sexta-feira, 8 de junho de 2018

Povo é bicho tolo

Tópicos para esse título:

1. Ficamos reféns do que foi principalmente locaute (“greve de patrões”). De cada 10 caminhões no país, 7 são de transportadoras, ou seja, o caminhoneiro que dirige costuma não ser dono do próprio caminhão. (Se não sabe o que fazer com essas informações, volte várias casas e questione seu professor sobre a escola ser um depósito de crianças.) Começavam a escassear remédios, combustíveis, alimentos (milhares de animais de criação – esses cadáveres que vocês põem à mesa enquanto fingem mal que têm uma vida bonita – morreram de fome mesmo após episódios de canibalismo). Enquanto isso, no lustre do castelo popular, três agrupamentos bisonhos manifestaram aquilo que infelizmente é de graça: opiniões. 

O primeiro agrupamento, do “cidadão que não aguenta mais”, disse que “finalmente alguém protesta nesse país”. Vê Faustão, leva uma hora para dar banho de mangueira no carro, gosta de miçanga nas Havaianas, reza antes de dormir, acha que os filhos e os netos fazem coisas de cientista que nenhum filho e neto de outrem já fez, espanta o tédio com séries e novelas sem fim (mas teme a morte: não é bizarro que muitas vezes os que mais temem a morte levem as vidas mais entediantes? O que alguém com uma vida entediante, que já é um tipo de morte, tem a perder morrendo? Tyler Durden neles), explica seu lixo pessoal pelo signo (ou pelo ascendente, ou pela Lua, etc., até que a superstição se justifique), quer medalha por ter doado uma sacolada para a campanha do agasalho, inveja quem tem mais coisas materiais, mais beleza, parceiro sintonizado e não aguenta mais

O segundo agrupamento, dos esquerdosos delirantes, forçou a politização do caminhoneiro como um pedido de “fora, Temer”. Devem viver boa parte do ano no alto de montanhas à base de fotossíntese, o que explica cogitar que o caminhoneiro é essa consciência política toda. É bom lembrar que atrás de todo manifesto há uma massa desnorteada que é empurrada para algo que não sabe bem do que se trata: o corpanzil caminhoneiro parado nas estradas não escapa disso. Mas o esquerdista é um dúbio que oscila entre o romântico e a vontade de sangue, e no episódio aqui referido decidiu usar sua faceta de apreciador da criação fantástica. 

O terceiro agrupamento, do “somos um caso a ser estudado”, partiu de uma direita estranha que ora quer livre mercado, ora aplaude o circo pegando fogo ao redor de ególatras que estavam, geralmente em nome de seus patrões, pedindo subsídios do Estado. Nada está tão ruim que não possa ficar pior: o agrupamento entrou em êxtase quando viu a primeira bandeira clamando intervenção militar, pois mesmo quando não apoia esse pedido do retorno da tortura e da execução, o direitoso gosta de ver quem exija isso só para irritar esquerdosos – só mais um sintoma para justificar que a adolescência esteja cada vez mais longa. 

Não entrarei no mérito da violência promovida por alguns “manifestantes”. Foi medonho, mas pontual considerando o cenário todo – movimentos não podem ser deslegitimados por completo porque um ou outro irresponsável age conforme mandam as vozes selvagens que saem dos personagens sentados em seus ombros. Ocorre apenas que o motim caminhoneiro não foi nada disso que os três agrupamentos tentaram fazer pegar: não foi lindo, não foi mágico, não foi patriótico, não foi pela queda do presidente, não foi pelos tributos que toda a população paga. “87% da população apoia protesto, mas não quer pagar a conta”. Que adjetivo senão tolo seria melhor para um povo que acredita em Estado máximo com imposto mínimo, almoço grátis e chuva de maná (ou diesel) promovida pelos céus? Tolo é um adjetivo até meigo. A palavra melhor é outra, mas estou evitando usá-la porque é especista – desrespeita um bichinho que não merece se misturar a essa gentalha.

2. Os polos políticos estão em tal desespero para cooptar pessoas à causa que tentaram fazer uma compra rápida do protesto caminhoneiro: “são muitos, estão afetando o país, os jornais mostram preocupação – vamos dizer que são gente nossa”. Sem a CUT e a diária + lanche, a esquerda não conseguiria colocar muita gente na rua para um protesto alucinado e febril. Por que não pegar um atalho e apropriar a greve dos caminhoneiros como uma revolta de motivação esquerdista? “Até o caminhoneiro não aguenta mais o mordomo!” Sem brucutu massa de manobra, delivery de armas e jovens viciados em videogame, a direita também não conseguiria um efeito chocante na sociedade. Por que não dizer “esse protesto é meu protesto”, “#somostodoscaminhoneiros” e fazer daquelas panças em fúria (antes do almoço – depois do almoço uma soneca e voltamos às 15h) uma representação do povo cansado da carga tributária?

3. Terminei de ver a ótima série documental Wild wild country, do Netflix, sobre o guru indiano Rajneesh e sua seita. Não há nada de espantoso que não possa ser visto se perambularmos no meio do povo. A carência coletiva é tão grande que qualquer coisa incensada, ilógica ou de boa oratória consegue hipnotizar sujeitos coitados que precisam ter onde se encostar. Gurus sobejam atendendo aos dignos de pena: Deus, Nossa Senhora (que já esteve mais in), os astros, o “santinho”, a quinoa (“milagrosa!”), o limão (“cura câncer!”), o influenciador digital, a Editora Sextante, o minimalismo (“traz felicidade!”), o médium, o pastor, o psicólogo da moda, a nutricionista da moda (“açúcar nem por cima do meu cadáver!”), a estilista da moda, a mãe da moda (“livre demanda!”), o jornal, aquele blogueiro, aquele colunista, o grupo “tudo artesanal ou morte”, o feminismo, o movimento negro, a Apple, aquela cultura romantizada, aquele estilo musical, “pais de felinos e caninos”, Lula, Bolsonaro, Enéas, etc. O guru, como veem, pode ser uma pessoa, um alimento, um bando ou uma marca. Importante é atender ao propósito de almofadar a vida de quem se sente vazio se não for guiado por convicções, desígnios e mornuras grupais.

4. Se o Deus católico se faz em regimento na pessoa do Papa, que tortura trabalhar numa empresa com um chefe de humor tão instável que numa década está amoroso e na outra quer nos mandar para o inferno porque pecamos um bocadinho. João Paulo II foi o avô tradicional, mas querido. Tivemos Bento XVI, a governanta. E agora Francisco, o tio solteirão. Quem leva a sério essa instituição que fala em nome de uma entidade infinita que a cada temporada assume um perfil? (Na verdade eu também gostaria de ter a chance de ser infinita, portanto invejo os disfarces, as personalidades e o guarda-roupa de Deus.) Há pior, sem dúvida. Prefiro beijar o pé (a sola) do Papa a pisar num antro dominado por Valdemiro Santiago. O Papa pelo menos parece de fato acreditar no que prega. E não vende canetas abençoadas para vestibulares (água benta é de graça nas capelas, vá e mergulhe sua Bic). Dado pitoresco: quem frequenta o culto de Valdemiro Santiago pode votar. Não sei como alguém consegue explicar isso para os próprios filhos sem constrangimento. 

5. Cada povo que vive numa democracia tem os governantes que merece (pois vota neles). Temer só não caiu porque comprou o Congresso, e quem compôs o Congresso foi o povo, que já está preparado para votar tudo errado outra vez. Povo vota em ladrão, em corrupto, em celebridade. Não existe discurso humanitário que dissimule florindo: o povo é de uma incompetência assustadora para fazer o pouco que lhe cabe (não se aplica somente ao Brasil). Quem dá grande responsabilidade (votar) para incompetente (o povo)? Quem não sabe graduar as coisas, as tarefas, as pessoas. O projeto democrático é como o liberalismo, o socialismo e o comunismo. No papel, um texto encantador. Na vida real, uma ação política que quase só a Escandinávia tem alguma chance de aplicar do jeito certo, sabe-se lá como. 

domingo, 29 de abril de 2018

Lula, pai de aluguel de uma esquerda desesperada

Em 1989 eu teria votado em Lula. Quem viu os debates entre Collor e Lula no segundo turno (no primeiro turno, todas as revistas de humor bem registraram que Collor não comparecera aos debates) só podia votar em Collor se não simpatizasse pessoalmente com Lula – má ideia, para a vida séria, colocar questões pessoais na frente de questões coletivas – ou se estivesse encantado com a oratória vilã de Collor. Parece-me quase obrigatório que entre um e outro qualquer pessoa de caráter optasse por Lula, pelo menos por um motivo que é razoável na mão de quem não debanda para a anarquia do voto nulo: escolher o menos pior. Em 1989 Lula é que fazia sentido, gostasse Cláudia Raia ou não – já que votou em Collor. Na mesma época a atriz também se apaixonou por Alexandre Frota e defendeu em artigo à VEJA seu direito de fumar em paz (e de votar em Collor em paz), informação que ajuda a explicar uma má fase, pela qual todos passamos em alguns momentos – portanto, não julguemos. 

Após o Mensalão, do qual Lula saiu acobertado e impune, não havia mais como rasgar a garganta para cantar com emoção pelas ruas “brilha uma estrela!...”. Quem ficou com Lula não era capaz de autocrítica e usava a lógica do taxista: ou é isso ou é aquilo. Assim, entre adotar na prática um partido que diferia dos outros só em teoria ou buscar uma necessária reciclagem, figuras como Chico Buarque e Tássia Camargo preferiram manter o discurso e o apoio, para vergonha de qualquer cidadão um bocadinho justo. Diz-se, nas centrais reducionistas conspiratórias e delirantes da esquerda (é chato repetir isso toda vez, mas a direita também tem as suas), que quem abomina Lula nestes tempos “não gostou de ver o pobre andando de avião”, simplismo que sai das centrais e se espalha. Criam esse espantalho tosco e fingem que não sabem: muitos dos que hoje repudiam Lula são aqueles que votaram nele em todos os pleitos até 2002. Ora, se sentissem ojeriza pela ascensão dos pobres não teriam, em período tão considerável, votado justamente em quem tinha como bandeira principal a ascensão dos pobres. Não faz sentido, mas quem tem ideologia cega e partidarismo não precisa de sentido, apenas de fé. Política partidária, homeopatia e religião dependem de crença, não de fatos. 

Tirando guerras, terrorismo, violência e doenças, hoje há poucas coisas que são piores do que tentar conversar sobre política com um lulista. Talvez: 

a) Entrar numa loja na qual se pretende passar um tempo e perceber que tocam Coldplay (tanto faz se as deprê-semialegres ou as deprê-suicídio-no-rio-à-tardinha); 

b) Ler clichês em comentários de vídeos humorísticos no YouTube, como “puta crítica social” e “humor ácido”; 

c) Sentar num bar no qual se pretende beber por um tempo e perceber que começam a montar um sarau para daqui a pouco; 

d) Participar do espaço público com quem não compreende o espaço público: chupam os dentes, gritam palavrões, não usam fones, fedem sem uma boa explicação; 

e) Estar na fila do pão quando a feminista à sua frente começa a lecionar sobre patriarcado para a atendente, que é tão mais educada que só pensa (e não fala) “preciso trabalhar, querida”; 

f) Aguentar o monólogo daquele que nunca vai ao teatro, mas um dia foi e acha que já pode dizer “as pessoas não vão ao teatro nesse país”; 

g) Aguentar o monólogo daquele que nunca lê um livro, mas um dia leu e acha que já pode dizer “o problema do Brasil é que o povo não lê”; 

h) Aguentar o monólogo daquele que nunca ouve música clássica, mas um dia ouviu e acha que já pode dizer “meu favorito é Brahms” (apenas porque sabe que As quatro estações de Vivaldi é coisa de quem lê autoajuda, elege Monet como um dos maiores pintores e compra bolas decorativas da China na Camicado); 

i) Pessoas que compram o CD “Beatles para bebês”; 

j) Pessoas que aplaudem com força exibida um índio tocando flauta na rua; 

k) Pessoas que usam com regularidade os termos “vagabundo” e “vagabunda”; 

l) Pessoas. 

O lulista das classes média e alta, aliás, era para ser uma figura em extinção. Quase começava a ser antes de Lula ser investigado por utilizar a coisa pública para interesses privados, mas reapareceu como marca do desespero de uma esquerda que não tinha quem colocar no lugar para mover o voto das massas. 

Enquanto Chico Buarque e Tássia Camargo ficaram com Lula, muitos nomes migraram para partidos menores porque não queriam participar do programa prostituído do PT e sabiam que aquela corrupção toda (na qual, na época, acreditavam) poderia manchá-los por associação “diga-me em que partido andas e te direi quem és”. Lula fora um bom líder para trazer o Brasil à esquerda, mas precisava ser superado – migrar do PT para outros partidos era manifestar uma diferença. Sua premente condenação mudou essa forma de pensar (não vá longe: as linhas do tempo de Facebook, Twitter, etc. de seus colegas ditos à esquerda estão lá como uma praça de provas do discurso que se modela e degringola) não porque PSOL (declaro aqui que já votei no Plínio de Arruda Sampaio e não me arrependo, pois era o que havia) e outros partidinhos tenham, em seus corações, mudado de opinião sobre Lula, mas porque sem Lula a esquerda não tem candidato que receba mais do que sofridos 3% de intenções de voto. A esquerda que no passado recente saiu do entorno de Lula porque não queria se associar a quem sabia ter se corrompido (e se corrompido demais) voltou como o filho pródigo para receber o banquete do pai: viu que sem o pai não é grande coisa nos números. 

Isso explica por que Manuela d'Ávila e o piromaníaco Guilherme Boulos resolveram ser a sombra de Lula: aquele corpinho cansado é o parente prestes a falecer que tem uma herança a deixar – neste caso, votos. Associando-se ao Lula que ainda lidera pesquisas na quentura do populacho, Manuela e Boulos tentam uma transferência direta de eleitores. Para não destruir reputações que cresceram querendo se individualizar perante o PT, os dois aceitam criar um mito injustiçado. Não se pode apoiar Lula dizendo que ele é mesmo culpado e que já era hora de pagar por ao menos uma das suas “contravenções” no mundo político, portanto o certo é primeiro dizer que Lula é inocente (vítima das arbitrariedades de três instâncias, preso por suas ideias, o Mandela brasileiro, etc.) para depois apoiá-lo sem dever justificativas à ética. A esquerda é ruim com Lula, mas sem ele se vê pior. Seu desespero só deve gerar pena. 

***

NOTAS 

1. Sempre que passo roupas em casa coloco vídeos compridos no YouTube para ver na TV, geralmente entrevistas no Roda Viva. E me encantei quando vi a primeira entrevista de Paulo Maluf, de 1995. Não só porque Maluf é uma das três pessoas do globo que ficam bem com gel no cabelo, mas porque aquele senhor, prefeito de São Paulo à época, defendia pautas inovadoras como proibição de fumo nos restaurantes (foi chamado de “radical” e sugerido como “ocupado com trivialidades” pelos jornalistas da bancada) – mesmo tendo em casa uma esposa-chaminé –, uso obrigatório do cinto de segurança (novamente criticado pelos jornalistas convidados por esse “exagero paternalista”) e política de controle de natalidade, que é uma das questões que considero mais urgentes para diminuir a pobreza. Pensei, entre a passada de uma manga de camisa e a borrifada cheirosa na perna de uma calça, “possivelmente eu teria votado nesse homem”. Política é isso: um momento. Assim como não havia opção sensata que não fosse Lula no segundo turno de 1989, não há opinião sensata que hoje defenda Lula. Ou Maluf. 

2. Houve um momento em que sair do PT era um quase dever de decência. Não foi nesse momento que Marta Suplicy saiu do PT. E, quando saiu, não foi com decência. 

3. Ausentei-me por longo tempo porque viajava nas férias. Já voltei. Um abraço aos que leem com boas intenções.

domingo, 4 de março de 2018

A literatura infantil não está proibida para fruição de adultos



Meu “Projeto Liberdade E Felicidade Acima Do Que Pensam Os Limitantes” (os limitantes costumam ser vocês, entendam: não terceirizem a mentalidade provinciana como se só dissesse respeito aos outros) inclui comprar roupas na seção masculina desde antes de a moda declarar a arara bigênero como o must da estação, não acumular dinheiro para levá-lo ao túmulo como um faraó e ler literatura infantil a me fartar. Às vezes se está a viver plenamente após rasgar as caixas “isso é o que está adequado à sua idade”, “isso é o que está adequado ao seu gênero” e “isso é o que está adequado à normalidade”, mas um irônico saído do esgoto desanda a gritar diagnósticos que não procedem no manual psiquiátrico. Talvez seja mesmo necessário um projeto para lidar com tipos tão deprimentes. Maiores resmungos antissociais deixarei para as NOTAS, que hoje estão exorcizando monstros que me visitam (sem que fossem convidados) e colocam os pés sujos no meu sofá desde a infância. 

Existe uma virtude conhecida que é a do talento. Para cantar, pintar, escrever, liderar, calcular, ser pragmático (declaro, sem modéstia, que tenho certeza de ter o último). E existe outra virtude, desconhecida, que é a de saber e querer reconhecer o talento alheio. Saber e querer dizer “que bonito”, “que solução inovadora”, “eu nunca poderia fazer melhor”, “você é uma fonte rica de ideias”, saber e querer demonstrar que se aprecia o que alguém faz. Na falta de qualquer talento que proporcione louvor, ter esse de apreciar e externar a apreciação já é algo luminoso. Não confundamos com quem distribui elogios como se fossem folhetos “compro ouro”: todo mundo é lindo, qualquer rabisco feito às pressas por uma criança preguiçosa é uma dádiva, “eu sou capaz de ver a bondade no fundo de cada alma”, etc. Não se trata desse espécime meloso, bajulador ou ansioso para ficar bem no quadro. Falo de algo sincero e especial partindo de uma pessoa sensível que é apta a ver um dom particular em outra pessoa e estimá-lo. Até porque receber um elogio de alguém que elogia qualquer coisa não tem nenhum valor. 

No reino das coisas convencionalmente condizentes à infância há muita injustiça da parte da massa leiga. É como se o “para crianças” fosse algo menor. Experimente ter 40 anos e declarar que adora os desenhos do Mickey Mouse. É quase certo que será vítima de deboche, porque gostar desse tipo de entretenimento aos 40 é um atestado de fracasso para quem adotou o pacote entediante da vida adulta a todo custo. Não adianta explicar que a história foi escrita por adultos talentosos, que o desenho foi, principalmente quando surgiu, uma novidade cheia de capricho, que não é demérito rir de um humor tão físico quanto os “para adultos” Chaplin e Os três patetas. Basta que seu gosto seja por algo “infantil” para que uma série de adjetivos sejam lançados sobre seu “problema”. 

(Aos simplórios de pensamento: não transformemos isso numa falácia da ladeira escorregadia. Estou falando de entretenimento denominado “para crianças”, não de roupas e acessórios que de fato só fazem sentido para pequenos. Não venham escancarar ignorância, os Senhores Adultos, a ironizar: “ah, então vamos tomar uísque na mamadeira” ou “uhum, na próxima refeição vou colocar meu babador de ursinho carinhoso”.) 


Se um artista vive de criar arte “para crianças” e não está nadando em fortuna ou glória com isso, será frequentemente intimado a fazer algo sério, “adulto”. Seus amigos de outras áreas vão muitas vezes ler seus trabalhos e terminá-los com um sorrisinho “oh, que fofo”, mas só vão comprá-lo se tiverem um filho em casa ou outra criança para presentear porque têm em mente uma continuação: “oh, que fofo… para uma criança”. Aquele livro, com aquela história “infantil”, não tocará, por mais talento que carregue, um perfeito adulto que se limita no aproveitamento de todo tipo de prazer que as mais diversas artes podem dar. O livro não foi “socialmente” indicado para ele; ele não achará de bom tom reconhecer as qualidades do livro sem que afunile o elogio. 

De minha parte, conheço dois tipos básicos de peças artísticas: as boas e as ruins. Já chorei com a profundidade de uma história “para crianças” de 30 páginas, já passei raiva ao ler um livro de 300 páginas que foi escrito por um incompetente afoito para fazer fama e dinheiro. Aguardei ansiosamente a chegada de A pior princesa do mundo, das incríveis Anna Kemp e Sara Ogilvie, esqueci de livros adultos que comprei e chegaram com atraso. Então que se um livro infantil é bem escrito, tem ilustrações viajantes, leva-me para seu mundo, não tenho razão nenhuma para não adquiri-lo para minha biblioteca particular só porque não há uma criança física morando na minha casa. Faço questão de prestigiar esse talento, principalmente porque foi bloqueado, pela cultura da arrogância vã, a alcançar outras faixas etárias que se beneficiariam dele. 

Na página da Amazon comecei a fazer avaliações (breves resenhas) de livros infantis porque achava muito superficial o que se costuma escrever lá. Coisas como “minha filha adorou e me pede para contar a história todos os dias” – quase sempre isso. É claro que é muito bom que a criança da casa tenha gostado do livro e peça para revivê-lo. Se há uma coisa que me encanta nas crianças e me desencanta nos adultos é que a criança não vê no livro que leu e gostou um “check, posso tirar da lista”. Enquanto adultos leem livros para satisfazer a uma demanda cultural muitas vezes momentânea – “tenho que ler, todo mundo está falando sobre ele” –, para dizer com ares de quem terminou a limpeza da casa “ufa, agora esse eu já li” e, pasmem, mesmo que tenham adorado o livro acham que uma vez lido é preciso passá-lo adiante para um colega, crianças boas costumam nutrir amor verdadeiro pelas histórias que as interessam. Pedem para que os pais as leiam para elas cinquenta vezes, não interessa se já decoraram as falas e as cenas. Se o escritor e ilustrador de livros infantis passa maus bocados com adultos que acham sua arte inferior ou útil somente para a fruição de uns, pelo menos há o conforto de ter em boas crianças os mais fiéis leitores que não tratarão suas histórias como uma folha de papel-toalha que se usa uma vez e depois se joga fora. Voltando à Amazon: que ótimo que “se meu filho gostou, então é bom”. Mas permita-se gostar do livro junto com ele e tente não vê-lo, só porque é infantil, como algo “infantiloide”. Analisa-se o livro adulto, não há por que não analisar o infantil além do “meu filho gostou”. Vejam: não é qualquer tonto que escreve boa literatura infantil, é preciso um talento para o ofício. Há quem desande a escrever poesias porque “parece fácil, vou escrever”, e acha que faz às pressas, num momento de louca inspiração, algo semelhante ao que faziam Goethe ou Gregório de Matos. A esse sujeito não falta apenas um espelho, mas óculos. E há quem tenha a literatura infantil como algo “tão simples que qualquer um pode fazer”. Acho que nem quem diz isso acredita, no fundo, naquilo que diz – senão já teria escrito, ilustrado e publicado livros, e já estaria com a vida ganha fazendo uma arte tão “básica”. 

Não entendo: se gostamos de uma música, queremos ouvi-la diversas vezes, reencontrá-la. Com o livro, uma vez lido, tchau. Ninguém diz: “essa música da qual você fala eu já ouvi e adorei, mas não vou ouvir de novo, afinal já ouvi uma vez”. O livro passa essa imagem de fardo: “por que vou ler de novo se já o li?” Músicas são aproveitadas em minutos, livros em horas – argumentarão alguns. A pergunta é: como reviver os trechos de um amado livro que foi usado como passatempo e depois doado à avó porque toma-se um livro lido como um estorvo dentro de uma casa morbidamente minimalista? 


Existe mais uma figura a quem se perdoa a infantilidade além da criança: o velho. Somente a crianças e velhos são permitidas certas alegrias como usar roupas antiquadas ou embalar-se num balanço. Uma mulher de 40 anos está andando à noite, vê um parque infantil e senta-se no balanço para sentir o vento a lhe soprar o rosto. Uma outra mulher de 35 anos, amargurada, passa na rua e vê sua contemporânea naquela serelepe diversão. E pensa que a outra é uma ridícula, uma “louca”. Mas se a senhora no balanço tivesse 80 anos, cabelos branquinhos, vestido florido sob casaquinho de tricô: “ai, que bonitinha” – a mesma coisa seria dita se fosse uma menina a se balançar. Ou seja: existe uma tradição da prisão às faixas etárias que é tão alienante que cria situações descabidas. De fato e por direito: que beleza e permissividade há numa velha se balançando que não pode haver numa quarentona fazendo o mesmo? Não digo para acharem a quarentona bonita, apenas que a deixem em paz. 

Esses dias eu estava com a minha mãe numa loja. Peguei uma camisa na seção masculina e mostrei para ela. “Que linda!” Eu disse: “pois é, e é da seção masculina; o que impediria você de usar essa camisa se gostou dela?” Na mesma hora pensei o quanto as pessoas perdem se impondo limites que os outros criaram. As roupas da seção masculina às vezes têm cores mais bonitas, tecidos melhores, cortes mais clássicos e são mais confortáveis. Mas as mulheres só respeitam o uso feminino do que foi atribuído ao masculino quando célebres encorajam essa transgressão: Coco Chanel furtando peças dos guarda-roupas dos namorados, Yves Saint-Laurent pondo mulheres de smoking em propagandas, Herchcovitch e sua nova marca À La Garçonne vendendo itens “unissex”. O mesmo ocorre com a literatura que se chama “para crianças”, e não “só para crianças”. É vantajoso e organizado que uma literatura voltada para elas já esteja carimbada com a determinação “infantil” (também é vantajoso e organizado que exista a seção masculina, que privilegia o corte de ombros mais largos, braços e tronco mais compridos), mas isso não proíbe nenhum adulto sensível de comprar esses livros, lê-los e manifestar estima. Quem não aproveita a riqueza dessas histórias tão bem ilustradas apenas porque teme fugir à normalidade deve ficar com pena de si mesmo: pior do que não ser livre é poder ser livre e não querer ser. 

***

NOTAS 

1. Por ter apreço à cultura da infância e permiti-la na minha vida junto a outros gostos livres, tenho que aguentar tantas abobrinhas que precisei alugar uma cozinha industrial para colocá-las lá. Acho uma honra ser considerada bizarra por uma categoria uniformizada, mas também acho muita empáfia quando esses uniformes não apenas pensam ou cochicham a meu respeito, mas vêm “tirar com a minha cara” pessoalmente quando sequer dei um naco de intimidade para isso. Muitas vezes são figuras patéticas que confundem “ser engraçado” com “ser ofensivo”. É possível ser ofensivo e ainda assim engraçado quando se faz uma piada sobre uma pessoa na cara dela? Claro. Isso geralmente acontece quando seu objetivo primordial é ser engraçado. As figuras patéticas que menciono engendram outro objetivo primordial: “lá vou eu ser ofensivo”. 

2. Acuso uma injustiça: sou erradamente chamada de pavio curto. Bom, para me chamarem disso é porque existe um parâmetro em algum lugar. E esse parâmetro, descobri não tão cedo quanto gostaria, é o típico bundão, que aliás abunda. O bundão ouve alguém a provocá-lo e não percebe ou finge que. E ri com o idiota (e não do idiota), que está à sua frente querendo ofendê-lo de modo sutil, mas obviamente planejado. Daí que eu, que não sou uma larva alienada na goiaba, ao notar que me ofendem tendo a, em uma parte mínima dos casos, responder. Só que respondo um pouco mais alto do que se determina no “Mundo Bundão Onde Não Devemos Arranjar Rusgas E O Melhor A Se Fazer É Tentar Ser Amigo Masoquista Do Idiota Para Passar Uma Imagem De Boa Pessoa” e aí a pavio curto sou eu. Ou seja, querem levar o cristianismo ao máximo absurdo: acham que o certo é adotar a postura do Jesus medicado com Rivotril dizendo para oferecer a outra face em vez de imitar o Jesus furioso que destruía as barraquinhas dos comerciantes no templo ao som de “Sabotage”, dos Beastie Boys. Se me dão um tapa, é claro que é meu direito de ser humano animado (com alma, e também, felizmente, nervos) revidar com um tapa maior, desde que não muito desproporcional. 

3. Jesus pensa: “mas eu aqui outra vez?”. Sim, Senhor, porque Vossa popularidade é tão alta que qualquer exemplo é ajudado quando usamos Vosso nome ou o de Hitler. Gosto da figura criada sobre Jesus. Há coisas a serem melhoradas, mas quem é que não precisa se tornar um pouco melhor? Para começar, Jesus poderia ser vegano e multiplicar apenas pães, não peixes. Também poderia aparecer de vez em quando com uma mão gelada no meio da noite para assustar autoproclamados cristãos que são fúteis, supersticiosos, acumulam dinheiro em vez de doá-lo aos pobres, tratam a religião como amuleto, vivem fofocando sobre coisinhas, traem seus parceiros em vez propor logo um relacionamento aberto ou a separação, rendem-se à vaidade, dizem “eu até tenho um amigo gay”, dizem “tem que fuzilar” a respeito de mendigos, fazem comentários maldosos sobre a vida sexual de uma mulher muito mais bonita e solteira que está sempre com um namorado diferente (a Maria Madalena moderna), etc. Espero não estar escalada para essa visita noturna, Jesus, pois nem cristã eu sou. 

4. Como eu disse: “em uma parte mínima dos casos” é que respondo. Na maior parte, apenas me afasto de quem precisa me ofender para se sentir melhor com suas inseguranças e misérias, pois não adianta tentar mudar o caráter dos outros se não pudermos obter o auxílio de uma machadinha. O típico bundão a que me refiro não é quem ignora e se afasta de um idiota: é aquele que se curva ao idiota, sente necessidade de ser aprovado pelo idiota e permite que ele, o idiota, perpetue achando que seu estilo ofensivo é arma de sedução de coitados. 

5. É verdade que às vezes essas pessoas das quais a gente se afasta voltam com seus “oi, sumida”, porque um parasita precisa de hospedeiros. É importante estar vacinado. Ou enviar como resposta a música “Magic fett”, do italiano Unconditional, e pedir para o parasita: “por favor, preste muita atenção na letra”. (No YouTube essa música foi upada como “Magic feet”, mas o certo é fett.)

6. Se eu tiver a sorte de chegar a me tornar velha, estou quase decidida a só usar coturno, roupas pretas e um cabelo à Elke Maravilha (versão sem dreads) para que ninguém ouse me tratar como um filhote de cachorro só porque pareço frágil. Sou uma forte candidata à velha que faz com que inclinem a cabeça para o lado em sinal de amorzinho: baixinha, gorducha, branquela e com péssima memória de curto prazo que é externada numa inconfundível expressão facial de confusão – “o que eu vim fazer aqui, mesmo?”. Talvez seja preciso que comece a dizer palavrões também para que seja levada a sério.

7. É lamentável que parte das histórias infantis tenham como personagens animais que todo mundo acha lindo no livrinho, mas não se importa de comer no jantar. Antes de colocar os filhos para dormir, os pais narram tramas amáveis envolvendo porcos e frangos – quando acabaram de servir para essas crianças, sendo treinadas em esquizofrenia moral, sanduíche de queijo com presunto ou canja de galinha. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Teste: você tem princípios ou apenas partido? Versão para os autodenominados esquerdistas, simpatizantes e contemporizadores de modo geral


Esse é um teste simples que envolve questões complexas. Por isso não espero que quem tenha a bondade de respondê-lo – prioritariamente esquerdistas, simpatizantes e contemporizadores de modo geral, caso se dispam do arzinho petulante que fizeram só de ler o título desta postagem – consiga se identificar plenamente com alguma das alternativas. Mas se não for responder só porque a alternativa não atende plenamente sua opinião, onde estará a graça de fazer o teste? Portanto, assinale a alternativa que corresponde a pelo menos 80% do seu pensamento. Recomendo, por ética, que não se leia a questão seguinte antes de responder a atual. São 15 blocos, com 2 questões em cada bloco. No final, haverá uma explicação sobre a contagem dos pontos e os resultados. Escreva no papel os números de 1 a 15 e depois coloque as alternativas ao lado de cada número. Por exemplo: 1 – AB, 2 – AA, 3 – BB, 4 – BA, etc. 

Vamos começar? Avante, camaradas!



1. Em 2017, o presidente Michel Temer sancionou a reforma do ensino médio. Dentre as mudanças estava a redução do número de disciplinas e a adequação do currículo à realidade do mundo atual. Essa medida foi: 

a) Uma decisão dura, mas necessária para que a educação brasileira possa evoluir e tentar se aproximar do modelo educacional praticado em países desenvolvidos. 

b) Uma proposta fascista. Não houve diálogo severo com a população e é mais do que justo que estudantes decidam em assembleias o fechamento de escolas como forma de protesto. 

Em 2014, a então presidente Dilma Rousseff defendeu a urgência da reforma do ensino médio. Dentre as mudanças estava a redução do número de disciplinas e a adequação do currículo à realidade do mundo atual. Essa medida foi: 

a) Uma decisão dura, mas necessária para que a educação brasileira possa evoluir e tentar se aproximar do modelo educacional praticado em países desenvolvidos. 

b) Uma proposta fascista. Não houve diálogo severo com a população e seria mais do que justo se estudantes decidissem em assembleias o fechamento de escolas como forma de protesto. 

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2. Quando a então presidente Dilma Rousseff apresentou, em 2015, que o país estava no vermelho e por isso seria necessário realizar um austero ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas, pensei: 

a) Essa pilantra quer aniquilar os trabalhadores, as mulheres, os negros, os pobres, o povo! Em campanha sequer se mencionava que o país estava no vermelho! Fora, Dilma! 

b) A presidente está se deixando levar pelos interesses do empresariado, representado pelo mal escolhido Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Fora, Levy e seu ajuste fiscal! 

Quando o presidente Michel Temer apresentou, em 2017, que o país estava no vermelho e por isso seria necessário realizar austero ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas, pensei: 

a) Esse pilantra quer aniquilar os trabalhadores, as mulheres, os negros, os pobres, o povo! Quando prestes a dar o golpe e precisava do apoio da população ele não falava sobre ajustes! Fora, Temer! 

b) O presidente está se deixando levar pelos interesses do empresariado, representado pelo mal escolhido Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Fora, Meirelles e seu ajuste fiscal! 

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3. Em 2017, uma das medidas que Temer queria fazer avançar era a reforma da Previdência. Ele destacou, dentre outras coisas, que se a reforma não for feita hoje, no futuro não será possível para o governo sustentar a inchada máquina da previdência, pois a desproporção entre aposentados e trabalhadores será alta. Sobre isso: 

a) É absurdo que um trabalhador não possa se aposentar aos 55 anos. Em vez de massacrar o povo com uma reforma injusta e fascista, por que esse Sr. Golpista não cobra mais tributos da elite? É preciso que rumemos para as ruas e protestemos com todas as nossas energias ante esse retrocesso. Intransigência com quem é intransigente! 

b) Vamos manifestar nossa insatisfação dialogando com lideranças e partidos. 

Em 2016, uma das medidas que Dilma queria fazer avançar era a reforma da Previdência. Ela destacou, dentre outras coisas, que precisamos estar sintonizados com outros países desenvolvidos que já são mais rígidos com a idade de corte para recebimento da aposentadoria e que não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja de 55 anos. Sobre isso: 

a) É absurdo que um trabalhador não possa se aposentar aos 55 anos. Em vez de massacrar o povo com uma reforma injusta e fascista, por que essa Sra. Não-faço-jus-aos-princípios-do-meu-partido não cobra mais tributos da elite? É preciso que rumemos para as ruas e protestemos com todas as nossas energias ante esse retrocesso. Intransigência com quem é intransigente! 

b) Vamos manifestar nossa insatisfação dialogando com lideranças e partidos. 

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4. Alguns dos empregados que atendiam a então presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto e em eventos eram negros, como o garçom José da Silva Catalão (depois despedido por Temer). Isso prova: 

a) Uma marca gritante sobre como a sociedade vê os negros, sempre servindo. A foto de Dilma sendo atendida por José Catalão tem que virar meme sobre a hipocrisia da esquerda que mantém negros em cargos subalternos. 

b) Não prova muita coisa. José Catalão é pago para trabalhar, o governo paga para que trabalhe. Há uma troca de salário por serviços. Existe racismo no Brasil, mas tomar um fato isolado como esse e politizá-lo por conveniência seria má-fé e personalização errada de um problema social que não é culpa nem de Dilma, nem de José Catalão. 

Numa manifestação pelo pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, um casal branco foi visto vestido de verde-amarelo, em passeata, enquanto uma babá negra tomava conta de seus filhos. Isso prova: 

a) Uma marca gritante sobre como a sociedade vê os negros, sempre servindo. A foto desse casal branco sendo atendido pela babá negra mereceu virar meme sobre a hipocrisia dos manifestantes golpistas, que pedem um país mais justo mas mantêm negros em cargos subalternos. 

b) Não prova muita coisa. A babá é paga para trabalhar, o casal paga para que trabalhe. Há uma troca de salário por serviços. Existe racismo no Brasil, mas tomar um fato isolado como esse e politizá-lo por conveniência seria má-fé e personalização errada de um problema social que não é culpa nem do casal branco, nem da babá negra. 

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5. Aécio Neves festejou o carnaval num camarote VIP. Reajo: 

a) Playboy que cospe na cara do povo pobre com seu estilo de vida fino! 

b) Se ele tem dinheiro para pagar e o dinheiro não for de desvios públicos ou propina, o problema é dele. Ele não precisa se tornar um mendigo só porque diz se importar com os pobres. 

Marcelo Freixo festejou o carnaval num camarote VIP. Reajo: 

a) Playboy que cospe na cara do povo pobre com seu estilo de vida fino! 

b) Se ele tem dinheiro para pagar e o dinheiro não for de desvios públicos ou propina, o problema é dele. Ele não precisa se tornar um mendigo só porque diz se importar com os pobres. 

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6. Em 2012, o então senador Demóstenes Torres foi grampeado em conversas telefônicas com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, situação que lhe custou a cadeira no Senado. O STF considerou que as provas eram ilícitas e não poderiam ser utilizadas no processo contra o ex-senador, pois seu cargo no Senado lhe dava prerrogativa de foro: portanto, não cabia a um juiz de primeiro grau liberar intercepções telefônicas contra Demóstenes. Nesse caso: 

a) Vamos respeitar as leis. Prova ilícita não pode ser utilizada em processo. 

b) Tem caroço nesse angu. Desde quando o procedimento para feitura de uma coisa se torna mais importante que o conteúdo dessa coisa? Todas as provas importam quando estamos falando de um bandido político. 

Em 2016, o juiz de primeira instância Sérgio Moro divulgou grampos entre Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, grampos que poderiam incriminá-los sob a acusação de obstrução à justiça. Dilma, então presidente, tinha prerrogativa de foro e tudo que lhe dissesse respeito deveria ser encaminhado para o STF. Diante da situação, o STF declarou os grampos ilegais e afirmou que Moro violou a competência do Supremo para o ocorrido. Nesse caso: 

a) Vamos respeitar as leis. Prova ilícita não pode ser utilizada em processo. 

b) Tem caroço nesse angu. Desde quando o procedimento para feitura de uma coisa se torna mais importante que o conteúdo dessa coisa? Todas as provas importam quando estamos falando de um bandido político. 

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7. Uma prova obtida por meio ilícito demonstra que certo homem, Sr. X, era abusador de crianças. A prova não pôde ser utilizada processualmente, mas agora todos sabem que o Sr. X abusava de crianças. Penso que: 

a) Não há que se falar em qualquer tipo de condenação, pública ou jurídica. Quem somos nós para julgar alguém tomando como base uma prova ilícita? O foco aqui deve ser quem obteve essa prova de maneira ilegal. 

b) Mesmo que o Sr. X não seja condenado pela Justiça, é claro que todos nós temos o direito de rechaçá-lo, e seria mau caratismo esquecer o que ele fez só porque a prova é ilegal. Não vamos confundir moralidade com legalidade. 

Quiseram – juristas e parte da população – incriminar Lula e Dilma utilizando como base uma prova considerada ilícita. A ex-presidente nomearia, às pressas, Lula como Ministro da Casa Civil com vistas a fazer seu processo correr no STF, lerdo, e não na primeira instância, um tanto mais célere. Isso foi percebido num grampo ilegal. Penso que: 

a) Não há que se falar em qualquer tipo de condenação, pública ou jurídica. Quem somos nós para julgar alguém tomando como base uma prova ilícita? O foco aqui deve ser quem obteve essa prova de maneira ilegal. 

b) Mesmo que Dilma e Lula não sejam condenados pela Justiça, é claro que todos nós temos o direito de rechaçá-los, e seria mau caratismo esquecer o que pretendiam fazer só porque a prova é ilegal. Não vamos confundir moralidade com legalidade. 

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8. Alexandre de Moraes, doutrinador jurídico, foi nomeado por Temer para assumir o cargo vago de ministro do STF. Alexandre era muito próximo do círculo do PSDB e por isso sua indicação foi vista como um ato político-partidário. Sobre isso: 

a) A decisão foi tomada dentro da legalidade. Se há alguém para criticar aqui, não são Temer ou Alexandre de Moraes, mas o sistema que permite essa livre indicação dos ministros do STF por parte dos Presidentes da República. 

b) Que patuscada! É claro que foi indicado porque ficará com o rabo preso com Temer e as moscas que o circulam. 

Dias Toffoli, jurista, foi nomeado por Lula para assumir o cargo vago de ministro do STF. Toffoli foi consultor jurídico da CUT, assessor jurídico do PT na Câmara dos Deputados e advogado de três campanhas presidenciais de Lula. Prestou duas vezes concurso para juiz substituto – e foi reprovado. Por causa desse histórico, sua indicação para ministro do STF foi vista como um ato político-partidário. Sobre isso: 

a) A decisão foi tomada dentro da legalidade. Se há alguém para criticar aqui, não são Lula ou Dias Toffoli, mas o sistema que permite essa livre indicação dos ministros do STF por parte dos Presidentes da República. 

b) Que patuscada! É claro que foi indicado porque ficaria com o rabo preso com Lula e as moscas que o circulavam. 

*

9. Temer tem amigos políticos, empresários, ministros. Todos esses amigos começam a cair por corrupção. Temer, impávido, não cai. O que pensar de Temer se não há provas cabais contra ele, nem processo contra ele tramitando? 

a) Seus amigos corruptos não querem dizer nada. Temer pode ser um pombo entre os gatos. 

b) É no mínimo estranho que alguém com um entorno tão podre possa ser como Jesus imaculado entre pecadores enlameados. Certamente Temer é corrupto também, só não foi possível provar isso ainda. 

Lula tem amigos políticos, empresários, ministros. Todos esses amigos começam a cair por corrupção. Lula, impávido, não cai. O que pensar de Lula se seu processo ainda não transitou em julgado? 

a) Seus amigos corruptos não querem dizer nada. Lula pode ser um pombo entre os gatos. 

b) É no mínimo estranho que alguém com um entorno tão podre possa ser como Jesus imaculado entre pecadores enlameados. Certamente Lula é corrupto também. 

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10. Se Rodrigo Maia resolver mandar fuzilar um traidor dentro do seu partido que está tentando tomar seu posto de liderança: 

a) Assassino! Autoritário! Cadeia é pouco! Qualquer defensor desse crápula é uma monstruosidade! Quem deu a ele o direito de matar alguém? 

b) Às vezes é preciso tomar medidas mais drásticas para atingir certos resultados políticos num país. Não concordo com o fuzilamento, mas entendo que há coisas piores no mundo com as quais ninguém se preocupa. Por que vamos nos preocupar com um fuzilado por motivo político quando na África, diariamente, centenas morrem de fome e doenças? 

Fidel Castro mandou fuzilar traidores políticos, “antirrevolucionários”. Sobre isso: 

a) Assassino! Autoritário! Cadeia é pouco! Qualquer defensor desse crápula é uma monstruosidade! Quem deu a ele o direito de matar alguém? 

b) Às vezes é preciso tomar medidas mais drásticas para atingir certos resultados políticos num país. Não concordo com o fuzilamento, mas entendo que há coisas piores no mundo com as quais ninguém se preocupa. Por que vamos nos preocupar com alguns fuzilados por motivo político quando na África, diariamente, centenas morrem de fome e doenças? Ademais, todas essas testemunhas que relatam esses fuzilamentos mesmo quando Cuba já estava tomada pelos revolucionários devem estar mentindo a serviço da mídia manipuladora e dos EUA a fim de demonizar Cuba, país lindo onde as pessoas não passam fome e têm uma educação exemplar. 

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11. Stálin foi responsável pela morte de milhões de soviéticos, tanto os fuzilados a seu mando quanto o povo que morreu de fome após implementação de políticas erradas. Sobre isso: 

a) É claro que não é certo matar pessoas, mas precisamos ver o lado bom do comunismo de Stálin. Inclusive Stálin tinha o apoio de parte da população. 

b) Precisamos rechaçar qualquer governo que seja responsável pelo assassinato de pessoas. Precisamos rechaçar qualquer governo que implemente políticas irresponsáveis que deixam o povo desamparado e morrendo de fome enquanto o governante e os seus vivem na mordomia. 

O período da ditadura militar brasileira, de 64 a 85, foi responsável pela morte e tortura de centenas de pessoas. Sobre isso: 

a) É claro que não é certo matar pessoas, mas precisamos ver o lado bom do período da ditadura militar. Inclusive os militares tinham o apoio de parte da população. 

b) Precisamos rechaçar qualquer governo que seja responsável pelo assassinato de pessoas. Precisamos rechaçar qualquer governo que implemente políticas irresponsáveis que deixam o povo desamparado enquanto o governante e os seus vivem na mordomia. 

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12. Inúmeros partidos pediram o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Isso foi: 

a) Pedido de impeachment, de fato, assegurado por nossas leis. 

b) Tentativa de golpe. O povo é soberano. 

O PT defendeu os pedidos de impeachment feitos a todos os presidentes que assumiram o posto após a redemocratização do país: Sarney, Collor, Itamar e FHC. Isso foi: 

a) Pedido de impeachment, de fato, assegurado por nossas leis. 

b) Tentativa de golpe. O povo é soberano. 

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13. Da primeira acusação à prisão preventiva determinada pelo juiz Sérgio Moro, Eduardo Cunha viu tudo passar num átimo. Estamos diante de um caso: 

a) Político. Todo mundo sabe que a justiça no Brasil é uma tartaruga. Algum interesse há para que Cunha tenha caído em desgraça tão rapidamente. 

b) Feliz exceção no histórico de lerdeza da justiça brasileira. 

Da primeira acusação formal à condenação em segunda instância, Lula viu tudo passar num átimo. Estamos diante de um caso: 

a) Político. Todo mundo sabe que a justiça no Brasil é uma tartaruga. Algum interesse há para que Lula tenha caído em desgraça tão rapidamente. 

b) Feliz exceção no histórico de lerdeza da justiça brasileira. 

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14. Ao tomar o posto presidencial, Temer declarou que formaria um governo “de notáveis”. Mas parte dos seus ministros são investigados na Lava-Jato e existe uma birra para que Cristiane Brasil – nada notável, sem experiência e com dois processos trabalhistas nas costas – possa assumir o Ministério do Trabalho. Refletimos: 

a) É claro que Temer não deve ser elogiado por suas escolhas, mas não existe outro jeito de fazer política no Brasil a não ser se aliar mesmo a figuras vergonhosas. O foco não deve ser ele, mas o sistema político. 

b) Governo incoerente, mentiroso e nojento. 

Dilma escolheu para chefiar ministérios de seu governo nomes como Eliseu Padilha, Moreira Franco, Marcelo Crivella, Gilberto Kassab – nomes que nada têm a ver com o projeto de governo oferecido pelo PT. Refletimos: 

a) É claro que Dilma não deve ser elogiada por suas escolhas, mas não existe outro jeito de fazer política no Brasil a não ser se aliar mesmo a figuras vergonhosas. O foco não deve ser ela, mas o sistema político. 

b) Governo incoerente, mentiroso e nojento. 

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15. Os protestos nas ruas em 2013 começaram com uma pauta contra o aumento da tarifa do transporte coletivo e se desenvolveram como crítica a gastos do governo e à corrupção. Você estava lá. Um amigo fez a seguinte acusação: “ao protestar num momento de governo de esquerda você se aproxima da direita!”. Você retruca: 

a) Não é porque eu abomino a direita que tenho que defender a esquerda de fachada que aí está. Repudiar medidas da Gestão Dilma não faz de mim uma pessoa que defende a direita. 

b) É verdade. Quem não está com a esquerda, está contra a esquerda. É preciso decidir quem defender. Ou se é coxinha, ou se é mortadela. 

Um amigo seu, que abomina posicionamentos partidários, comemora, entre tantas coisas, a queda de Dilma Rousseff e a condenação de Lula. Você pensa: 

a) O fato de ele abominar a esquerda e comemorar a queda de nomes grandes dentro dessa vertente não faz dele um defensor da direita. O mundo não é um maniqueísmo. 

b) Quem não está com Dilma e Lula serve aos interesses da direita e é, sim, coxinha. Não existe isso de “não vou entrar na polaridade”, é preciso escolher se se é coxinha ou mortadela. E está na cara que esse amigo escolheu ser coxinha. Só um coxinha não pensa que Lula está sendo injustiçado. 

*

CONTANDO OS PONTOS 

As questões, como puderam ver, foram elaboradas aos pares. Então a contagem de pontos é a seguinte: 

Se na questão 1 você respondeu AA = 0 pontos. 
Se na questão 1 você respondeu AB = 1 ponto. 
Se na questão 1 você respondeu BA = 1 ponto. 
Se na questão 1 você respondeu BB = 0 pontos. 

Assim, cada bloco de questões que tiver a mesma alternativa como resposta não soma pontos. Respostas diferentes para questões do mesmo bloco somam um ponto. O número máximo de pontos que se pode atingir é 15. 

RESULTADOS 

0 pontos – Uma pessoa de princípios 
Se foi mesmo sincero, parece que você é uma pessoa que usa o mesmo peso e a mesma medida para tratar assuntos muito semelhantes, quando não iguais. Das duas, uma: ou você não é de esquerda, ou é de uma esquerda muito purista – e corre grande risco de ser linchado pela massa esquerdista que defende o pensamento homogêneo. 

1 a 5 pontos – Ainda uma pessoa de princípios, mas um ser humano sujeito a erros 
Não é fácil ser um bom julgador para todos os casos. O maior exemplo disso está nos juízes, que têm opiniões tão díspares entre si (apesar de a lei ser uma só) e algumas vezes mudam de opinião em pouco tempo mesmo quando tratam de casos semelhantes (ver Gilmar Mendes). Mas você ainda pode ser chamado de um sujeito de princípios, pois tenta ser justo na maioria dos casos que se apresentam para avaliação. 

6 a 10 pontos – A mente fechada para a qual não existem fatos, mas interpretações 
Se um dado fato não se dobra ao seu partido, não é seu partido que você acha que deve ser revisto, mas o fato. “Foi interpretado do jeito correto?”, você pergunta quando o dado fato não te favorece. Se alguém te apresenta uma situação crua, sem dar nome aos bois, você primeiro quer saber com quem aconteceu para depois avaliar. “Matou milhões”. “Ah, Hitler era mesmo um tirano absurdo, onde estava a humanidade naquela época que não colocou freios nesse desvairado?”. “Na verdade eu falava de Stálin”. “Ah, mas nessa conta de milhões também estão os mortos pelas guerras, e Stálin viveu em outra época, outra realidade; pode ter cometido erros, mas alguns erros foram imprescindíveis para manter em pé o que os bolcheviques conquistaram, nem tudo é preto no branco”. Com um pouco mais você será promovido a Doutor em Canalhice, mas por enquanto é só mestre. Cuidado. Ou, dependendo do seu ponto de vista, “parabéns, está quase chegando lá”. 

11 a 15 pontos – Doutor em Canalhice, com orgulho e um sorriso desafiador na cara 
Para chegar a essa pontuação, ou você mentiu só pelo desejo de bagunçar, ou é tão repugnante que deve até dar para perceber de muito longe que você vem chegando com toda a sua pedantice. Você é irracional, implicante e provavelmente quer ser a voz preponderante em discussões políticas. Informa-se pela internet, e só em páginas claramente enviesadas “bem selecionadas”. Se encontra sem querer algo que vá contra o que seu fanatismo apregoa, você lança uma teoria conspiratória, fala da tal “grande mídia manipuladora”, propõe a destruição das instituições. Autoritário e possivelmente com problemas sexuais, espera-se que nunca alcance nenhum grande posto político, pois fará tanto dano quanto Bolsonaro faria se estivesse no mesmo lugar.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Uma abordagem natural da morte


Estima-se que há aproximadamente 250.000 anos o Homo erectus deu lugar ao Homo sapiens. Isso significa que somente calculando desse período para cá (não estou considerando a multidão de hominídeos, seres estranhos, peixes e punhados de células que vieram antes), e pensando apenas nos pais e pais dos pais (homens), tenho por volta de 8.333 ancestrais homens, diretos, sendo que cada um era obrigatoriamente pai do outro. Estipulei que cada ancestral meu viveu em média 30 anos até se reproduzir – fui imprecisa a respeito de épocas duríssimas apenas para atender ao intento de facilitar a conta – e então dividi o número de anos em que parte dos meus genes circulou por homens Homo sapiens (250.000) pelo número de anos que estimei facilmente que cada um desses senhores viveu até engravidar alguém com um bebê do sexo masculino (30). 

O absurdo não para por aí. A conta mais correta matematicamente, que considera que cada um de nós tem 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 32 tetravós – e daí em diante é fácil ver que estamos numa progressão geométrica de razão 2 –, chega a um número de desmaio que é impossível. Mas é um número que, felizmente, não corresponde à realidade por causa do implexo da ascendência: “cada pessoa descende várias vezes do mesmo antepassado por linhas diferentes”. Não tenho como fazer o cálculo certo para estimar o número completo de ancestrais, por isso pensei: “pai, todo mundo só tem um, e posso chegar a algo se pensar somente no pai do pai, e no pai do avô, e no pai do trisavô, etc”. 

Esse cálculo grosseiro – meu pai, o pai dele, o pai do pai dele e assim sucessivamente até retrocedermos 250.000 anos – fez com que eu conseguisse o que queria: espantar-me com o resultado. Oito mil trezentos e trinta e três ancestrais homens da parte direta do meu pai. Todos eles nasceram, reproduziram-se e morreram. Recentemente, inclusive meu pai. Que colocado na ponta desse processo todo que moveu 8.333 homens (no mínimo) aparece como um sujeito seguindo a ordem natural das coisas. 

Meu pai morreu dia 20 de dezembro de 2017, aos 81 anos, em decorrência de uma queda da própria altura, que é a maior causa de morte acidental de idosos. Estava com um câncer de pele muito severo na cabeça, já fazia sessões de radioterapia, e um dia, delirando, teimou em ficar por mais de seis horas postado refazendo os curativos nos tumores, sendo que no último ano não conseguia ficar quinze minutos em pé. Todo esse esforço fez com que fraturasse a perna, caísse, fosse internado, tivesse um tromboembolismo pulmonar, adquirisse uma infecção generalizada e falecesse. Cheguei a Blumenau de manhã, ele morreu à noite. Nunca fui tão triste como nos dias 20 e 21. E não me poupei de sofrer no velório. 

Eu já estava preparada para tudo porque já vinha há algum tempo acompanhando a debilitação do meu pai, e ele já não era nenhum moço. De qualquer forma, a morte esperada é como alguém avisar que vai te dar um susto daqui a pouco numa sala escura: você sabe que está para acontecer, mas quando acontece ainda assim pode se assustar, pois não sabia que seria bem naquele exato instante que o inevitável viria. Passei todas as horas do velório sentada ao seu lado, olhando-o, tocando-o e pensando. Não atendi ninguém. Não entrei nas conversas que começaram depois de passadas algumas horas, quando os que chegavam e se impactavam iam se acostumando ao morto no salão e passavam a bater papo como se estivessem na sala de casa (entendo a posição, mas não quis participar dela). Sempre imaginei esse momento como de internalização e dor. E foi. Essa era a hora certa de sentir dor, de sofrer, de aproveitar o último dia com aquele corpo que perambulou tanto e no qual habitou alguém que amei muito. Poucos dias depois, eu já estava bem. Muito bem. 

Não leio Sêneca, Montaigne, Pascal, Schopenhauer para me entreter de modo travesso ou passar o tempo. Leio para aprender alguma coisa, e aprendo porque quero aprender. Leitores de autoajuda são, na maioria, um fracasso justamente porque não aprendem nada com o que leem. Às vezes o autor até é bem-intencionado, quer mesmo ajudar os outros sem pensar apenas no dinheiro fácil que esse tipo de escrita confere, mas seu leitor não colabora, e a prova é que o típico seguidor de autoajuda nunca encontra um texto que o transforme: está sempre lendo outro livro de autoajuda, e outro, e outro, mesmo que as lições sejam as mesmas com uma abordagem suavemente diversa. Bastaria um bom livro para ensiná-lo com fartura, mas ele lê cada lançamento e vai recomendando “porque são todos muito bons”. Depois de duas semanas tentando aplicar o que leu, os velhos maus hábitos voltam… até que apareça outro livro “com lições novas e incríveis!” que proporcionem mais duas semanas de farsa. O leitor constante de autoajuda contradiz a máxima de que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, pois atravessa cada leitura sendo praticamente igual ao que era na leitura anterior. Digo isso porque, apesar da belíssima escrita e da seriedade de filósofo (e não de motivador para grandes empresas), Sêneca, Montaigne, Pascal e Schopenhauer escreveram muita autoajuda. (Não é um tipo de autoajuda quando Schopenhauer diz que um homem nobre deve fazer questão da solidão?) E o que escreveram sobre a morte, e leio há anos, de fato me ajudou a entendê-la. 

Desde que entendi a morte, parei de tratá-la como algo distante, que não dissesse respeito a mim e aos meus. Quando conhecidos somem, cogito brevemente que tenham morrido, até como forma de aceitação prévia daquilo que não é de todo irreal. Também não ajo como se os que me rodeiam fossem eternos, vez ou outra penso que podem morrer sem aviso. Sei que para muitos isso é insensato, mas insensato seria se eu sofresse com a cogitação. Não penso na morte das pessoas que amo para sofrer de ansiedade, penso para incorporar como uma possibilidade da qual não escapo: se acontece a tantos, pode acontecer a mim. Sêneca disse sobre o sofrimento que se estende: “Porque é inútil enlutar-se se nada se consegue com o luto”. Concordei desde que li, mas era cômodo que eu pensasse isso enquanto não tivesse perdido ninguém. Meu pai morreu e vi que sofri pelo tempo que imaginava que deveria sofrer: abraçar a dor sem querer soltá-la não o traria de volta. 

Sempre me perguntei se a morte de uma pessoa amada colocaria à prova meu ateísmo. Minha convicção parece aumentar a cada temporada conforme amadureço – fico muito feliz em me ver caminhando para a racionalidade sadia, e tenho ciência de que ainda há muita jornada –, mas há ocasiões que nos põem em teste. Não falhei quando meu pai ficou doente – falharia na morte? Não. E mais: vi minha convicção ser ratificada e senti que ela me proporcionou a paz da razão que eu precisava. Numa breve entrevista à Veja, a geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, conhecida por seu trabalho de aceitação da morte, disse: “O ateu costuma lidar melhor com a morte. Ele não culpa ninguém, não terceiriza as decisões. O sagrado para ele é a vida em si. Os que seguem uma religião podem querer barganhar com seu deus na hora H”. Não é como se eu tivesse perdido meu pai para outro patamar. Não é como se eu tivesse dívidas com ele e por causa delas ele fosse sofrer “no outro mundo” ou lamentar “Barbara, por que você iniciou aquela briga inútil num dia de verão de 2009?”. Ele viveu o que viveu, e viveu muito, e quem me dera poder viver por 81 longos anos como ele. Morreu de alguma forma, assim como morreram aqueles mais de 8.000 homens que o precederam. Acabou, e depois de tanto tempo vivendo bem conforme pôde. Na mesma toada, a morte põe à prova a fé dos que dizem crer. Esses, estranhamente, caem com muita facilidade. Quem me dera fantasiar que existe um céu maravilhoso com anjos encantadores para onde vão os mortos! Toda morte de alguém querido seria motivo de festa, de celebração, porque partir para o paraíso é a melhor das promoções após uma terra com fome, guerra, tortura, dores crônicas, palestrantes gratuitos de corredor e defensores de políticos corruptos. Como se explica que crentes sofram tanto a morte de seus estimados se dizem acreditar nos desígnios de Deus e na vida eterna? Por que sofrer por alguém que “está melhor do que nós”? Ora, vejam, de nenhuma perspectiva vale a pena se horrorizar com a morte: se você crê em Deus, deveria achar que Ele sabe o que faz e que tem uma poltrona reservada no céu para seus queridos; se você é ateu, a vida como fim em si mesma foi vivida da maneira possível, o sofrimento não trará ninguém de volta e não existem espíritos levitando para ouvir arrependimentos.

Cena do filme Amor (Amour, 2012), de Michael Haneke

Espero que ninguém entenda esse texto como uma forma de ostentação sobre como lidei bem com a morte do meu pai, mas como um incentivo à naturalização da morte, que é parte da nossa história enquanto animais que nascem, desenvolvem-se e em algum momento, por algum motivo, morrem. Compreendo que a estranheza e a dor da ausência possam ser insuportáveis para tanta gente. Lembro de ter lido, há muitos anos, um comentário do novelista Manoel Carlos sobre a morte de um filho: “É uma noite sem fim”. Essa fala me marcou tão fortemente porque consegui exercer grande empatia sobre a situação. Perder um filho deve ser uma dor dilacerante e nunca vi definição melhor para vestir aquilo que se sente a respeito da ausência de quem era parte de nós. Mas há tempo para o luto, e há tempo para superar o luto. Uma morte que não se supera é como uma segunda morte: tive uma tia que nunca aceitou a morte do marido e enlouqueceu, conheci uma moça que só falava sobre sua falecida mãe. Se aquele marido e essa mãe soubessem como ficariam essas pessoas, dificilmente teriam morrido em paz. Como é morrer quando se sabe que alguém precisa de você e vai viver muito mal sem você?

Lembro do meu pai todos os dias. Algumas coisas não ficaram esclarecidas em nossas vidas, mas evito qualquer grande martírio sobre o assunto, pois quando é que podemos garantir “se essa pessoa morrer, tudo estará resolvido entre nós, sem pendências”? Quando cheguei para visitá-lo no dia 20, no hospital, já não estava consciente por causa da forte medicação que tomava. Pedi para minha mãe perguntar ao médico se essa medicação era mesmo necessária na quantidade que era dosada. Ela disse que perguntaria na manhã seguinte. Fui para casa e me imaginei andando com meu pai de mãos dadas, só nós dois, num lugar muito calmo. Conversávamos tudo que eu planejava conversar no dia seguinte, quando meu pai estivesse acordado porque minha mãe teria pedido para o médico diminuir a dose dos remédios. E dormi imaginando isso. Uma hora após esses ensaios mentais, meu pai morreu. Dias depois, minha mãe e eu conversávamos sobre rádios e discos. Ela disse que meu pai pedia para que colocasse músicas românticas para tocar, e um dia ele teria dito: “A Barbara não gosta de músicas românticas, né?”. Meu estômago doeu. Desejei que meu pai pudesse voltar por um minuto só para esclarecer esse assunto bobo. Porque eu adoro músicas românticas, montei uma compilação chamada “Antena 1” só com músicas ótimas e muitas vezes românticas que tocavam no tempo em que a Antena 1 era boa, nos anos 90 – quando essa rádio tocava na minha casa porque meu pai punha para tocar. E tarde demais eu fico sabendo que meu pai esqueceu ou nunca prestou atenção nisso, que não sabia que eu aprendi a gostar de Air SupplyAmerica, Lou Rawls, Toto, Hall & Oates, Gino Vannelli, Madonna, Rupert Holmes, Elton John, Peter Frampton, Ph.D, Supertramp e até Zucchero porque as rádios que ele ouvia – Antena 1 e a extinta União – tocavam todas essas coisas. Quando eu falava de ABBA com ele, talvez achasse que era só para puxar um assunto do qual ele gostava. E houve também um longo período em que esse tipo de música não era ouvida em casa porque meus pais afundaram numa severidade católica que não dava espaço para “arte mundana”. Ao saírem do radicalismo, anos depois, provavelmente não vi necessidade de me mostrar uma discípula de meu pai para certos gostos, não vi necessidade de trazer a recordação “pai, lembra daquelas músicas que você ouvia antes de a Igreja fechar seus olhos para o mundo?”, e hoje uma coisa que me entristece é saber desse distanciamento que tivemos quando estávamos, na verdade, muito próximos. 

Fará sentido sofrer tanto pela morte quando o problema maior é criado por nós para nós quando alguém morre? Se uma pessoa não existe mais, não há o que ser feito. E provavelmente muitas das coisas que martirizam “os que ficam” nem passaram pela cabeça daqueles que estavam próximos da morte. Meu pai certamente não se preocupou ao achar que nossos gostos musicais eram diferentes. Nem pensou que isso precisasse de conserto antes que morresse. Hoje eu olho para suas fotos e sinto calma. Herdei dele a cor da pele, do cabelo, dos olhos, o formato dos olhos, as orelhas de cartilagem muito mole que podem ser dobradas e enfiadas no ouvido, os dedos (só o fato de serem tortinhos é herança materna), a vontade de criar, a curiosidade, um certo desligamento (que muitas vezes é defeito), o sono pesado, um jeito “é o que temos” de lidar com as adversidades. Meu pai não está tão morto. Muito dele vive em mim. E carrego isso para todos os lados.

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NOTAS

1. No velório, muitos me disseram para me lembrar apenas das coisas boas. Bobagem. Essa conduta faz parte do processo que sempre critico de angelização dos mortos. É desonesto e patético. Meu pai não precisa se tornar um herói ou um santo porque morreu. Deixem que seja o que foi, um homem com qualidades e defeitos.

2. E também me disseram para me acalmar enquanto chorava demais. Entendo a boa intenção, mas não é no dia do falecimento que mais temos o direito de sofrer e chorar e tocar a pessoa amada pela última vez? Falavam para eu me acalmar como se estivesse chorando após um ano do falecimento. Por que não deixar que choremos muito nesse dia, que lamentemos sobre um corpo que há pouco estava quente? É o momento. 

3. Se você gosta de uma pessoa que vive, aprecia flores e acha que essa pessoa também aprecia flores, dê flores enquanto a pessoa está viva. Meu pai nunca recebeu flores de ninguém. Morreu e lá estavam três coroas de flores enormes que ele não poderia ver. As coroas são para o deleite dos olhos dos que ficaram? Aqui, uma piada que ele mesmo contava: “Um dia um japonês e um ocidental foram ao cemitério visitar os túmulos de seus respectivos falecidos. O ocidental levou flores, o japonês levou arroz. O ocidental perguntou, debochando: 'quando você acha que o falecido vai vir comer seu arroz?'. O japonês disse: 'quando o seu falecido vier cheirar suas flores'.”

4. Uma tia, irmã do meu pai, morreu há poucos anos. Sempre pensamos que morreria em decorrência do vício do cigarro. Indiretamente, foi o que aconteceu: saiu para comprar cigarros na padaria e na volta foi atropelada. Meu pai, fraco como estava, gerava em nós uma preparação para a morte em decorrência do câncer. Mas também morreu apenas indiretamente por causa disso: estava farto dos curativos nos tumores e resolveu refazê-los numa noite de delírio (causado, possivelmente, pela radioterapia). Em pé por muitas horas, fraturou a perna, caiu e não muito tempo depois morreu em virtude da queda. Ou seja, a morte está sempre nos espreitando. E pode nos pegar de maneira inusitada. 

sábado, 30 de dezembro de 2017

A fogueira das vaidades da terceira onda feminista



Existe um teste que as feministas da terceira onda usam para tentar cooptar mais membros para o Clube das Mulheres Oprimidas, um espaço social onde a música ambiente é o falatório incessante, o traje a rigor é a irracionalidade (venha pelada, mas não venha sem o manto simbólico da falta de bom senso), o ponche de achismo é servido aos baldes e o cenário é algo que um antropólogo de Marte apontaria como “a vontade de rebanho da espécie humana manifestada da forma mais desesperada”. O teste é de apenas uma pergunta: “você é a favor da igualdade entre homens e mulheres?”. Se você responde que sim, dizem “está vendo?, você é feminista”. Claro. Só que ninguém faz a advertência para que tipo de feminismo as avaliadoras defendem. 

A terceira onda do feminismo é uma maré doentia, e os ingredientes da sopa primordial são carência, complexo de inferioridade e ignorância voluntária. O que se manifesta desse caldo é um desejo de aplauso (“lacração”, busca de apoio feminil, “deixa que eu desconstruo as coisas”), um narcisismo expressado aos berros de “Extra! Extra!” e uma repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto. 

Desejo de aplauso constante é carência: sem público, a feminista se deprime, e é na perseguição da aceitação que se adotam posições radicais, extremas, e a “problematização” do todo. A moderação dificilmente atrai seguidores, então é preciso inovar, e a glória de se sentir amada pelo coletivo virá quando uma bobagem for descamada como uma cebola e alguém, com fome de gurus e discursos, disser: “você sabe que eu nunca tinha visto isso dessa forma? Obrigada, deusa”. 

Narcisismo expressado aos berros é complexo de inferioridade. O genuíno narciso, raríssimo, se basta: ele sabe que é melhor, que é bonito, que impera, e não dá a mínima para a opinião alheia. Ele não diz aos ventos a cada instante “eu não dou a mínima para a opinião alheia”, entenda-se. Ele simplesmente não dá a mínima. Já o narciso fajuto precisa se vender justamente porque é muito inseguro, ele necessita que os outros o amem para que ele se ame. Seu encontro consigo mesmo não se dá na solidão da olhada no espelho ou no reflexo do rio, mas na fotografia viralizada dele se olhando no espelho ou no reflexo do rio: não é “eu me amo” seu lema, mas “vejam como eu me amo” – completamente diferente, pois depende de público. O narciso fajuto quer que os olhos dos outros sejam rios onde ele vai ler que é bonito, que tem valor. Este ano uma feminista negra, “filósofa”, disse pela centésima vez que era linda e sábia. Uma feminista morena, “socialista”, disse que a achava feia. A “filósofa” tentou se blindar do choque de o rio ter cuspido em sua cara aquilo que a perturba lá no fundinho, aquilo que a faz choramingar quando os espelhos nos olhos dos outros dormitam: usou ironia, convocou o bloco monolítico (veio trotando em sincronia), jogou a carta da angústia travestida de superioridade e afirmou, num surto de megalomania e despreparo com números, que 180 milhões de brasileiros a amam. Era de sentir pena tanta demonstração de desespero. Quando alguém faz dessas no pronto-socorro de um hospital, logo o enfermeiro aparece para acalmar o surtado e tirá-lo de cena colocando um casaquinho nos ombros dele. Numa reunião de família, vão enrolá-lo num cobertor e recomendar “venha, vamos dormir, já passou da hora de tomar seus remédios”. Na internet o surtado provoca uma epidemia em vez de a plateia entender que precisava de ajuda. A diferença entre o narciso real e o falseado é a diferença entre o tomate e o Nescau no supermercado: o tomate, boníssimo, está nu e despreocupado, porque não precisa se afirmar com nada, não precisa de um pacote de autoelogios; lá no outro corredor o Nescau, que é ruim, trabalha uma ilusão em seu exterior e sente a urgência de se atestar como vitaminado, gostoso, nutritivo, mágico. 

Repulsa ao conhecimento sóbrio e ao contraponto é ignorância voluntária: as professoras de feminismo “se doutoraram na vida” e não estão dispostas a aprender. Mas fingem absorção humilde quando ouvem alguém defender aquilo que elas já pensavam ou quando vão a oficinas como “Radicalize-se: (des)dobre o origami da opressão e descubra o cerne das relações de micropoder”. (Parênteses no meio das palavras costumam ser péssimo sinal; mas sinal dos tempos de fato será quando usarem colchetes e chaves.) Não são refutados argumentos, mas pessoas, e é em nome do ódio ao contraponto que se apela para a guerra das vaidades. A ciência é negada: bom mesmo é estatística feita com método errado – eu ia escrever “duvidoso”, mas não gosto de eufemismos –, astrologia (quando uma feminista é ateia e fã da determinação dos astros, já se sabe: não é ateia por motivo racional e científico, mas porque Deus e a religião representam poder, patriarcado, etc.) e “vivência”. Vivência: mas quem vive o mesmo e conclui o oposto só pode estar fazendo uma leitura errada de mundo. 

“O feminismo é importante para nós porque é necessário para mim” deveria ser a síntese do que esse movimento representa hoje. Não é prioritariamente sobre mulheres que sofrem, é sobre a vaidade das mulheres que alegam sofrer. E nisso se assemelha tanto a toda futilidade que diz combater nos homens. Padrão de beleza, por exemplo. Há feministas que “querem porque querem” ser consideradas bonitas em casca, mesmo que sejam desproporcionais, assimétricas e paquidérmicas. Pensam, com isso, que estão dando um banho de “desconstrução”, só que na verdade estão dançando a mesma música que os homens adoradores de padrões de beleza colocam para tocar. Por que em vez de “todas são bonitas” não se batalha pelo “beleza física nem sempre é importante”? Vaidade, simplesmente. Eu me nego a chamar de bonitas pessoas que considero feias de maneira acachapante. Nem por isso estou desmerecendo quem quer que seja, porque, na minha concepção, beleza não é fundamental – se pudesse escolher, teria ao meu redor gente inteligente, higiênica e aberta ao humor, não gente bonita que não sabe fazer nada. Agora vejamos sobre esse tema a alienação feminista em passos: 

1. O dito patriarcado determina que beleza é fundamental.

2. O feminismo da terceira onda compra essa ideia e corrobora: beleza é fundamental. (Não me lembro de as outras ondas terem reivindicado “somos todas lindas”; acho que aquelas ondas eram mais envolvidas com a questão política do que com a questão trivial e coitadinha da bruxa moderna que não aguenta ver o espelho dizendo que a Branca de Neve tem traços mais harmoniosos.)

3. Patriarcado e feminismo estabelecem uma parceria, um consenso: beleza é fundamental.

4. Se a beleza é fundamental e precisamos combater a sociedade de classes (porque a luta se manifesta mesmo no quesito estético, e a estética é parte do motor da história), nada mais justo do que estimular essa grande osmose que vai diluir as belezas, balanceá-las e permitir que todas as mulheres sejam bonitas.

5. Que conversa é essa de mérito? Não há mais bela e menos bela, todas as mulheres são belas.

É até contraditório que se busque tanto uma aprovação de beleza enquanto se condenam figuras de beleza. “Não chamo minha filha de princesa”, diz uma para logo depois declarar que o adjetivo “linda” é moeda corrente na educação da criança – como se isso fosse essencial, virtuoso. Não adianta berrar, não adianta tatuar, não adianta pregar para as convertidas que vocês são lindas se vocês não são. O esquerdismo tem dessas: não aguenta ver que alguém se destaca, é preciso mediocrizar, nivelar tudo. 

Uma cantora feia (de maneira indubitável) aparece. Canta bem. O “patriarcado” grita que ela é feia. O feminismo, que não quer fazer autocrítica estrutural e por isso permanece numa estúpida dicotomia com o propalado inimigo, diz que a cantora é bonita e que “precisamos falar sobre belezas diferentes”. O que deveria se retrucar é: por que uma mulher que vai cantar precisa ser bonita? Ela não deveria apenas saber cantar? Quando uma cantora precisa ser bonita? Exatamente, quando não sabe cantar. 

Existem pessoas sem dúvida feias, pessoas sem dúvida bonitas, e belezas relativas. Desde criança me incomodo com as perguntas sobre a beleza daqueles para os quais manifestamos interesse apaixonado ou amoroso. (Chamo isso de criança visionária, enquanto vocês todos sempre me chamaram de criança estranha, mas tudo bem se eu trouxe a luz elétrica para o vilarejo antes de vocês terem entendido a importância da vela.) O que faço com uma pessoa que é apenas bonita? E como eu conviveria com uma pessoa que só tinha isso como trunfo? Se meu objetivo é “a beleza plena acima de todas as coisas”, vou construir minha casa rústica no meio de um campo florido, e não querer conviver com quem apenas satisfaça a matemática da estética com um corpo lindo em cada quadrante. O feminismo deveria ser sobre “a beleza não é o mais importante” (dizer que não é nada importante é mentira) e não sobre o autoritarismo de querer forçar todo mundo a achar que Claudia Schiffer e Jocelyn Wildenstein são igualmente belas. 

Empoderamento é uma forma mentirosa de vaidade autossuficiente. “Eu me visto para mim”, “uso salto para mim” e “uso maquiagem para mim” são coisas que na imensa maioria dos casos não procedem. Quase nunca saio sem pelo menos um pouco de maquiagem. E essa maquiagem é para vocês. A prova disso é que não tenho o hábito de usar maquiagem em casa: em casa, apenas passo sombra nas partes ralas das minhas sobrancelhas e um pouco de blush se estiver pálida. Para mim, de verdade, portanto, importa não ter sobrancelha rala nem rosto pálido – batom e pó compacto eu passo para os outros. “Salto para mim mesma” só faria sentido se a dona dessa sentença usasse salto ao estar sozinha em casa: acorda no domingo, coloca salto e vai lavar a louça, ver TV, ler um livro. Isso é “salto para mim mesma”. Se você só usa fora de casa, seu salto é para os outros, não minta que se adora tanto assim, não forje narcisismo. Poucas mulheres fariam questão de se depilar se fossem viver uma temporada numa ilha deserta – mas adorariam ter uma lâmina de depilação se soubessem estar próximas do resgate. Como é confortável a franqueza e como é nojenta a encenação desmedida. 

A terceira onda quer abortar quando bem entender “porque o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser” (segundo mês, sétimo mês – não importa, porque ciência do desenvolvimento fetal não importa, o que importa é a empoderada mimada). A terceira onda quer que mulheres não sejam interrompidas por homens – problema de gênero, segundo elas, mesmo que eu consiga reunir 200h de vídeos em que fui interrompida por outra mulher no que certamente era apenas uma fabulosa sessão de sororidade que não percebi. Problema humano de modo geral e de falta de educação agora é “problema de gênero”. A terceira onda quer mais investimentos em universidades para “pesquisas” sobre gênero nas especializações sobre gênero que publicam inúmeras revistas sobre gênero que nem as próprias “profissionais do gênero” leem – isso é mais importante do que atividades de laboratório. A terceira onda se arroga o direito de falar em nome de todas as mulheres quando decreta que “nenhuma mulher gosta de assovios e gritos de 'gostosa' na rua”, quando, bem, a realidade não se adapta a esses dados inventados. A não ser, claro, que as fofinhas feministas burguesas não gostem da estima exteriorizada desses trabalhadores – em locais pobres, certos tipos de pedreiros distribuem felicidade com seus panegíricos. A terceira onda mente que “nunca é a roupa que faz uma mulher ganhar um assovio ou ser assediada”. Pergunto: quando uma moça bonita muito coberta e uma não tão bonita de trajes mínimos passam por uma construção, quem tem maior chance de receber os “elogios” dos pedreiros? (Não estou falando de certo e errado, estou falando do que acontece.) A terceira onda, ao discutir entre si, é a baixeza daquele diálogo primário entre a “filósofa” e a “socialista” que citei acima: se uma critica a outra, a outra diz que é inveja da exposição, inveja porque escreveu livro, inveja porque é convidada a ir à Globo (a “filósofa”, aliás, sempre que contestada usa o coringa “inveja”). Não difere muito do teor de discussões de mulheres “barraqueiras” resolvendo suas picuinhas “na casa mais vigiada do Brasil”. A terceira onda mente que mulheres gostam ou podem gostar de sexo tanto quanto homens, ou mais. Excetuando o caso de viciadas em sexo – que é uma condição patológica, triste e tratável (lembre-se que viciados em sexo podem muitas vezes precisar se aliviar, na urgência, com mendigos) –, dizer que uma mulher gosta de sexo tanto quanto um homem é desconhecer a biologia, o papel dos hormônios e a cabeça de um homem. A finalidade de mentir sobre esse assunto é massagear a vaidade, para sentir a delícia de fazer com que os outros achem que se é muito sensual. Claro, queridas: vocês certamente correm com frequência para o banheiro quando estão com muito tesão e têm certeza que continuarão assim aos 60, vocês certamente se igualam à quantidade de masturbadas diárias de rapazes na puberdade – no mínimo três, no máximo a esfola –, são os parceiros de vocês que inventam que têm dor de cabeça ante insistências incômodas. Claro. Tudo muito verídico. Essas proclamadas famintas são os Cadernos Pagu recebendo um sopro da revista Nova. Há mulheres que lamentavelmente nunca gozaram na vida (não culpem somente os homens “que não souberam fazer”; foquem em ensiná-las a descobrirem seus corpos sem nojo), mas as “deusas da terceira onda” nunca podem ser saciadas porque estão eternamente ávidas. É uma competitividade mórbida: essa feminista não quer gostar de sexo de modo saudável de acordo com o que a natureza lhe dá – ela tem tanta obsessão por odiar homens que só se satisfaz quando fantasia que seria capaz, ela, de engravidar pelo menos 365 pessoas num ano. O sexo é uma dádiva da evolução: maravilhoso, natural e simples. Por que o feminismo quer transformá-lo em farsa, ganância, “luta”, concorrência, soberba?

Um “feminismo” que esperneia como uma criança no supermercado se jogando no chão quando quer alguma coisa desnecessária – que ele me ligue no dia seguinte como prometeu, que as pessoas me achem bonita, que me deixem falar meu monólogo até o final, que eu possa chamar de assédio se tiver vindo de um homem feio, que eu possa chamar de estupro se me arrepender depois, que eu não tenha que provar minhas acusações porque o que importa é a palavra da vítima, que eu possa me sobressair sobre estudados porque tenho vivência, que eu não precise assumir minha ignorância quando um homem quiser me ensinar o que não sei – não pode, não deve, ser levado a sério e nem atendido em suas exigências. Não se renda às exigências triviais feitas aos gritos: da próxima vez não deixe essa mimada ir junto ao supermercado. 

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NOTAS

1. Em terreno polarizado, é preciso explicar o básico para não entrar na roda: há muitas pautas feministas importantes (aborto até o terceiro mês, masturbação feminina, desvencilhamento do pacote casamento + filhos, divisão de tarefas, educação infantil livre de imposições limitadoras, combate à violência doméstica). Meu asco é sobre a terceira onda, que não é um movimento político, mas um movimento de estímulo das vaidades, de adoração a personagens pitocos transbordando prepotência e de resposta à vontade animalesca de agrupamento. Se você é “contra o feminismo”, saiba que não estamos no mesmo barco. 

2. É incrível como algumas pessoas são bonitas. Mas e depois? Ou: mas e o que mais? A mera beleza basta a mulheres fúteis e homens babões, mas, francamente, o que faço numa mesa de bar sentada com Marina Ruy Barbosa e Zara Larsson? A companhia de Willem Dafoe e Steve Buscemi – que não considero feios, mas que estão muito longe do “padrão” (e que por isso são tidos como feios por muita gente) – traria melhor proveito, sem dúvida. 

3. É multifatorial o problema das mulheres que não gozam (muitas até pensam que talvez gozem). Uma cultura do pudor, do nojo que a mulher deve sentir pelo próprio corpo, a dificuldade de alcançar o que se deve (enquanto no homem a natureza trouxe tudo muito escancarado, como uma ferramenta que o colega dele pede na oficina mecânica e “tá na mão”), intromissão religiosa quando Jesus nunca deu um pio sobre o assunto. E é um problema que não deve ser menosprezado, pois traz infelicidade tanto para ela quanto para ele quanto para elas (num casal lésbico). Achei perfeita a comparação que um dia fizeram com um espirro: não apenas porque se manifeste como um “atchim” a caminho, mas porque ninguém tem dúvidas se espirrou ou não. Ninguém diz “olha, eu acho que espirrei” ou “tenho a impressão de que espirro junto com meu marido todas as noites”. 

4. Mulher que diz gozar exatamente ao mesmo tempo que o parceiro: uma iludida ou, essa sim, uma deusa em sintonia perfeita com um deus. Vocês na neve, vem um vento gelado, as roupas não são suficientes: qual é a probabilidade de você e seu parceiro espirrarem juntos? Pois é. 

5. É possível se afastar, mas não adianta negar: nossa natureza influenciou o desenvolvimento da nossa cultura. Há motivo para homens gostarem de mulheres bonitas. Há motivo para mulheres gostarem de homens com dinheiro. “Isso é tudo cultural” – sim, mas como fruto da árvore da natureza. Mulheres lindas casadas com bilionários feios é algo comum, mas é raro que bilionárias feias consigam se casar com homens lindos. Revistas de homem nu não fizeram sucesso. Homens que ganham menos que suas parceiras são comumente tratados com leve desprezo por elas – e são fortes candidatos a serem traídos se além disso forem completos bananas. Homens não costumam gostar de mulher-macho, mulheres não costumam gostar de homens afeminados. Casais de mulheres têm uma fidelidade muito maior que casais de homens: até no mundo homossexual a vontade carnal do homem de “diversificar” se manifesta. Acho muitas dessas coisas ruins – mas é minha opinião sobre um dado. Negar a natureza não vai apagá-la. É melhor tentar trabalhar com ela.