quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ponderações sobre má literatura: os casos de Olhos d'água, de Conceição Evaristo, e Submissão, de Michel Houellebecq


Caso alguém tenha parado para estudar minha conduta, verá que sempre critico pessoas e elogio livros. Não costumo conceder espaço para a crítica a um livro específico; em vez disso, estou aqui e ali recomendando leituras. Pontualmente já amaldiçoei Foucault – vaidoso, pedante e megalomaníaco –, Clarice Lispector – fraca, pretensiosa e confundindo desvario com surrealismo – e Lacan – charlatão, complicador e maçante –, mas nenhum deles e nenhuma de suas obras recebeu uma postagem própria. Desvio-me de minha conduta costumeira, agora, para falar ligeiramente sobre os livros Olhos d'água, da mineira Conceição Evaristo, e Submissão, do francês Michel Houellebecq. 

Há inúmeros fatores que levam uma ficção a ser ruim. Muitas vezes um ótimo leitor acha que essa qualidade (de ótimo leitor) o leva a ser, por corolário, um ótimo escritor, e desanda a escrever livros que ele não percebe serem horrendos. É o caso de Paulo Francis e suas tentativas de literatura. Quem via Francis criticando outros escritores – porque exuberantes, porque escolhiam termos antiquados para começar sentenças, porque de vocabulário relaxado – podia pensar “eis um homem que deve saber escrever”. Na verdade, eis um homem que prova que teoria e prática podem se distanciar com um abismo no meio. Necessariamente, saber a teoria e não saber a prática não são infortúnios. Críticos literários apontam focos de luz para obras de maneira magnífica, e vários deles sabem que seu talento para cortar excessos, acrescentar estofo, aparar arestas não os habilita para o ofício da escrita fictícia – sabem estar habilitados para a escrita crítica, e isso lhes basta. Infortúnio é quando o crítico teórico não se satisfaz com seu lugar e resolve sentar na poltrona prática do escritor. Paulo Francis podia ter em mente um extenso manual com regras sobre o escrever literário – mas poupar sua ficção das conjunções adversativas com as quais não simpatizava não salvou em nada seu texto. Algo mais de interessante há nessa seara. Alguns dos críticos escritores que não deram certo faziam ótimo trabalho comparativo entre livros, buscando lá e acolá trechos emotivos, selecionando metáforas de perfeito encaixe, costurando uma obra chilena com uma velha ficção japonesa. Eles têm as lentes perfeitas que nenhum oftalmologista, sem ser um pouco mágico, seria capaz de prescrever. Quando a obra arriscada deles entra na roda, todavia, parece que os óculos se quebraram. Como pode o talentoso crítico que classifica todas as obras de sua biblioteca de maneira tão minuciosa e nobre escrever um texto tão ruim, lê-lo, não remendá-lo (ou destruí-lo, ou escondê-lo numa gaveta no sótão) e ainda por cima ter a cegueira explicitada ao ousar publicá-lo? Como pode ele, que é um papa dizendo “isso é bom por isso, mas eu tiraria aquilo”, não conseguir ter o mesmo senso quando se trata de algo escrito com suas próprias mãos? Deve ser a mesma moléstia que acomete pais que têm filhos mal-educados e mesmo assim propagam sua autoproclamada competência em elencar os defeitos nos monstrinhos alheios.

Outras vezes um leitor de meia dúzia de livros já se apaixona pelo ofício – ou pela pompa que o ofício traz – e começa a escrever qualquer coisa “fabulosa, de impacto”. Já fui uma adolescente que queria escrever, sei o que é isso. Mas há pessoas prepotentes de cinquenta anos que parecem ainda não ter saído dessa fase. Há exceções: basta olhar quantas obras da consagrada literatura clássica universal foram escritas por escritores imberbes. Alguma cautela e modéstia para não se pensar uma das exceções ou “o novo Rimbaud” nessas ocasiões de abundância criadora faz bem. 

Um livro – ou o escritor inteiro – pode ser ruim por não atentar ao conselho de André Gide, que já expus aqui como uma das máximas que me martelam: não é com bons sentimentos que se faz boa literatura. Olhos d'água, de Conceição Evaristo, é isso – um ouvido mouco para o aviso de Gide. Conceição Evaristo é mulher, negra, começou a vida como empregada doméstica e hoje é doutora em literatura comparada pela UFF. Foi ovacionada na última FLIP e seu Olhos d'água é recomendação de leitura para o vestibular da UFSC. Nesse livro de contos, os protagonistas são negros. Eles sofrem, padecem de injustiças, morrem (são mortos). Um currículo e tanto para uma escritora e para um livro. Mesmo assim, não é boa literatura. É, aliás, um dos piores livros que li nos últimos anos. 

Primeiro, o básico, que vou considerar aqui desimportante perto do conjunto de problemas. Há erros de português feios em Olhos d'água. O movimento negro se erguerá e bradará que isso não é relevante, que a literatura tem licença gramatical, que me apego a coisinhas. Poderia ser tudo verdade, se o caso fosse diferente. Conceição Evaristo não diferencia o “porque junto” do “por que separado”; escreve frases como “não sabia porque tinha feito aquilo” – e isso tudo quando é alguém externo (ela) que narra a vida dos personagens. Não há a desculpa de que “é porque o personagem é simples, não sabe pensar gramaticalmente, e foi proposital ressaltar isso no suposto erro”. Não é o personagem simples que narra para ele ter a licença da simplicidade para errar, tanto é que não há crítica nenhuma a ser feita quando em diálogos não há nenhuma consideração à norma culta. Eu também não criticaria se o narrador quisesse começar uma frase com “lhe pareceu”, porque isso soa como um narrador que conta uma história de maneira oral. Pela oralidade, não há diferença entre “porque junto” e “por que separado”, então o narrador pode muito bem escrever da forma correta que o ouvinte entenderá da forma como quiser. Mas o narrador (que não é personagem) escreve, eu (que não sou mera ouvinte) leio – num episódio como esse, escrever errado é birra de quem não tem a sensibilidade literária de entender quando é que o coloquialismo serve e quando é que a norma culta cabe. No conto O cooper de Cida, o personagem (que não é quem narra) pensa: “ela estava atrazadérrima”, com z. Se esse personagem estivesse escrevendo, o erro de grafia seria cabível. Não, o personagem pensa a palavra “atrazadérrima”. Quem pensa dentro da ficção pode pensar com erros que seriam captados pelo ouvido (Vidas Secas, Sagarana), erros que seriam de pronúncia e composição – Conceição se atreve: o personagem dela até pensa com erros de grafia. Eu não vejo isso como “audácia, novidade”, e sim como inépcia. A escritora força erros de português em lugares inadequados para que sua literatura seja popular, de minoria, do jeito que a vida é, et cetera. Sua militância atrapalha a construção de seu estilo. Para a publicação desse livro, imagino duas possibilidades de cena. Numa, Conceição entrega o original e os encarregados – Editora Pallas e Fundação Biblioteca Nacional – leem, mas não consertam nada “porque deve ser assim mesmo”; o revisor só lê o texto para averiguar se não há problemas de diagramação e manda imprimir. Na outra cena (que acho a mais provável), Conceição entrega o original e já anuncia que há erros de português, mas que é isso mesmo, que todos foram pensados e colocados deliberadamente nas histórias. O horror, reitero, não são os erros: são os erros nos lugares inapropriados, como a atitude de uma rebelde amadora que quer afrontar a norma culta da maneira mais aloprada possível. Não, o fato de Conceição Evaristo ser graduada em Letras, mestra em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada não a impede de ser uma rebelde amadora ao escrever a própria ficção. 

Os contos de Olhos d'água são curtos. Não há tempo nem encanto para se afeiçoar aos personagens – a menos, é claro, que você esteja predisposto a gostar da obra por motivos ideológicos, mas aí, também é claro, esse meu juízo servirá somente para sua raiva, porque quem tem motivações ideológicas nunca será capaz de usar uma balança com os pesos corretos. Os personagens são mal descritos, são superficiais, e Conceição força que o leitor se afeiçoe a eles por pena. Pena porque são negros, pobres, sofrem. É quase constrangedor, mas poderia ser pior se fosse numa entrevista de emprego para trabalhar numa ONG: você não gosta do que lê, mas não pode declarar, porque será acusado de reprodutor de branquismo, opressor, frio, não entendedor do que o racismo no Brasil faz o negro passar e outras apelações para quem não consegue ouvir um “não” ou um “a despeito da sua vivência, você escreve mal demais”. Na síntese após chamada de matéria na Carta Capital, fala-se de Conceição: “uma das convidadas da FLIP, a autora atribui suas publicações tardias ao racismo institucional que se reflete na literatura”. Eu, tendo lido apenas Olhos d'água, já acho Conceição incompetente para a ficção. Mas se digo isso a ela terei que ouvir sobre racismo em vez de ouvir sobre qualidade literária, que é uma coisa simplíssima que as histórias dela não têm. Isso explica o grande alerta sobre o perigo da militância fanática dentro da arte. Machado de Assis, negro, pode até ter sido embranquecido pela história passada para poder figurar sem polêmica na relação dos gênios, mas não foi eliminado do círculo, não teve as obras ofuscadas, não deixou de ser elogiado, não teve seu assento na ABL retirado antes da posse. Machado prosperou apesar do racismo porque era de qualidade. E mais: não precisou da bengala da misericórdia para crescer como escritor, para ter alcance à nata intelectual. Ninguém precisou ter dó de um personagem de Machado para dar a saraivada de aplausos que ele merecia. Num país racista, talvez Machado pudesse ter vivido a necessidade de se humilhar em explicações tácitas: "apesar de negro, escrevo bem". Conceição inverte e fala mais sobre sua condição de minoria do que sobre sua literatura quando é convidada a apresentar sua literatura. Ela pede, tacitamente: "apesar de escrever mal, sou negra". 

É tudo verdade: negros (e principalmente mulheres negras) tiveram dificuldade para ascender à esfera literária porque uma vida de racismo e pobreza não atrai livros, intelectualidade, oportunidades melhores; teríamos mais escritores negros no Brasil caso não existisse um passado tão opressivo (sem passado opressivo, talvez tivéssemos menos negros no Brasil, já que a maior parte dos que aqui estão são filhos da escravidão); se o negro pudesse frequentar espaços privilegiados em condição de igualdade com os brancos a literatura nacional teria enriquecido muito. É tudo verdade. Mas nenhum desses fatos fará com que se torne verdade que Conceição Evaristo escreve bem. 

Em Di Lixão, de quatro páginas – fonte robusta, espaçamento folgado –, o personagem que dá nome ao conto é um rapaz que vive na rua. Passado ruim, viu a mãe morrer e ao se lembrar dela pensou “ainda bem que aquela puta tinha morrido!” E sua história nas mãos de Conceição termina assim:

"Fez um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida... Deitou novamente, retomando a posição de feto. Já eram sete horas da manhã. Um transeunte passou e teve a impressão de que o garoto estava morto. Um filete de sangue escorria de sua boca entreaberta. Às nove horas o rabecão da polícia veio recolher o cadáver. O menino era conhecido ali na área. Tinha a mania de chutar os latões de lixo e por isso ganhara o apelido. Sim! Aquele era o Di Lixão. Di Lixão havia morrido."

Seu papel como leitor é sentir pena de Di Lixão tendo por base essas frases secas. Ele morre, veja. Sua história termina com sua morte. Onde está seu coração? Então, no conto seguinte, Lumbiá, que não chega a cinco páginas de texto, há esse desfecho: 

"O sinal! O carro! Lumbiá! Pivete! Criança! Erê, Jesus Menino. Amassados, massacrados, quebrados! Deus-menino, Lumbiá morreu!"

Conceição é a Agatha Christie brasileira, matando gente a rodo. 

Em outro conto, a personagem é assassinada. Em outro conto, ocorre um suicídio coletivo. O que se quer tanto apelando para essa matança? 

Abate-se sobre mim muito desânimo quando leio um livro que o autor pareceu não saber como acabar. Recorre-se, nesse caso, ao amor, à pressa, a um final supostamente proposital como um soco dado na parede de uma sala vazia e escura. O Mestre e Margarida, de Bulgákov, ia muito bem e transcorria como um feitiço. Até que aparece Margarida, aparentando resolver o desenrolar de uma trama que não sabia onde se enfiar. Quando comecei Demian, de Hermann Hesse, pensei que seria um dos livros da minha vida. E quando você acha um livro que parece que vai ser o da sua vida, você se torna infante outra vez: dança abraçada com o livro, acende velas, beberica um vinho enquanto alisa a capa do livro, como se se preparasse para um evento no paraíso, “somos você e eu, meu livrinho, esta noite”. Até que Hesse pareceu não saber que tipo de encaminhamento dar a uma relação entre dois jovens – e fez surgir uma mulher. Antes dela, aparecem seus fascínios como prenúncio, e já ali o romance morrera. No Éden as coisas passam a ser mais empolgantes com a aparição de Eva; nessas literaturas, a mulher que surge mata a pureza das relações. 

Dirão que sou contra o amor e as paixonites, o que é uma mentira: sou contra o amor como recurso desesperado para desentalar uma trama ou encerrar uma história. Werther, de Goethe, é amor meloso, dramático, que se arrasta no chão enquanto geme – e é ótimo. O amor não apareceu como expediente para salvar “algo que já está adiantado no escrever, então vamos aí”: o amor é o tema da obra toda. Leitores se mataram depois de ler Werther, é uma temática de amor que envenena, adoece desde o início. 

Na autobiografia Os fatos, de Philip Roth, há um ritmo de narrativa. Digamos: 1, 3, 5, 7… Ao ver que o livro está para terminar, pela quantidade de folhas que sobram na minha mão direita, questiono: “como vai terminar essa história de vida que parece não estar nem na metade?” Termina de jeito aloucado: o ritmo que ia em razão dois – 67, 69, 71, 73 – passa a ser 102, 133, 157, 184, 205. Roth não sabe como terminar sua história, apressa-se e depois ainda tem a cara de pau psicanalítica de colocar um antigo personagem para afrontá-lo sobre a forma como ele narrou a história e a forma como terminou o livro! Pior que essa estratégia, só a dos pintores abstratos, dadaístas e pós-modernos colocando bagunça na tela e justificando, com ares empolados, inventados sentidos. 

Assim, há quem se desespere com a própria história enfiando amor dentro dela, há quem a atropele em velocidade e há quem, como Conceição Evaristo, mate um personagem atrás do outro. “Isso é para que as pessoas tenham ciência de quantos negros morrem.” Não, isso é para quem não entendeu que estudar muito a literatura não habilita a fazer boa literatura. 

Má literatura me causa mal estar físico, e é por isso que nunca mais tentei ler Clarice Lispector. Conceição entrou para a listinha. 

*

Submissão, de Michel Houellebecq, foi chamado de “o livro mais polêmico do ano”. François é um professor universitário especialista na obra de J. K. Huysmans que vê a ascensão, na França, de um candidato da Fraternidade Muçulmana. Escrito no auge das ondas migratórias para a Europa, o livro havia mesmo de causar algum estardalhaço. Foi comparado a 1984, de Orwell, e Admirável mundo novo, de Huxley, e mesmo assim resolvi lê-lo – francamente, não gosto muito de distopias e achei Admirável mundo novo uma história enfadonha. 

Na primeira página, o personagem faz uma crítica aos “que concluem seus estudos” e adentram o ciclo ambicioso, “hipnotizados que estão pela ânsia do dinheiro”. Depois disso, mais sentenças idiossincráticas, como na terceira página: 

“(…) um livro que amamos é antes de tudo um livro cujo autor amamos, a quem temos vontade de encontrar, com quem desejamos passar nossos dias.” 

Não concordo. Não quero encontrar os autores que leio, porque sei que o que leio é o sumo do que melhor veio das pessoas que leio, e pessoalmente um bom autor pode ser exaustivo, arrogante, ter mau hálito crônico. Mas François vai se criando e aparecendo como um personagem cheio de teorias, e isso pode levar a uma química literária. 

Poucas páginas depois, no começo do segundo bloco de parágrafos (não sei se posso chamar de capítulo), uma análise que me seduz: 

“Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras – em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução, acompanhado por uma taxa de não aproveitamento não superior a noventa e cinco por cento. Esses estudos no entanto não são nocivos e podem até apresentar uma utilidade marginal. Uma moça que procure um emprego de vendedora na Céline ou na Hermès deverá naturalmente, e em primeiríssimo lugar, cuidar de sua aparência; mas uma graduação ou um mestrado em letras modernas poderá constituir um trunfo secundário que garanta ao patrão, na falta de competências mais aproveitáveis, uma certa agilidade intelectual que pressagie a possibilidade de uma evolução na carreira – a literatura, além do mais, vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva no ramo da indústria do luxo.” 

A franqueza somada com o início de uma descrição solta sobre as mulheres que passaram por sua cama fez com que eu pensasse que François era o novo Alexander Portnoy – e me senti adolescente de novo, quando me apaixonava com muita facilidade. E em todas as vezes em que me apaixonei com muita facilidade, senti decepção logo depois: assim foi com François. 

Os trechos do começo do livro que cito, e outros, foram marcados a lápis. Vou lendo as primeiras páginas, fisgo trechos interessantes, e se chego por volta da página 30 e percebo que o livro está valendo a pena, busco minha lapiseira (ali em cima escrevi “a lápis” por mera expressão, pois quase nunca uso lápis), marco o que ficou para trás e me preparo para marcar o que virá. Acontece porque se ali na página 30 o livro está confortável, penso “é esse!” e acredito que teremos um futuro promissor. Com as marcações que faço num livro já é possível saber muito sobre a leitura que fiz. Um estranho que abra meu exemplar de Submissão verá que o grosso das minhas sinalizações está antes da página 60. Depois dali, pode achar que abandonei a leitura ou pulei partes. Não abandonei a leitura (devia), nem pulei partes (se for para pular partes, abandono a leitura; ou leio tudo ou nem leio mais). Por quê? Porque Houellebecq parece ter concentrado o que havia de talentoso em sua escrita para colocar na narração de François nas primeiras 60 páginas do livro. Depois, a trama se dilui. O auge da história – um muçulmano tomando o poder na França – ocorre depois, mas não tem quase nada que valha a pena apontar. Brochante.

Pensou-se que Submissão teria muito a tratar sobre a possível aparição de um muçulmano “radical” no poder de um importante país europeu. Tudo o que vem após Mohammed Ben Abbes vencer o pleito é tralálá, como se Houellebecq – um nas primeiras dezenas de páginas do livro, outro depois – tivesse contratado um estudante universitário tido como criativo para terminar a história por ele. Pessoas perdem cargos em universidades, mas de maneira suave. Homens passam a ter algumas esposas, e começam a desposar meninas, mas de maneira suave. François tem sua vida mudada, mas de maneira suave. “Então é provável que o autor quisesse que tudo ficasse suave, naturalizado.” Faz sentido, mas o resultado ficou ruim, artificial. Depois de tanta modorra, só voltei a me ligar a François por segundos quando ele declarou ter disidrose, enfermidade que também tenho. Fora isso, perdoem-me os idosos que me leem, a obra se torna sacal. Haveria tanto assunto sobre o poderio islâmico se alastrando pela França e o escritor não se detém nisso, não leva a sério o livro que escreve, vai falando sobre o novo ar francês possivelmente após voltar de uma festinha com open bar – “ah, deixa eu escrever mais um pouquinho dessa história aqui” –, sem engajamento com o ritmo, o tom, os cortes entre cada página de diário de François. Sua matemática não funciona. Terminei e me recordei como foi ruim – e dolorido – ver Silêncio (Silence, 2016), do Scorsese. Nas duas experiências, inquiri: “o que foi que aconteceu aqui que fez tudo dar tão errado?”

O que salvo de Submissão foi o final, criativo por brincar com o tempo e gerar dúvida, algo como o final da novela Torre de Babel. François não admite que aderiu à corrente muçulmana à qual todos estão aderindo para participar melhor do mundo social. Ele usa o futuro do pretérito do indicativo, que “se refere a um fato que poderia ter acontecido posteriormente a uma situação passada”(*). Estivemos com François no passado. E no presente ele nos deixa “no ar” sobre o que poderia ter acontecido com sua vida: ele “seria”, “estaria”, tornaria” – tudo possibilidades caso tivesse se convertido de fato, coisa que não temos certeza de que fez. E encerra: “eu nada teria do que me lamentar”.

Submissão decepciona principalmente por gerar um efeito de precipício entre expectativa e realidade. Esperou-se que fosse um livro a colocar o dedo na ferida sobre islamismo. O autor se promoveu com a ameaça "olhem, olhem, vou cavoucar a ferida muçulmana!". As editoras compraram a ideia e fizeram com que conquistasse terreno, até como estratégia de vendas. Mas no fim não há um muçulmano sério que possa se ofender com o livro de Houellebecq. Esse é o autêntico cão que ladra e não morde. Imaginei, antes de lê-lo e ciente apenas da sua propaganda, que o autor se tornaria o novo Salman Rushdie, ameaçado de morte por quem se pensa intocável em suas ideias. Isso não aconteceu e não acontecerá. Houellebecq permanece na segurança e no conforto de seu lar, possivelmente acenando para o vizinho muçulmano que achou sua obra "divertida". Comparar esse texto a 1984, que causa agonia pelo tamanho horror, é escancarar para o mundo uma ignorância que ficaria bonitinha, oculta, se não tivesse língua para falar nem dedos para digitar tal contrassenso. 

Felizmente não sou a única a ver – e dizer – que o rei está nu (não me interessam os diplomas do rei ou seus prêmios: Houellebecq e Conceição Evaristo foram premiados e eu me preocupo tanto com eles quanto com os premiadores). Ao dar somente uma estrela ao livro na Amazon, um leitor resume bem a sensação de quem lê Submissão: “O livro é uma fraude extremamente bem urdida por uma boa campanha de marketing. Dinheiro absolutamente desperdiçado.” Outro fala numa frase o que eu queria ter dito em todas as linhas que escrevi: “Uma ótima ideia que não poderia ser mais mal desenvolvida. História fraca em que vários elementos não conversam. Não recomendo.” Já a resenha que está no topo, com cinco estrelas, é intitulada: “a mesquinharia humana elevada ao sublime”. O livro de Conceição na Amazon? Só elogios, como "é um livro que respira por nossos olhos". Tem gente que vê no rei até mais roupas do que ele mesmo pensa estar vestindo. E várias outras pessoas, entusiasmadas e levadas por correntezas, também querem viajar nesse balão.

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NOTAS

1. Escrevi esta postagem ouvindo Drinking Electricity – Discord dance no repeat. Aviso porque às vezes podem pensar que pela aspereza devo escrever ao som de Darkthrone ou Destruction. Não. Estou aqui muito tranquila ouvindo cold wave. 

2. Quando critico um livro, não o faço esperando que as pessoas não o leiam, não o faço para desmotivar a leitura. Mesmo quem leva em conta minha opinião – obrigada – deve, se tiver tempo e se for possível, ler esses livros que destruo. O que espero é que as pessoas não gastem dinheiro com esse tipo de livro. É um alerta: “Cuidado! Não jogue seu dinheiro no lixo!” Não porque eu seja apegada a dinheiro – não sou, nunca fui –, mas porque acho que autor/editora não merecem ganhar mais dinheiro em cima de uma obra ruim. Há muitas bibliotecas públicas com acervo amplo, há livrarias que permitem que se folheiem os livros à venda. Vão lá e leiam excertos antes de fazer uma compra apressada. Uma das funções de uma biblioteca é antecipar o que poderia ter sido uma aquisição ruim para você.

3. Minha disidrose é apenas no dedo mindinho da mão direita. E nem sempre se manifesta. Não tem cura. Mas não é contagiosa.