sexta-feira, 8 de junho de 2018

Povo é bicho tolo

Tópicos para esse título:

1. Ficamos reféns do que foi principalmente locaute (“greve de patrões”). De cada 10 caminhões no país, 7 são de transportadoras, ou seja, o caminhoneiro que dirige costuma não ser dono do próprio caminhão. (Se não sabe o que fazer com essas informações, volte várias casas e questione seu professor sobre a escola ser um depósito de crianças.) Começavam a escassear remédios, combustíveis, alimentos (milhares de animais de criação – esses cadáveres que vocês põem à mesa enquanto fingem mal que têm uma vida bonita – morreram de fome mesmo após episódios de canibalismo). Enquanto isso, no lustre do castelo popular, três agrupamentos bisonhos manifestaram aquilo que infelizmente é de graça: opiniões. 

O primeiro agrupamento, do “cidadão que não aguenta mais”, disse que “finalmente alguém protesta nesse país”. Vê Faustão, leva uma hora para dar banho de mangueira no carro, gosta de miçanga nas Havaianas, reza antes de dormir, acha que os filhos e os netos fazem coisas de cientista que nenhum filho e neto de outrem já fez, espanta o tédio com séries e novelas sem fim (mas teme a morte: não é bizarro que muitas vezes os que mais temem a morte levem as vidas mais entediantes? O que alguém com uma vida entediante, que já é um tipo de morte, tem a perder morrendo? Tyler Durden neles), explica seu lixo pessoal pelo signo (ou pelo ascendente, ou pela Lua, etc., até que a superstição se justifique), quer medalha por ter doado uma sacolada para a campanha do agasalho, inveja quem tem mais coisas materiais, mais beleza, parceiro sintonizado e não aguenta mais

O segundo agrupamento, dos esquerdosos delirantes, forçou a politização do caminhoneiro como um pedido de “fora, Temer”. Devem viver boa parte do ano no alto de montanhas à base de fotossíntese, o que explica cogitar que o caminhoneiro é essa consciência política toda. É bom lembrar que atrás de todo manifesto há uma massa desnorteada que é empurrada para algo que não sabe bem do que se trata: o corpanzil caminhoneiro parado nas estradas não escapa disso. Mas o esquerdista é um dúbio que oscila entre o romântico e a vontade de sangue, e no episódio aqui referido decidiu usar sua faceta de apreciador da criação fantástica. 

O terceiro agrupamento, do “somos um caso a ser estudado”, partiu de uma direita estranha que ora quer livre mercado, ora aplaude o circo pegando fogo ao redor de ególatras que estavam, geralmente em nome de seus patrões, pedindo subsídios do Estado. Nada está tão ruim que não possa ficar pior: o agrupamento entrou em êxtase quando viu a primeira bandeira clamando intervenção militar, pois mesmo quando não apoia esse pedido do retorno da tortura e da execução, o direitoso gosta de ver quem exija isso só para irritar esquerdosos – só mais um sintoma para justificar que a adolescência esteja cada vez mais longa. 

Não entrarei no mérito da violência promovida por alguns “manifestantes”. Foi medonho, mas pontual considerando o cenário todo – movimentos não podem ser deslegitimados por completo porque um ou outro irresponsável age conforme mandam as vozes selvagens que saem dos personagens sentados em seus ombros. Ocorre apenas que o motim caminhoneiro não foi nada disso que os três agrupamentos tentaram fazer pegar: não foi lindo, não foi mágico, não foi patriótico, não foi pela queda do presidente, não foi pelos tributos que toda a população paga. “87% da população apoia protesto, mas não quer pagar a conta”. Que adjetivo senão tolo seria melhor para um povo que acredita em Estado máximo com imposto mínimo, almoço grátis e chuva de maná (ou diesel) promovida pelos céus? Tolo é um adjetivo até meigo. A palavra melhor é outra, mas estou evitando usá-la porque é especista – desrespeita um bichinho que não merece se misturar a essa gentalha.

2. Os polos políticos estão em tal desespero para cooptar pessoas à causa que tentaram fazer uma compra rápida do protesto caminhoneiro: “são muitos, estão afetando o país, os jornais mostram preocupação – vamos dizer que são gente nossa”. Sem a CUT e a diária + lanche, a esquerda não conseguiria colocar muita gente na rua para um protesto alucinado e febril. Por que não pegar um atalho e apropriar a greve dos caminhoneiros como uma revolta de motivação esquerdista? “Até o caminhoneiro não aguenta mais o mordomo!” Sem brucutu massa de manobra, delivery de armas e jovens viciados em videogame, a direita também não conseguiria um efeito chocante na sociedade. Por que não dizer “esse protesto é meu protesto”, “#somostodoscaminhoneiros” e fazer daquelas panças em fúria (antes do almoço – depois do almoço uma soneca e voltamos às 15h) uma representação do povo cansado da carga tributária?

3. Terminei de ver a ótima série documental Wild wild country, do Netflix, sobre o guru indiano Rajneesh e sua seita. Não há nada de espantoso que não possa ser visto se perambularmos no meio do povo. A carência coletiva é tão grande que qualquer coisa incensada, ilógica ou de boa oratória consegue hipnotizar sujeitos coitados que precisam ter onde se encostar. Gurus sobejam atendendo aos dignos de pena: Deus, Nossa Senhora (que já esteve mais in), os astros, o “santinho”, a quinoa (“milagrosa!”), o limão (“cura câncer!”), o influenciador digital, a Editora Sextante, o minimalismo (“traz felicidade!”), o médium, o pastor, o psicólogo da moda, a nutricionista da moda (“açúcar nem por cima do meu cadáver!”), a estilista da moda, a mãe da moda (“livre demanda!”), o jornal, aquele blogueiro, aquele colunista, o grupo “tudo artesanal ou morte”, o feminismo, o movimento negro, a Apple, aquela cultura romantizada, aquele estilo musical, “pais de felinos e caninos”, Lula, Bolsonaro, Enéas, etc. O guru, como veem, pode ser uma pessoa, um alimento, um bando ou uma marca. Importante é atender ao propósito de almofadar a vida de quem se sente vazio se não for guiado por convicções, desígnios e mornuras grupais.

4. Se o Deus católico se faz em regimento na pessoa do Papa, que tortura trabalhar numa empresa com um chefe de humor tão instável que numa década está amoroso e na outra quer nos mandar para o inferno porque pecamos um bocadinho. João Paulo II foi o avô tradicional, mas querido. Tivemos Bento XVI, a governanta. E agora Francisco, o tio solteirão. Quem leva a sério essa instituição que fala em nome de uma entidade infinita que a cada temporada assume um perfil? (Na verdade eu também gostaria de ter a chance de ser infinita, portanto invejo os disfarces, as personalidades e o guarda-roupa de Deus.) Há pior, sem dúvida. Prefiro beijar o pé (a sola) do Papa a pisar num antro dominado por Valdemiro Santiago. O Papa pelo menos parece de fato acreditar no que prega. E não vende canetas abençoadas para vestibulares (água benta é de graça nas capelas, vá e mergulhe sua Bic). Dado pitoresco: quem frequenta o culto de Valdemiro Santiago pode votar. Não sei como alguém consegue explicar isso para os próprios filhos sem constrangimento. 

5. Cada povo que vive numa democracia tem os governantes que merece (pois vota neles). Temer só não caiu porque comprou o Congresso, e quem compôs o Congresso foi o povo, que já está preparado para votar tudo errado outra vez. Povo vota em ladrão, em corrupto, em celebridade. Não existe discurso humanitário que dissimule florindo: o povo é de uma incompetência assustadora para fazer o pouco que lhe cabe (não se aplica somente ao Brasil). Quem dá grande responsabilidade (votar) para incompetente (o povo)? Quem não sabe graduar as coisas, as tarefas, as pessoas. O projeto democrático é como o liberalismo, o socialismo e o comunismo. No papel, um texto encantador. Na vida real, uma ação política que quase só a Escandinávia tem alguma chance de aplicar do jeito certo, sabe-se lá como.