exibido, o invejoso, o umbigo tagarela, o provocador, o das indiretas, o que se recusa a aprender e o fútil. Parece fácil barrar essas figuras, mas não é, principalmente porque elas não se veem como são. Às vezes elas tentam se vender para nós como uma coisa, mas são o oposto (por isso fazem questão de fazer declarações bonitas sobre si…). A tarefa é árdua na hora de preparar a lista de convidados, mas necessária: se deixar entrar na festa “o das indiretas”, por exemplo, ele vai atormentar a sua vida e estragar o sabor da Piña Colada. Barre-o enquanto é tempo, porque depois que o sujeito se acha íntimo você só conseguirá arrancá-lo do palco chamando os seguranças, criando uma cena grosseira ou puxando uma arma. E se não sobrar quase ninguém, lembre-se que Schopenhauer dizia que para cada homem de valor há uns cem idiotas.

Da utilidade de rabiscar livros – Texto recente em que defendo que livros bons sejam usados como material de consumo em vez de itens decorativos. O genuíno amor ao conhecimento – e o amor à prática de resgatar o conhecimento quando necessário – pede que se rabisque um livro em nome de sua compreensão e uso posterior. Quem lê doze bons livros por ano chegará ao mês de dezembro sem lembrar muito bem de várias passagens do livro lido em janeiro: seu rabisco o salvará da insânia. Para quem não tem amor ao conhecimento ou acha que um livro na sala é como uma taça na estante, esses conselhos são vãos: um livro que só serve para passar o tempo de alguém poderia muito bem ser substituído por um jogo de cartas ou um seriado vazio.

*

Quanto a este blog, permanecerá com a regra do outro: com a seção de comentários fechada. Vivemos num tempo em que qualquer pacóvio pensa que sua opinião é relevante para o mundo. Não é. Quem não gosta do que lê aqui, que vá ler outra coisa ou monte seu próprio blog. Não tenho interesse em palestras discordantes. Sei que erro em algumas colocações, sei que há dias em que escrevo como se estivesse no meio da fúria de um redemoinho, mas prefiro me corrigir sozinha ou com os meus amigos (aqueles que foram convidados para a festa da minha vida). Aos que pensam que fechando a seção de comentários me livro somente das críticas, enganam-se: livro-me também dos elogios que criam obrigações. Disse Freud: “Contra os ataques um homem pode se defender; contra os elogios ele não pode fazer nada.” Alguém que elogia seu texto na internet muitas vezes quer que você agradeça o elogio, que comece uma amizade ou que você leia as coisas dele também como forma de retribuição por você ter recebido um elogio dele. Estou fora desse tipo de pendência e tenho horror a gente carente. Carência só é bonita em cachorro. Também acho ruim ter que me policiar quinhentas vezes para não ofender os leitores fiéis que se mostram em caixas de comentários e fazem cobranças. Os puxa-sacos cobram a dívida de seus encantos (muitas vezes nem precisam cobrar porque a maioria das pessoas cai na cilada de ficar hipnotizada por alguém que finja as adorar.) Um conselho para a vida: você não é obrigado a comentar sobre tudo que lê. Pode apenas ler sem forçar ninguém a estar a par da sua existência cheia de “grandes opiniões”.

Aos que me leem com as melhores intenções e com o coração suave, aquele abraço e um 2017 muito belo e virtuoso.


*Imagem de capa: casinhas cinzas em Edimburgo - Escócia
Aqui embaixo: um das centenas de gnomos espalhados pela cidade polonesa de Wroclav (Breslávia, em português)