segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Retorno à ficção



Antes de mais nada quero defender aquela língua portuguesa velha, com acentuação à vontade que deixava tudo às claras. Esse título, por exemplo. Do jeito que está escrito, ninguém sabe muito bem se estou usando o substantivo retorno ou conjugando na primeira pessoa do singular o verbo retornar. Estou escrevendo pensando na sonoridade de “retôrno” e sai essa ambiguidade para quem está lendo e não ouvindo. Desagradável. Não acho que nosso idioma deva ser facilitado em nome da união ou do aprendizado estrangeiro. Nunca pedi para os italianos se unificarem em seus dialetos para que valesse a pena meu possível estudo da língua a fim de usá-la no país todo e não só nas cidades mais pacificadas. No arcaico português havia exageros, eu sei, como acentuar a palavra “êle”, mas não era uma forma muito mais segura de leitura quando você lia a palavra e naquele instante captava o som que ela deveria ter antes mesmo de conhecer o contexto? Tínhamos já problemas e criaram mais em vez de resolvê-los. Os espanhóis colocam um ponto de interrogação antes e depois da sentença. Preciosismo? Não, coisa que deveríamos adotar para facilitar a leitura. Quantas vezes lemos uma frase de três linhas mentalizando um tom afirmativo e encontramos, com surpresa, lá no final, um tardio ponto de interrogação? Então é preciso reler a frase inteira para mudar o tom – o autor parecia afirmar o que dizia, mas na verdade estava perguntando, o que altera tudo – e captar o significado real do que era lido. A mesma coisa deveria ser feita com o ponto de exclamação, que às vezes nos pega de supetão no final de uma sentença que líamos com a calma de um monge... e de repente percebemos que precisamos gritar a última palavra. Pensei que eu era uma exigente, uma metida a purista solitária ao sugerir essas melhorias, inspiradas em outro idioma. Até que um colega de trabalho disse pensar o mesmo e não me senti tão ilhada. 

Ao assunto. Já escrevi ficções de tudo que é tipo. Muitas coisas eram tão horríveis que, São Jerônimo!, tenho vergonha de reler hoje em dia. Se leio, é mais para achar graça ou para encontrar aquela célula sensível à luz que na escala evolucionária um dia se transformaria num olho. A pergunta é: já transformei aquela célula em olho? Voltei de fato a escrever ficção, mas sem saber se essa seleção natural aconteceu. 

Não sei me definir direito enquanto pessoa que escreve ficção, não sei exatamente o que almejo. Apenas sei o que não quero fazer de jeito nenhum e o que pretendo pelo menos evitar fazer. Não quero de jeito nenhum usar os livros como catapulta, seres meramente funcionais, intermediários, passagens para “um objetivo muito mais importante”. Não. Tenho repugnância por quem trata livros somente como meios para o alcance de finalidades egoístas. Não leio livros pensando “vamos ver se Machado de Assis pode contribuir para meus escritos”, leio porque o valor está nos próprios livros. Dito isso, não nego que de forma secundária muitos dos livros que leio me ajudam a construir uma história – não tanto com ideias, mas com palavras. Diversos livros que leio têm, na última página, palavras anotadas. São palavras usadas no livro que me chamam a atenção e vou anotando. Nem sempre são palavras muito diferentes, marcantes. Hoje eu estava revivendo alguns livros do sociólogo Erving Goffman, que li há muitos anos, e na última página de A representação do eu na vida cotidiana estavam escritas várias palavras, dentre elas: “regular (verbo)”, “inconveniente”, “terapêutico” e “ruptura”. São palavras simples, de significados fáceis, mas eu preciso listá-las, porque na hora de escrever uma história essas palavras não serão lembradas e não virão numa bandeja. Assim, por muito tempo eu parei de escrever e me contentei em colecionar palavras. Porque ideias para histórias considero fácil ter, o diabo é saber contá-las com as palavras adequadas. 

Colecionar palavras tem a ver com outra coisa que não quero fazer de jeito nenhum: escrever de forma corrida como quem conta um causo. Muitas das literaturas que tenho lido nos últimos tempos parecem escritas em “momentos inspirados”, quando o escritor senta em frente ao seu notebook e vai teclando as cenas num fluxo contínuo que cessará com o cansaço. Hoje não escrevo ficção assim e nem quero. Em nome da honra técnica e de um certo perfeccionismo, não desenvolvo mais do que meia página por dia. Há dias (mais precisamente, madrugadas) em que escrevo duas linhas e fico revendo minha lista de palavras para ver se alguma delas não se molda melhor às sentenças do que outras palavras que já estão lá. Também forço a inserção de palavras que soam bem, porque meu papel é técnico e artístico, e não de deleite enquanto laboro. O deleite tem que vir para quem lê depois e para mim mesma quando acabar a peça e me encontrar satisfeita. Enquanto elaboro e uno e troco e refaço e acrescento e apago, não estou ali para me divertir, estou ali para padecer e trabalhar. Desconfio da qualidade do texto de qualquer um que se apresente como “alguém que se diverte” enquanto cria na escrita. Ou é um talento raríssimo que não precisa reescrever, reescrever, reler, reler, reescrever, ou é um impostor. Provavelmente um impostor. Ou é inveja minha por imaginar que podem fazer com graça o que faço suando. 

Quando eu estava na oitava série, uma professora de português dava uma aula sobre métrica. Eu disse: “poxa, mas esses poetas ficam usando cálculo para fazer poesia… aí a poesia perde toda a emoção!”. Ela retrucou, olhando por cima dos óculos: “você acha mesmo que Vinícius de Moraes fazia sonetos ruins só porque se atentava à forma imposta pela métrica?”. Naquela hora não lhe dei razão, mas depois compreendi tudo como se uma janela tivesse sido aberta na minha cabeça e posto meus neurônios para arejar. É necessário ser um fingidor, um tecnicista, para fazer uma boa obra. De obras bem-intencionadas os sebos e os estoques estão cheios. Michelangelo não esculpiria as dádivas que esculpiu se achasse que seus sentimentos e sua inspiração bastavam: ele mediu, reviu, calculou, lixou, aperfeiçoou. Se achasse que emoção extravasada fosse suficiente, não teria sido Michelangelo, mas um “artista” que faz troços pós-contemporâneos. A menos que se tenha certeza da própria qualidade – “sou um talento raro que transpira competência” –, confiar nas emoções na ação de criar é uma petulância, uma soberba, uma megalomania. É preciso técnica, atenção à minúcia, cuidado de programador. 

O que pretendo evitar fazer é escrever apenas uma boa história. É uma responsabilidade muito grande ir além de escrever uma boa história – que já é, em si, uma pequena glória comemorável –, mas é isso a que aspiro. No mínimo uma boa história já me faria feliz, mas uma história que fosse além de “é apenas uma boa história” me poria em estado de crise eufórica. Uma história que tem meandros, uma história que a cada leitura desengaveta coisas novas, uma história que martela: essa é a história que eu quero escrever. De maneira alguma estou tirando méritos de simples boas histórias. O que ocorre é que as “apenas boas histórias” não são como os clássicos, que marcam e precisam ser constantemente relidos. Uma boa história passa. Uma história que tem um estilo memorável nunca vai passar nas mãos de quem sabe ler (friso isso sobre o bom leitor porque há quem passe clássicos adiante como se tivesse lido Sidney Sheldon). Uma boa história vai matar toda a família no meio de uma guerra dramática – e vai passar. Uma história com estilo marcante vai virar cem páginas falando sobre as moléstias de uma perna – e vai permanecer. A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, é uma boa história. Eu me preocupei, eu palpitei, eu chorei. Mas terminou e passou. Laços, de Domenico Starnone, é uma boa história. Mas terminou e passou. Um amor incômodo, de Elena Ferrante (acusam Starnone de ser Ferrante), é uma boa história, mas logo que terminou já encerrou. Eugênia Grandet, de Balzac, é um belo de um enredo, mas terminou e passou. É verdade, esse tipo de categorização pode ser arbitrário: para muitas pessoas, O grupo, de Mary McCarthy, é apenas uma história, para mim é um retrato fabulosamente costurado sobre a sociedade americana da época; para muitos, A idade do serrote, de Murilo Mendes, é apenas uma história bonitinha, para mim é um livro lindo que invejo por não ter escrito – releio e sinto que tremo um bocado. 

É assim, com muitas dúvidas, muita reavaliação e uma coleção gigante de boas palavras desse idioma magnífico que é o português – Paulo Rónai, sensível, dizia ser “uma língua de passarinhos” – que retorno (agora o verbo) a escrever ficção. 

***

NOTAS

1. Dizer que invejo Murilo Mendes por não ter sido eu a escrever A idade do serrote não faz com que eu intente escrever uma história como a dele. Meu estilo é completamente diferente e existe um abismo enorme entre desejar “eu queria ter sido esse livro do Mendes” e “eu quero ser um livro do Mendes”.

2. Escrever para os outros, que avaliarão o livro (no momento estou escrevendo contos), traz um misto de sentimentos. Eu muitas vezes escrevo e repentinamente lembro de alguém. E já me antecipo: “correto vai ser se essa pessoa não gostar”. É assim que escrevo: para agradar bárbaros e chatear romanos. Chico Buarque reviu sua música quando percebeu que tipos como Nelson Rodrigues a estavam elogiando demais. Não importam os elogios, mas os elogios das pessoas certas.

3. Há desconhecidos que leem este blog, há conhecidos que leem e há conhecidos que leem e fingem que não leram. Quanto aos últimos, acho isso muito bom, continuem assim, pois desse modo me privo de cobranças e questionamentos. “Estar escrevendo um livro” (estou somente escrevendo, se vai virar livro é outra história) e divulgar é quase pedir para quem não sabe puxar assunto perguntar “e o livro?” a cada semana. Se querem experimentar a sensação de carregar essa pulga, digam para os outros que vão prestar vestibular, que farão um concurso ou que estão tentando engravidar. Diária ou semanalmente virão perguntas repetitivas que querem trazer incômodo e não envolvimento amigável: “e os estudos?” “e o concurso?” “e os estudos para o vestibular e para o concurso?” “e a tentativa de gravidez?”. Sugestões de resposta antes de virar as costas e fingir que há algo urgente para fazer: “tão indo” ou “tá indo”.

4. O que eu mais queria era poder desligar minha memória temporariamente (e de maneira seletiva) no meio da noite, após escrever, toda vez que bem entendesse. Assim, eu escreveria numa madrugada, imprimiria os papéis e os colocaria no sofá, desligaria minha memória, acordaria no dia seguinte e encontraria meus escritos sem saber que são meus. Isso proporcionaria um vital distanciamento do texto que é impossível ter enquanto se escreve. É esse distanciamento que possibilita uma boa avaliação do que foi escrito, mas como tê-lo sem que tenha que se recorrer ao “esquecimento” de um texto na gaveta por anos? Nesse meu sonho ideal eu acordaria, acharia os papéis, inquiriria “o que é isso?”, leria e poderia avaliar “de fora”. Poderia dizer “que horror, quem escreveu isso?” ou “nossa, que maravilhoso, quem foi que escreveu isso aqui?”. Não tenho esse poder sublime. Mas quando terminar meu primeiro conto vou deixá-lo parado escondido por pelo menos um mês antes de relê-lo. Talvez ajude.