domingo, 4 de março de 2018

A literatura infantil não está proibida para fruição de adultos



Meu “Projeto Liberdade E Felicidade Acima Do Que Pensam Os Limitantes” (os limitantes costumam ser vocês, entendam: não terceirizem a mentalidade provinciana como se só dissesse respeito aos outros) inclui comprar roupas na seção masculina desde antes de a moda declarar a arara bigênero como o must da estação, não acumular dinheiro para levá-lo ao túmulo como um faraó e ler literatura infantil a me fartar. Às vezes se está a viver plenamente após rasgar as caixas “isso é o que está adequado à sua idade”, “isso é o que está adequado ao seu gênero” e “isso é o que está adequado à normalidade”, mas um irônico saído do esgoto desanda a gritar diagnósticos que não procedem no manual psiquiátrico. Talvez seja mesmo necessário um projeto para lidar com tipos tão deprimentes. Maiores resmungos antissociais deixarei para as NOTAS, que hoje estão exorcizando monstros que me visitam (sem que fossem convidados) e colocam os pés sujos no meu sofá desde a infância. 

Existe uma virtude conhecida que é a do talento. Para cantar, pintar, escrever, liderar, calcular, ser pragmático (declaro, sem modéstia, que tenho certeza de ter o último). E existe outra virtude, desconhecida, que é a de saber e querer reconhecer o talento alheio. Saber e querer dizer “que bonito”, “que solução inovadora”, “eu nunca poderia fazer melhor”, “você é uma fonte rica de ideias”, saber e querer demonstrar que se aprecia o que alguém faz. Na falta de qualquer talento que proporcione louvor, ter esse de apreciar e externar a apreciação já é algo luminoso. Não confundamos com quem distribui elogios como se fossem folhetos “compro ouro”: todo mundo é lindo, qualquer rabisco feito às pressas por uma criança preguiçosa é uma dádiva, “eu sou capaz de ver a bondade no fundo de cada alma”, etc. Não se trata desse espécime meloso, bajulador ou ansioso para ficar bem no quadro. Falo de algo sincero e especial partindo de uma pessoa sensível que é apta a ver um dom particular em outra pessoa e estimá-lo. Até porque receber um elogio de alguém que elogia qualquer coisa não tem nenhum valor. 

No reino das coisas convencionalmente condizentes à infância há muita injustiça da parte da massa leiga. É como se o “para crianças” fosse algo menor. Experimente ter 40 anos e declarar que adora os desenhos do Mickey Mouse. É quase certo que será vítima de deboche, porque gostar desse tipo de entretenimento aos 40 é um atestado de fracasso para quem adotou o pacote entediante da vida adulta a todo custo. Não adianta explicar que a história foi escrita por adultos talentosos, que o desenho foi, principalmente quando surgiu, uma novidade cheia de capricho, que não é demérito rir de um humor tão físico quanto os “para adultos” Chaplin e Os três patetas. Basta que seu gosto seja por algo “infantil” para que uma série de adjetivos sejam lançados sobre seu “problema”. 

(Aos simplórios de pensamento: não transformemos isso numa falácia da ladeira escorregadia. Estou falando de entretenimento denominado “para crianças”, não de roupas e acessórios que de fato só fazem sentido para pequenos. Não venham escancarar ignorância, os Senhores Adultos, a ironizar: “ah, então vamos tomar uísque na mamadeira” ou “uhum, na próxima refeição vou colocar meu babador de ursinho carinhoso”.) 


Se um artista vive de criar arte “para crianças” e não está nadando em fortuna ou glória com isso, será frequentemente intimado a fazer algo sério, “adulto”. Seus amigos de outras áreas vão muitas vezes ler seus trabalhos e terminá-los com um sorrisinho “oh, que fofo”, mas só vão comprá-lo se tiverem um filho em casa ou outra criança para presentear porque têm em mente uma continuação: “oh, que fofo… para uma criança”. Aquele livro, com aquela história “infantil”, não tocará, por mais talento que carregue, um perfeito adulto que se limita no aproveitamento de todo tipo de prazer que as mais diversas artes podem dar. O livro não foi “socialmente” indicado para ele; ele não achará de bom tom reconhecer as qualidades do livro sem que afunile o elogio. 

De minha parte, conheço dois tipos básicos de peças artísticas: as boas e as ruins. Já chorei com a profundidade de uma história “para crianças” de 30 páginas, já passei raiva ao ler um livro de 300 páginas que foi escrito por um incompetente afoito para fazer fama e dinheiro. Aguardei ansiosamente a chegada de A pior princesa do mundo, das incríveis Anna Kemp e Sara Ogilvie, esqueci de livros adultos que comprei e chegaram com atraso. Então que se um livro infantil é bem escrito, tem ilustrações viajantes, leva-me para seu mundo, não tenho razão nenhuma para não adquiri-lo para minha biblioteca particular só porque não há uma criança física morando na minha casa. Faço questão de prestigiar esse talento, principalmente porque foi bloqueado, pela cultura da arrogância vã, a alcançar outras faixas etárias que se beneficiariam dele. 

Na página da Amazon comecei a fazer avaliações (breves resenhas) de livros infantis porque achava muito superficial o que se costuma escrever lá. Coisas como “minha filha adorou e me pede para contar a história todos os dias” – quase sempre isso. É claro que é muito bom que a criança da casa tenha gostado do livro e peça para revivê-lo. Se há uma coisa que me encanta nas crianças e me desencanta nos adultos é que a criança não vê no livro que leu e gostou um “check, posso tirar da lista”. Enquanto adultos leem livros para satisfazer a uma demanda cultural muitas vezes momentânea – “tenho que ler, todo mundo está falando sobre ele” –, para dizer com ares de quem terminou a limpeza da casa “ufa, agora esse eu já li” e, pasmem, mesmo que tenham adorado o livro acham que uma vez lido é preciso passá-lo adiante para um colega, crianças boas costumam nutrir amor verdadeiro pelas histórias que as interessam. Pedem para que os pais as leiam para elas cinquenta vezes, não interessa se já decoraram as falas e as cenas. Se o escritor e ilustrador de livros infantis passa maus bocados com adultos que acham sua arte inferior ou útil somente para a fruição de uns, pelo menos há o conforto de ter em boas crianças os mais fiéis leitores que não tratarão suas histórias como uma folha de papel-toalha que se usa uma vez e depois se joga fora. Voltando à Amazon: que ótimo que “se meu filho gostou, então é bom”. Mas permita-se gostar do livro junto com ele e tente não vê-lo, só porque é infantil, como algo “infantiloide”. Analisa-se o livro adulto, não há por que não analisar o infantil além do “meu filho gostou”. Vejam: não é qualquer tonto que escreve boa literatura infantil, é preciso um talento para o ofício. Há quem desande a escrever poesias porque “parece fácil, vou escrever”, e acha que faz às pressas, num momento de louca inspiração, algo semelhante ao que faziam Goethe ou Gregório de Matos. A esse sujeito não falta apenas um espelho, mas óculos. E há quem tenha a literatura infantil como algo “tão simples que qualquer um pode fazer”. Acho que nem quem diz isso acredita, no fundo, naquilo que diz – senão já teria escrito, ilustrado e publicado livros, e já estaria com a vida ganha fazendo uma arte tão “básica”. 

Não entendo: se gostamos de uma música, queremos ouvi-la diversas vezes, reencontrá-la. Com o livro, uma vez lido, tchau. Ninguém diz: “essa música da qual você fala eu já ouvi e adorei, mas não vou ouvir de novo, afinal já ouvi uma vez”. O livro passa essa imagem de fardo: “por que vou ler de novo se já o li?” Músicas são aproveitadas em minutos, livros em horas – argumentarão alguns. A pergunta é: como reviver os trechos de um amado livro que foi usado como passatempo e depois doado à avó porque toma-se um livro lido como um estorvo dentro de uma casa morbidamente minimalista? 


Existe mais uma figura a quem se perdoa a infantilidade além da criança: o velho. Somente a crianças e velhos são permitidas certas alegrias como usar roupas antiquadas ou embalar-se num balanço. Uma mulher de 40 anos está andando à noite, vê um parque infantil e senta-se no balanço para sentir o vento a lhe soprar o rosto. Uma outra mulher de 35 anos, amargurada, passa na rua e vê sua contemporânea naquela serelepe diversão. E pensa que a outra é uma ridícula, uma “louca”. Mas se a senhora no balanço tivesse 80 anos, cabelos branquinhos, vestido florido sob casaquinho de tricô: “ai, que bonitinha” – a mesma coisa seria dita se fosse uma menina a se balançar. Ou seja: existe uma tradição da prisão às faixas etárias que é tão alienante que cria situações descabidas. De fato e por direito: que beleza e permissividade há numa velha se balançando que não pode haver numa quarentona fazendo o mesmo? Não digo para acharem a quarentona bonita, apenas que a deixem em paz. 

Esses dias eu estava com a minha mãe numa loja. Peguei uma camisa na seção masculina e mostrei para ela. “Que linda!” Eu disse: “pois é, e é da seção masculina; o que impediria você de usar essa camisa se gostou dela?” Na mesma hora pensei o quanto as pessoas perdem se impondo limites que os outros criaram. As roupas da seção masculina às vezes têm cores mais bonitas, tecidos melhores, cortes mais clássicos e são mais confortáveis. Mas as mulheres só respeitam o uso feminino do que foi atribuído ao masculino quando célebres encorajam essa transgressão: Coco Chanel furtando peças dos guarda-roupas dos namorados, Yves Saint-Laurent pondo mulheres de smoking em propagandas, Herchcovitch e sua nova marca À La Garçonne vendendo itens “unissex”. O mesmo ocorre com a literatura que se chama “para crianças”, e não “só para crianças”. É vantajoso e organizado que uma literatura voltada para elas já esteja carimbada com a determinação “infantil” (também é vantajoso e organizado que exista a seção masculina, que privilegia o corte de ombros mais largos, braços e tronco mais compridos), mas isso não proíbe nenhum adulto sensível de comprar esses livros, lê-los e manifestar estima. Quem não aproveita a riqueza dessas histórias tão bem ilustradas apenas porque teme fugir à normalidade deve ficar com pena de si mesmo: pior do que não ser livre é poder ser livre e não querer ser. 

***

NOTAS 

1. Por ter apreço à cultura da infância e permiti-la na minha vida junto a outros gostos livres, tenho que aguentar tantas abobrinhas que precisei alugar uma cozinha industrial para colocá-las lá. Acho uma honra ser considerada bizarra por uma categoria uniformizada, mas também acho muita empáfia quando esses uniformes não apenas pensam ou cochicham a meu respeito, mas vêm “tirar com a minha cara” pessoalmente quando sequer dei um naco de intimidade para isso. Muitas vezes são figuras patéticas que confundem “ser engraçado” com “ser ofensivo”. É possível ser ofensivo e ainda assim engraçado quando se faz uma piada sobre uma pessoa na cara dela? Claro. Isso geralmente acontece quando seu objetivo primordial é ser engraçado. As figuras patéticas que menciono engendram outro objetivo primordial: “lá vou eu ser ofensivo”. 

2. Acuso uma injustiça: sou erradamente chamada de pavio curto. Bom, para me chamarem disso é porque existe um parâmetro em algum lugar. E esse parâmetro, descobri não tão cedo quanto gostaria, é o típico bundão, que aliás abunda. O bundão ouve alguém a provocá-lo e não percebe ou finge que. E ri com o idiota (e não do idiota), que está à sua frente querendo ofendê-lo de modo sutil, mas obviamente planejado. Daí que eu, que não sou uma larva alienada na goiaba, ao notar que me ofendem tendo a, em uma parte mínima dos casos, responder. Só que respondo um pouco mais alto do que se determina no “Mundo Bundão Onde Não Devemos Arranjar Rusgas E O Melhor A Se Fazer É Tentar Ser Amigo Masoquista Do Idiota Para Passar Uma Imagem De Boa Pessoa” e aí a pavio curto sou eu. Ou seja, querem levar o cristianismo ao máximo absurdo: acham que o certo é adotar a postura do Jesus medicado com Rivotril dizendo para oferecer a outra face em vez de imitar o Jesus furioso que destruía as barraquinhas dos comerciantes no templo ao som de “Sabotage”, dos Beastie Boys. Se me dão um tapa, é claro que é meu direito de ser humano animado (com alma, e também, felizmente, nervos) revidar com um tapa maior, desde que não muito desproporcional. 

3. Jesus pensa: “mas eu aqui outra vez?”. Sim, Senhor, porque Vossa popularidade é tão alta que qualquer exemplo é ajudado quando usamos Vosso nome ou o de Hitler. Gosto da figura criada sobre Jesus. Há coisas a serem melhoradas, mas quem é que não precisa se tornar um pouco melhor? Para começar, Jesus poderia ser vegano e multiplicar apenas pães, não peixes. Também poderia aparecer de vez em quando com uma mão gelada no meio da noite para assustar autoproclamados cristãos que são fúteis, supersticiosos, acumulam dinheiro em vez de doá-lo aos pobres, tratam a religião como amuleto, vivem fofocando sobre coisinhas, traem seus parceiros em vez propor logo um relacionamento aberto ou a separação, rendem-se à vaidade, dizem “eu até tenho um amigo gay”, dizem “tem que fuzilar” a respeito de mendigos, fazem comentários maldosos sobre a vida sexual de uma mulher muito mais bonita e solteira que está sempre com um namorado diferente (a Maria Madalena moderna), etc. Espero não estar escalada para essa visita noturna, Jesus, pois nem cristã eu sou. 

4. Como eu disse: “em uma parte mínima dos casos” é que respondo. Na maior parte, apenas me afasto de quem precisa me ofender para se sentir melhor com suas inseguranças e misérias, pois não adianta tentar mudar o caráter dos outros se não pudermos obter o auxílio de uma machadinha. O típico bundão a que me refiro não é quem ignora e se afasta de um idiota: é aquele que se curva ao idiota, sente necessidade de ser aprovado pelo idiota e permite que ele, o idiota, perpetue achando que seu estilo ofensivo é arma de sedução de coitados. 

5. É verdade que às vezes essas pessoas das quais a gente se afasta voltam com seus “oi, sumida”, porque um parasita precisa de hospedeiros. É importante estar vacinado. Ou enviar como resposta a música “Magic fett”, do italiano Unconditional, e pedir para o parasita: “por favor, preste muita atenção na letra”. (No YouTube essa música foi upada como “Magic feet”, mas o certo é fett.)

6. Se eu tiver a sorte de chegar a me tornar velha, estou quase decidida a só usar coturno, roupas pretas e um cabelo à Elke Maravilha (versão sem dreads) para que ninguém ouse me tratar como um filhote de cachorro só porque pareço frágil. Sou uma forte candidata à velha que faz com que inclinem a cabeça para o lado em sinal de amorzinho: baixinha, gorducha, branquela e com péssima memória de curto prazo que é externada numa inconfundível expressão facial de confusão – “o que eu vim fazer aqui, mesmo?”. Talvez seja preciso que comece a dizer palavrões também para que seja levada a sério.

7. É lamentável que parte das histórias infantis tenham como personagens animais que todo mundo acha lindo no livrinho, mas não se importa de comer no jantar. Antes de colocar os filhos para dormir, os pais narram tramas amáveis envolvendo porcos e frangos – quando acabaram de servir para essas crianças, sendo treinadas em esquizofrenia moral, sanduíche de queijo com presunto ou canja de galinha.